Ora bem, se alguém ainda pensa que o que estamos a viver é meramente meteorológico, desenganem-se.
É, claro, água a cair do céu. É, incontornavelmente, vento a dobrar árvores. É ciência, é física, é a crise climática a bater-nos à porta com uma fúria antiga. Mas reduzir este dilúvio português a um mero relatório da IPMA é como olhar para uma pessoa e ver apenas o esqueleto. Falta a alma do assunto. Falta o porquê cósmico, o para quê filosófico que uma simples previsão do tempo nunca nos dará.
E se eu vos disser que o céu — não o cinzento e plúmbeo que nos ensopa, mas aquele mapa ancestral que os astrólogos decifram — está a contar exatamente a mesma história, só que em linguagem de mito? Que esta não é uma tempestade, mas um ritual de nascimento?
Estamos, quer queiramos quer não, na imersão forçada de um batismo coletivo. E os sacerdotes deste ritual são dois princípios celestes aparentemente opostos: Vénus, o planeta do amor, e Saturno, o senhor da dura realidade. Ambos estão, presentemente, no signo aquático e infinito de Peixes.
O que é que isto quer dizer em linguagem de gente?
Quer dizer que Vénus, por estas semanas, não está interessada em jantares românticos ou em compras terapêuticas. Com os pés (ou melhor, com as barbatanas) em Peixes, ela só quer uma coisa: empatia sem fronteiras. Ela é a força que faz com que a dor de um desconhecido em Odemira nos chegue ao estômago como se fosse nossa. É a energia que transforma um presidente de câmara em irmão mais velho chorando, e um vizinho com uma pá em herói do quotidiano. Esta tempestade dissolveu literalmente os muros entre as nossas vivendas e os nossos corações. Sentimo-nos todos no mesmo aquário porque, astrologicamente, estamos.
E Saturno? Ah, Saturno. Ele é o velho rabugento do Zodíaco. O que faz em Peixes? A sua missão é implacável: dissolver o que é ilusório, poroso e obsoleto. As infraestruturas que ruíram, os planos de emergência que falharam, a nossa ilusão de que "isto a mim não me acontece”, tudo isto é Saturno em Peixes a apontar o dedo às nossas frágeis fundações. Ele não veio com meias medidas. Veio com a enxurrada da verdade. É o líquido ácido que dissolve o nosso casulo coletivo - aquele casulo feito de hábitos confortáveis e de uma certa cegueira confortável - para que algo novo possa, mais tarde, ter espaço para crescer.
Por estes dias, no céu, Vénus e Saturno vão encontrar-se. É o momento alquímico. É o instante em que o coração que chora a perda (Vénus) se senta à mesa com o arquiteto que exige uma nova estrutura (Saturno). É dramático? É. Mas é também profundamente criador.
É aqui, no cerne desta alquimia, que encontramos a tarefa mais difícil e mais sagrada: a de deixar ir.
Toda esta configuração celeste é, na sua essência mais pura, um imenso ritual de desapego. Vénus em Peixes pede-nos que soltemos o que achamos que é só "nosso". Saturno exige que abandonemos, de uma vez por todas, o que é frágil e ilusório. E se há uma única lei espiritual a reter deste dilúvio, é esta: o que esta água está a levar, já não nos servia para o que aí vem. Parece duro? Sim. É a mecânica íntima da metamorfose. A lagarta não faz um plano de gestão para a sua própria decomposição. Ela entrega-se. Confia num pacto maior: o pacto com o voo.
Nós somos agora chamados a essa mesma confiança radical. A perguntar, no meio da enxurrada: A que me estou a agarrar que, no fundo, já morreu? Deixar ir não é um ato passivo de desistência. É um ato criativo e corajoso de abrir mão. De criar espaço novo. É dizer à Vida: "Toma. Leva o que já não é para a Viagem. Eu fico com a lição, com a cicatriz que se tornará sabedoria, e com as mãos vazias mas capazes e prontas para construir de novo."
O nosso pacto agora, debaixo desta chuva saturnina e deste amor venusiano, não é o de secar e fingir que nada aconteceu. É o de permitir que a água lave as ilusões e leve o que tem de ser levado. É aceitar que sairemos daqui mais leves, mais ligados e infinitamente mais sábios. Com os pés na lama, mas com o olhar num horizonte que, prometo-vos, há-de ser de uma claridade impossível de imaginar de dentro de um casulo.
A primaVera, quando chegar, não vai encontrar o mesmo país. Vai encontrar uma alma coletiva que aprendeu a nadar. E que, sobretudo, teve a coragem de soltar o lastro que a impedia de flutuar.
