Em que acreditas tu, realmente? Não o que disseste na catequese, não o que respondes quando alguém pergunta em contexto social para não criar silêncios incómodos. O que veneras, de facto, no teu dia a dia? Porque todos temos deuses. A questão é se os escolhemos com consciência ou se eles nos escolheram a nós enquanto estávamos distraídas a fazer outra coisa.
O dinheiro é o mais honesto de todos. Não finge ser outra coisa, não tem liturgia elaborada nem promessas de vida eterna, é directo: dás-me atenção, dás-me tempo, dás-me energia e eu dou-te segurança. Ou a ilusão dela, que é quase a mesma coisa até deixar de ser. Os seus templos são os centros comerciais, as suas escrituras são os extractos bancários e os seus sacerdotes são os consultores financeiros que falam em línguas que só eles entendem. Há quem lhes chame liberdade. Há quem os confunda com identidade. Há quem acorde às três da manhã a rezar-lhes, que é o nome que damos à ansiedade quando não queremos admitir o que é.
O poder é mais subtil e por isso mais perigoso. O poder não se proclama, instala-se. Começa por parecer ambição legítima, depois torna-se necessidade, depois vicia, e a determinada altura a pessoa já não consegue distinguir o que quer do que o poder quer por ela. Os seus devotos são reconhecíveis por uma característica comum: nunca têm suficiente. Mais um cargo, mais um título, mais um território, mais uma validação, mais um reconhecimento. É uma fome que não tem fundo porque não é fome de poder, é fome de valor próprio disfarçada de estratégia de carreira. Ou de geopolítica, já agora. Porque já reparaste que os países maiores do mundo são sempre os que querem mais território? A Rússia tem onze fusos horários e quer a Ucrânia. Paremos uns segundos para tentar compreender esta distopia. Já está? Seguimos, então.
Depois há os deuses relacionais, esses que são talvez os mais complicados de todos porque se disfarçam de amor. Um homem, uma mulher, uma relação, os filhos. Não há nada de errado em amar profundamente, pelo contrário. O problema começa quando o outro deixa de ser uma pessoa e se torna um altar. Quando a tua paz depende do humor dele. Quando a tua identidade se dissolve na função de mãe, de parceira, de filha exemplar, até já não saberes muito bem quem és quando não estás a servir alguém. Já falámos disto, lembras-te? Somos inteiras. Quem vem, vem para acrescentar.
E depois há o status, esse deus contemporâneo por excelência, tão português e tão universal ao mesmo tempo. A casa com piscina que não usas. O carro que comunica uma mensagem que ninguém está realmente a ler. As férias fotografadas para uma audiência que não te conhece. O currículo construído para impressionar pessoas de quem não gostas particularmente. É o altar mais caro de todos e o que menos retorno dá, porque o status é sempre relativo, sempre comparativo, sempre dependente de quem está à volta e do que eles têm. É uma corrida sem ponto de chegada num circuito que alguém desenhou para ti sem te perguntar se querias participar.
O filósofo estoico Marco Aurélio escreveu nas suas Meditações, há quase dois mil anos, que a maioria das coisas que os homens perseguem são vazias e corruptas. Não precisou de ver o Instagram para chegar a esta conclusão, o que diz algo sobre a consistência da natureza humana ao longo dos séculos.
Krishnamurti, que já aqui visitámos, dizia que o observador é o observado. Que aquilo a que damos atenção somos nós. E se passas o teu tempo, a tua energia e os teus pensamentos a venerar o dinheiro, o poder, a aprovação ou o status, não é que te tornes essas coisas. É o que deixas de ser.
Somos todos peregrinos. Todos vamos partir, com ou sem a casa com piscina, com ou sem o título no cartão de visita, com ou sem seguidores, com ou sem a aprovação de quem nunca nos amou verdadeiramente de qualquer forma. A única questão relevante, a que fica quando o silencio tem espaço é se vivemos ou se apenas acumulámos.
E tu, ao que é que tens rezado ultimamente?
