Há um tipo de silêncio que nos devia inquietar mais do que o barulho das bombas. É o silêncio cúmplice, aquele silêncio morno, confortavelmente neutro, que se instala quando sabemos que algo está errado e, ainda assim, escolhemos não mexer uma palha.
Não falo do silêncio da contemplação, nem daquele que antecede uma decisão ponderada. Falo do silêncio dos vizinhos que ouvem gritos no andar de baixo e aumentam o volume da televisão. Falo do silêncio dos amigos que sabem que há violência numa relação e preferem não se meter. Falo do silêncio dos países que assistem à escalada de guerra e optam por declarações elaboradamente vazias.
Comecemos perto. No prédio. Na porta ao lado.
Alguém ouve um estrondo, um choro abafado, um pedido de ajuda que já nem se disfarça. Há sempre ali um segundo de hesitação, aquele instante em que o cérebro decide o que fazer. Bato à porta? Ligo para a polícia? Ou convenço-me de que estou a exagerar, de que não é nada comigo, de que cada casal tem as suas… "dinâmicas"?
Deixa-me responder com todas as letras: Devemos intervir, sim! A partir do momento em que acontece ao nosso lado, é público. É ser humano. É nosso.
Aqui começa a confusão moral do nosso tempo. Queremos viver em comunidade, mas só na parte confortável. Gostamos da ideia de vizinhança solidária, mas sem o incómodo da intervenção. Defendemos os direitos humanos nas redes sociais, escrevemos "Amén" (sim, mal escrito) como descargo de consciência, mas quando o problema está a um metro da nossa porta, já é "intrometer-se". Já não é connosco.
O busílis é simples e brutal: quando o mal acontece à nossa frente e não agimos, até nos convencemos que é por 'respeito'. Respeito, o tanas! Passamos a integrar o sistema que o permite. O silêncio nunca é neutro. Inclina-se sempre para o lado do mais forte, verdade?
Dizemos que a violência é abominável, mas toleramos os pequenos sinais. Dizemos que a dignidade humana é sagrada, mas relativizamos quando defendê-la nos tira do sofá. Escolhemos a paz superficial do elevador em vez da tensão de bater à porta. E depois ampliamos o cenário. Porque a escala muda, mas o paradigma mantém-se.
Estalou a guerra no Médio Oriente. Os Estados Unidos bombardearam o Irão. O Irão respondeu bombardeando tudo à sua volta. Retaliações, mísseis, ameaças e, claro, crianças assassinadas. Crianças, sempre elas, a pagar a factura dos adultos que nunca aprendem.
Antes que alguém venha com leituras apressadas: não há aqui romantização do regime iraniano. Sabemos quem governa o Irão. Sabemos como tratam as mulheres, como reprimem quem ousa discordar, como matam em praça pública sem pudor - hoje como há 3000 anos. Não há ingenuidade nesta análise.
Há, no entanto, que reconhecer que a brutalidade de um regime não transforma o bombardeamento em virtude. Não sejamos ingénuos. A crítica a um, não absolve o outro. E é aqui que a dissonância se instala: somos rápidos a condenar o que já sabemos ser condenável, mas hesitamos quando a responsabilidade implica custos. Políticos, diplomáticos, económicos, tanto faz. Mexer dói. E como dói, não nos mexemos.
A Europa falou em contenção, em preocupação, em estabilidade regional. Palavras medidas, declarações que parecem posicionamento mas não implicam consequência. Zero. Nada que salve uma criança.
Se ouvimos violência no andar de baixo e não fazemos nada, é cobardia individual. Se assistimos à violência entre países e escolhemos a neutralidade, é cobardia institucional. Muda a geografia, não muda a questão moral. Continuamos a assistir, a pesar riscos, a proteger interesses, enquanto pessoas morrem, cidades ardem, o medo se espalha.
