Minhas irmãs do futuro,
Escrevo-vos não da eternidade, mas da memória. Do lugar onde repousam as vozes de todas as que ousaram levantar-se quando o mundo gritava que se calassem.
Chamo-me Carolina Beatriz Ângelo. Fui médica, mãe e viúva. Mas foi como cidadã, sim, com todas as letras, que entrei para a História.
Em 1911, apresentei-me para votar nas eleições da Assembleia Constituinte. A lei dizia que só os chefes de família podiam votar. Eu era viúva. Chefe de família. Com uma filha para sustentar. E com isso, abri uma brecha na muralha.
Votei. Primeira mulher a fazê-lo em Portugal.
Mas não foi bonito. Chamaram-me de tudo. Humilharam-me em público e em privado. Tentei entrar pelas portas da democracia e fizeram de tudo para me empurrar escada abaixo.
Sabem o que aconteceu depois? A lei foi alterada, rapidamente, para excluir expressamente as mulheres. A minha ousadia foi corrigida. Com uma lei. Com medo. Com pressa.
Quando votei, não o fiz por vaidade. Fi-lo com o coração cheio de reverência por todas as mulheres que me antecederam. Pelas sufragistas inglesas que foram presas, espancadas, perseguidas. Por cada mulher que arriscou tudo para que um dia uma de nós pudesse entrar numa assembleia e dizer: "eu também conto."
Respeitei-as. Honrei-as. Deixei que me guiassem com a sua coragem.
E, hoje, olho para vocês, mulheres livres, e pergunto-me: onde está o vosso respeito por mim, por elas?
Podem votar sem pedir autorização. Sem lutar nos tribunais. Sem serem cuspidas na rua, ou impedidas de entrar em edifícios públicos. E ainda assim… muitas de vocês simplesmente não vão. Como se o direito de escolher não tivesse vindo da dor, do exílio, da vergonha e do sangue.
Queridas, vocês não são obrigadas a nada. Mas deixem que vos diga: quando uma mulher não vota, não está a ser neutra, está a concordar com o poder de outros sobre a sua vida.
Eu votei para que vocês pudessem discordar. Pudessem falar alto. Pudessem levantar a mão e dizer "eu conto!"
Votar não é só um direito. É um tributo. Às que vieram antes. Às que morreram por um boletim que vocês, hoje, desvalorizam.
Espero no próximo ano não repetir o ralhete, pois sei que mais eleições virão.
Com ternura e poder feminino,
Carolina Beatriz Ângelo
