Vivemos numa era em que o acesso à informação é infinito e, mesmo assim, a humanidade parece estar cada vez mais... distraída (gosto de eufemismo). Não é só distraída, está a ser entorpecida em massa (ainda eufemismo). E não, não falo apenas das redes sociais, memes ou vídeos de gatos — que adoro. Falo daquela velha amiga que se veste de virtude e paz: a religião.
A religião, em teoria, deveria ser um farol de luz, um guia para a moralidade, uma ponte para a transcendência, mas, na prática — em muitos casos — transformou-se num sofá macio onde o pensamento crítico é… vá, aborrecido, é uma feira popular de dogmas que repetimos sem questionar, como papagaios em burnout.
Quantas vezes ouvimos frases vazias, mantras sem nexo, verdades absolutas lançadas como granadas, mas sem nenhum espaço para a dúvida, o questionamento ou a evolução? Quantas vezes nos prendemos a regras que são correntes invisíveis, amarrando a nossa liberdade intelectual e emocional?
Vivemos numa época em que o verbo "acreditar" é confundido com "pensar"; em que a fé cega é celebrada e o raciocínio é visto com desconfiança — tal é a fragilidade intelectual. E assim, deixamo-nos embalar por narrativas prontas, rejeitando o desafio de olhar para dentro e questionar, melhorar, questionar, melhorar, questionar, melhorar… (Acho que já me fiz entender.)
Se a tua fé não aguenta perguntas, então não é fé.
É medo transvestido de devoção.
É mais fácil apontar o dedo a um inimigo externo — o ateu, o muçulmano, o gay, o budista, a mulher (outra vez?!), o que medita com cristais. Mas a verdade crua? Muitas vezes, somos nós os carcereiros da nossa própria consciência, porque a religião não oprime sozinha. Ela precisa da nossa cumplicidade passiva, do nosso medo de pensar fora da caixa. Mais: enquanto olhamos os outros, não nos vemos a nós… não vemos em quem nos vamos tornando.
E, no meio disto tudo, a humanidade vai ficando anestesiada. Perdemos o espírito crítico, o gosto pelo debate genuíno e estimulante. Perdemos a coragem de desafiar o status quo e, quem não tem argumentos, parte para o insulto pessoal e irracional. Baixo, previsível e tão... poucaxinho.
Não permitamos que a estupidificação (pronto, saiu!) em massa se torne o nosso destino, por favor!
Quebremos o ciclo. Abramos os olhos. Questionemos. Vamos discutir. Vamos tertuliar! Porque a verdadeira fé, o verdadeiro poder, está no conhecimento que nasce da compreensão, não da ignorância.
"Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o mundo."
Sendo o Cristianismo a religião predominante no Ocidente e sendo a sua mensagem tão clara:
"Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" - sem letras pequeninas, sem asteriscos - vivemos num tempo de crítica viperina e intolerância estratosférica.
E nem vale a pena falar das guerras religiosas seculares que, na verdade, nada têm a ver com Deus. Têm a ver com ganância, com o poder terreno e com uma ignorância grotesca.
Os comportamentos de certos líderes religiosos e políticos - essa mistura tóxica - são sempre perniciosos. Sempre.
Mas que fique claro: não se trata de confundir espiritualidade com religião — essa sim, essência pura. Trata-se de desmascarar a sua apropriação corporativa, política e patriarcal.
De Bíblia na mão — que ninguém sabe ao certo quem escreveu! — fazem-se e dizem-se atrocidades que expõem a imaturidade de uma boa parte da humanidade... na verdade, da maioria.
E antes que venham com os "isso é blasfémia", um lembrete histórico básico: ninguém sabe quem escreveu a Bíblia. Em verdade vos digo: são documentos traduzidos de várias línguas, cortados, manipulados, editados em concílios cheios de testosterona e ambição.
No de Niceia, por exemplo, fizeram um update no estatuto de Jesus: de mestre iluminado a Deus oficial, que largou a gestão de todos os universos para vir à Terra. (Contém ironia) E o poder feminino? Foi para o arquivo morto. Maria Madalena, que muito provavelmente sabia mais de espiritualidade do que todos os apóstolos juntos, foi passada para a categoria de "pecadora arrependida". Fica sempre bem para efeitos de controlo feminino… esse espécime que ainda hoje causa tanto medo, bolas!
Os evangelhos apócrifos, descobertos em Nag Hammadi em 1945, estavam convenientemente enterrados. E houve até um rei (olá, Henrique VIII, de cognome: o doidinho varrido) que encomendou a sua versão personalizada da Bíblia - porque sim. Porque podia. Porque... por que não?
Sabes, é o clássico jogo do telefone estragado, versão teológica. Aquela dinâmica em que uma história passa de boca em boca e, no fim, já ninguém sabe como começou. Só que aqui estamos a falar de séculos de manipulação e não de um workshop de team building.
Conspiração? Teoria? Talvez.
Mas e se for só a realidade nua, de má-fé, abafada por séculos de censura e dogma?
O grande problema? É que esta versão institucionalizada da fé serve — e muito bem — a quem quer poder, controlo e obediência. Vestem-se de santidade para justificar guerras, exclusões, homofobia, misoginia e racismo. Tudo em nome de Deus. Um Deus antropomórfico... ainda?!
Por isso, concordo com alguém muito inteligente e coerente que disse:
"Gosto do Deus que criou o Homem, mas não gosto do Deus que o Homem criou."
E nós? O que fazemos agora?
Alguns batem no peito. Outros batem em quem pensa diferente.
E o que sai das suas bocas é algo tipo “Uga buga”. Que me perdoem os nossos antepassados — que eram... wait for it... migrantes! O mestre Jesus foi um migrante!
Poucos lembram que o verdadeiro ensinamento está na compaixão. No respeito. Na inclusão. No amor vivido, não apenas pregado demagogicamente.
Mas é mais fácil cuspir dogmas do que praticar empatia. Porque a empatia dói. E nós não sabemos lidar com a dor. (Eis um dos busílis.)
Vamos, então, continuar a repetir versículos? Porque pensar, mudar, amar de verdade... dá trabalho.
Exige coragem.
Exige responsabilização.
Então aqui vai a pergunta que não quer calar:
Vamos continuar a ser marionetas de narrativas editadas? Reféns de líderes que vendem fé em pacotes de chantagem emocional? Ou vamos, vá… acordar?
Se o teu amor depende da cor, da crença, do género ou da orientação do outro, então, não é amor.
É regra.
E o sagrado não se encaixa em regras. Ele transborda. Transborda crenças, fronteiras geográficas e intelectuais.
Então, não.
Eu não me sento nesse sofá do pensamento raso.
Eu levanto-me.
E grito, com o batom vermelho ainda intacto nos lábios:
"Quem te ensinou a ter medo de pensar por ti?"