Há sempre a desculpa da complexidade, como se isso absolvesse a inação. "É um conflito antigo." "Há interesses geopolíticos." "Não podemos intervir." Claro que é complexo”! A vida também é complexa quando alguém está a ser agredido no apartamento ao lado. A complexidade nunca foi um argumento ético, ou foi? Foi apenas uma descrição da realidade. O silêncio, esse, é escolha.
A História ensina-nos que o verdadeiro busílis raramente é apenas o agressor. É o silêncio confortável dos que assistiram. São os que preferem estabilidade à justiça. São os países que fecham fronteiras. Vizinhos que fecham janelas. Amigos que fecham os olhos.
Continuamos a repetir o padrão, convencidos de que desta vez a nossa neutralidade é… inteligente. No entanto, sabemos que há violência, há agressão, há desequilíbrio de poder e, ainda assim, escondemo-nos atrás da palavra "neutralidade" como se fosse virtude. Não é e nunca foi.
A neutralidade, em contextos de violência clara, é um óbvio posicionamento. Quando um vizinho não age, legitima. Quando um amigo não intervém, normaliza. Quando um continente observa e cala, permite. Pode não ser a intenção, mas é o efeito. E a História julga-nos pelos efeitos e não pelas intenções.
Talvez o que nos falte não seja informação. Temo-la a rodos. Talvez não nos falte opinião. Bolas, opinamos sobre tudo e todos. Talvez nos falte uma coisa bem mais simples: coragem. Coragem para assumir que o silêncio também é ação. Uma não escolha é uma escolha. Que o conforto individual tem um custo coletivo, e que esse custo, mais cedo ou mais tarde, chega à nossa porta. A Roda de Samsara gira.
A pergunta não é se o mundo está violento. Isso já sabemos. A pergunta - a que importa - é onde nos colocamos quando a violência irrompe.
Do lado do incómodo, da responsabilidade, da intervenção possível ainda que imperfeita? Do lado de quem bate à porta, de quem faz o telefonema, de quem se arrisca a errar mas não se cala? Ou do lado do silêncio organizado, da prudência ‘chique’, do "não me vou meter", do "eu não vou mudar nada"?
Respondamos com verdade, mesmo que doa. Porque se ouvimos e não fazemos nada, estamos a dizer alguma coisa. E o que dizemos não é neutro, nem inocente, nem eticamente limpo. É cumplicidade.
E agora? O que é que o silêncio está a pedir de nós, neste momento?
Não chega diagnosticar. Não chega concordar e depois voltar a aumentar o volume da televisão. A pergunta fica:
O que podemos fazer, no nosso quadrado, com o que sabemos agora?
Não precisamos salvar o mundo para começar a salvar alguma coisa. Pode ser uma conversa adiada. Pode ser uma denúncia necessária. Pode ser um abraço apertado a quem sofre sozinho. Pode ser ligar a uma amiga e dizer "estou aqui, mesmo que não saiba o que se passa”. Pode ser não te calares perante a guerra, mesmo que esteja longe.
Identifiquemos o nosso círculo mais próximo e comprometamo-nos a não ignorar sinais. Anotemos o contacto de apoio (APAV, SOS Mulher, Polícia). Escolhe uma causa e pergunta: como posso ajudar?
Intervir é estranho. Bater à porta é constrangedor. Perguntar a uma amiga se ela está a ser agredida é arriscado. É esse desconforto que nos paralisa. A boa notícia? O desconforto treina-se. Da próxima vez que hesitares entre agir ou calar, escolhe agir. Mesmo que desajeitadamente. O músculo da coragem cresce com o uso.
E, muito importante, cuida de nós para podermos cuidar do mundo. Quem se expõe ao sofrimento sem proteção esgota-se. Cultivar o nosso bem-estar é fundamental. Respira. Não podemos dar aquilo que não temos.
O silêncio fala. Mas também escuta. E neste momento, está à espera da tua resposta. Comprometes-te a fazer um tiquinho mais?
