O sofá ganha alma de teia de aranha. As pantufas alcançam o estatuto de sapato oficial e os estilettos, outrora aliados em batalhas glamorosas, tornam-se arqui-inimigos. Maquilhar já não é arte, é sacrifício. O gin tónico todo pipoca com raminho de alecrim e pepino dá lugar à caneca de chá verde no sofá. Verde-menta, se faz favor.
Ontem aconteceu-me isso: o ruído venceu e fui para casa a horas indecentes (leia-se 22h). Pessoal da restauração, invistam em material de insonorização. Ajudem a maltinha. Facilitem a nossa vida.
Quando é que isto acontece?
Será depois do "sim" no altar, quando acreditámos que a luta acabou e podemos largar o brilho, o charme, nós próprias? Não.
Será depois dos filhos, quando a logística da vida transforma uma ida ao supermercado numa modalidade olímpica digna de medalha? Não.
Ou será quando o cansaço bate à porta, não por ser a causa-raiz, mas por ser o sintoma, de uma vida em que deixámos de nos colocar no centro? E, sem dar conta, começamos a andar no automático, a flutuar em vez de viver.
Os sinais estão lá, piscam em néon pink: já não nos arranjamos nem para ir à farmácia comprar Guronsan - que programa excitante! -, passamos semanas sem marcar um jantar com amigos, começamos a usar expressões como “não tenho paciência” e “para quê?”. Quando é que aconteceu o primeiro “não me apetece”? Esse momento é o busílis. O que aconteceu imediatamente antes desse momento?
Se já não tiras as sobrancelhas nem para ir buscar a encomenda à porta da Amazon, red flag! Já não estamos a falar de descanso. Aí já entrámos no campo da desistência.
Mas então… como saímos do sofá que já tem a nossa forma?
Primeiro: sem culpa. A culpa não ajuda, é cimento em cima da manta quentinha. E não, não há spa que faça detox disso (mas podemos ir tentando). A saída começa devagarinho: um batom vermelho só para ti (vai comprar agora!), um café em vez do scroll infinito, um jantar improvisado com amigas que te fazem rir até às lágrimas. Pequenos gestos, mas que vão dizendo ao cérebro: “Olha, não estou morta. Só estava a repousar os costados.”
Segundo: movimento. Não falo de treinar para a maratona de Boston, embora a da Ponte 25 de Abril seja uma opção, convenhamos. A de D. Luís? Serve! Dança na sala como se estivesses nos anos 90, no Incógnito… no Alcântara-Mar. (Se não sabes o que é, google it, e não me enxovalhes). O corpo em movimento lembra a alma - e o núcleo accumbens, esse dealer oficial de dopamina - de que ainda está viva e assim se quer manter.
Terceiro: reencontra a curiosidade. Faz algo novo, inscreve-te num workshop de Pole Dance, aulas de Tabata (sim, Tabata, não batata corretor automático). Aprende um prato que não envolva apenas ovos e atum ou, vá, tenta não queimar arroz (como eu, que já consegui a proeza de fazê-lo três vezes na mesma semana). A novidade refresca o cérebro, quebra padrões, devolve-nos energia e alegria.
E, acima de tudo, lembra-te: conforto é bom para pausar. Nunca para viver. Porque, minha irmã, não nascemos para morrer de pantufas nos pés, certo? CERTO?
Eu cá para mim, vou calçar os estilettos que comprei em Riga, na minha viagem espontânea… e vestir a lingerie vermelha. Para quem? Adivinha.
Punchline:
A vida não está no sofá. Está no salto (alto), no risco, no riso. O resto é taxidermia com manta polar.
