Crónicas

"O pacto antigo da borboleta e a noite escura de uma nação", por Vera Xavier

Janeiro terminou, mas a sua sombra aquosa persiste.

Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino
  • 4 fev, 13:25
Vera Xavier
Vera Xavier

Não é apenas chuva que cai há semanas e semanas; é uma inundação da alma coletiva. Portugal transformou-se num aquário gigante, onde as ruas são veias entupidas pela lama, os sorrisos estão guardados da chuva e os ombros do povo carregam o peso invisível das árvores tombadas, das memórias submersas, dos futuros postos em causa. A solidariedade emerge, linda e necessária – a mão estendida, o abrigo partilhado, o presidente de câmara cuja voz se quebra diante da impotência –, mas mesmo esta luz não parece, por vezes, suficiente para aquecer o frio húmido que se instalou no bravo espírito lusitano. Estamos, coletivamente, a atravessar aquilo que os místicos chamam a "noite escura da alma": um período de profunda desolação, onde os referenciais se apagam e o mundo conhecido se dissolve. É um estado liminar, forte e sagrado.

E é nesta escuridão encharcada que a voz de Helena P. Blavatsky ressoa como um trovão filosófico, iluminando o caminho:
"A borboleta não trai a lagarta ao deixar o casulo. Cumpre um pacto antigo com o voo."

Esta não é uma simples metáfora sobre mudança. É uma tese ontológica radical. A lagarta, na sua fase rastejante e terrestre, não é um erro a ser corrigido, nem uma versão inferior. É uma fase. É uma passagem. A sua decomposição no casulo não é uma aniquilação, mas uma entrega necessária a um desígnio maior. A borboleta, ao emergir, não é uma traidora, mas a guardiã fiel de um pacto ancestral com o ar, com a luz, com a liberdade. A traição, sugere Helena Blavatsky, seria ficar presa na forma anterior, negando o voo para o qual se estava, desde sempre, destinada.

Portugal é agora a lagarta e o casulo, simultaneamente. As tempestades tremendas que nos assolam são o líquido digestivo que dissolve as estruturas antigas, porosas e incapazes de nos protegerem. A devastação nas paisagens externas é o espelho fiel da turbulência interna. E é precisamente aqui que reside o potencial terapêutico desta crise: o que parece um fim absoluto é, na verdade, a condição biológica e espiritual para um renascimento. A "noite escura" não é uma punição; não será antes um parto? É talvez o processo pelo qual a consciência coletiva é despojada das suas ilusões de segurança e controlo, para que algo novo – mais consciente, mais resiliente, mais adaptado à nova realidade climática e humana – possa nascer.

Antes do voo, porém, é preciso honrar a ferida. Não basta lamber-nos; é preciso sentar-se com a dor, a frustração, o "eh pá, que m****!" profundo. É reconhecer que cada cicatriz na terra e na alma é uma marca que narra uma lição de vulnerabilidade e força. A terapia coletiva começa nesta aceitação radical do que foi perdido, sem saltar prematuramente para o "vai ficar tudo bem!". Não vai ficar como antes. Não vai. E talvez essa seja a boa notícia. Ficará diferente. Ficará com a sabedoria da inundação inscrita nos ossos.

Janeiro acabou. E com ele, a ilusão de que a primavera chegará apenas por um decreto do calendário ou por um ato de benevolência solar. A primaVera – essa força germinativa, interna e irreprimível – não está à espera. Ela já nos chama, de dentro. É a voz que sussurra que somos, apesar de tudo, entidades biológicas programadas para a vida, absurdamente resilientes, capazes de encontrar fissuras de luz no betão mais grosso. Há lá imagem mais poderosa que demonstre a nossa capacidade de regeneração?

Esta é a minha proposta de ladainha para os dias de reconstrução que estamos a viver, mais do que frases de auto-ajusa, são afirmações existenciais para uma nação em plena metamorfose:
• "A minha resiliência nasce da aceitação do que não posso controlar."
• "A minha raiz é mais profunda do que a inundação."
• "Sou aprendiz da tempestade e arquiteta da nova margem."
• "Na noite escura da alma, olho as estrelas que só na escuridão se veem."

Portanto, Irmã, Irmão, País: a borboleta não trai a lagarta. Nós não trairemos este momento. Honramos a dor, a lama, a perda. Mas honramos, sobretudo, o pacto antigo com o voo que nos define enquanto seres em evolução. Voar não é esperar que o céu azul nos dê licença. É tornar-se primaVera ativa em pleno temporal, é construir a mesa com a madeira das árvores tombadas, é escolher-se a si próprio – numa decisão diária, corajosa e empática – para que se tenha solidez para estender a mão ao outro.

A tempestade passará. E nós, se cumprirmos o nosso pacto, não voltaremos a ser o que éramos. Emergiremos do casulo coletivo – não traidores do passado, mas fiéis ao futuro. Com as asas ainda húmidas, mas abertas para um voo que, finalmente, compreende o preço e a promessa da liberdade.

Aceitação é a palavra de ordem!

Vera Xavier
Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino

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