Na próxima terça-feira, dia 2 de setembro, não celebro o meu aniversário. Celebro o meu DESaniversário. Sim, ouves bem. É a festa oficial de quem se fartou de contar anos e decidiu começar a contar mais e mais aventuras. A data mantém-se, o cake também (óbvio, não sou animal), mas o espírito é outro.
E para marcar o evento? Amanhã, dia 1, vou chegar ao aeroporto de Lisboa, olhar para aquele placard mágico das partidas - aquele gigante catálogo de "e se...?" - e apontar o dedo a um destino aleatório. Não sei a que horas, não sei para onde. E, só de pensar nisso, a minha alma faz mortais encarnados à retaguarda! Planeio esta rebeldia há anos.
O mais parecido que já fiz foi na Índia: bilhete de ida, primeira noite reservada e um desejo de chegar a Auroville. E foi lá que vi a coisa mais bonita que a humanidade já construiu, ponto final: o Matrimandir. Vá, que eu tenha visto. Nem tentarei descrever. É um pedaço de paraíso dourado, é sublime! A sério. E eu não distribuo elogios ‘sublimes’ como se fossem pãezinhos quentes.
Bom, mas chega de postal turístico e vamos ao que interessa, que é o meu desafio de desaniversário para ti, Mulher:
Quando foi a última vez que te atiraste a um abismo qualquer, só para veres se asas cresciam a meio da queda?
Que desculpas é que a tua voz interior, aquela chata com cara de bibliotecária (sem ofensa!), te tem sussurrado?
"Ai, não é o momento certo..."
"Já estou velha para isso..."
"Sou nova demais, não tenho experiência...' (Se fores menor de idade, fica aí sugadita, mas vai tomando nota)"
"Um dia hei-de fazer!"
Pois, irmã. "Um dia" é a palavra-código mais triste do dicionário. É a forma educada que arranjámos de dizer 'nunca'.
Lembro-me de, há uns anos, ter circulado na net uma carta de um viúvo. Ele contava que, depois da partida da mulher, encontrou uma gaveta. E, dentro dela, o tesouro mais devastador: mimos por estrear. Lenços de seda com etiqueta, perfumes selados, lingerie de renda vermelha a aguardar uma ocasião 'especial' que teimosamente se recusou a aparecer. Aquela gaveta ficou-me cravada na alma como um aviso a gritar.
É exatamente isso que eu não quero para mim. E não quero para ti.
Quero que uses a porcelana boa numa terça-feira normal. Que vistas o vestido-espectáculo para ir ao supermercado. Que respires fundo e compres o bilhete. Que atires o "não" à cara de alguém com jeitinho... se merecer. Que digas o "sim" à tua própria liberdade.
A vida não é um ensaio geral - gostaste do clichê? É o espetáculo principal. E os sonhos não se alimentam de promessas vazias, eles definham e morrem, com etiquetas ainda postas.
A coragem não nasce na agenda do telemóvel, com lembretes às 10:00 horas. Nasce no nano-segundo em que decides que a tua vida é já, e não depois.
Então, pergunto-te, irmã: Se não agora, quando? Quando é que é suposto?
Veste o vestido. Abre a gaveta e põe a lingerie vermelha. Usa os raios dos sapatos de salto alto para lavar a loiça! Compra o bilhete. Escreve o primeiro capítulo. Diz que não. Diz que sim.
Porque o dia especial não está no calendário. Está no teu peito, à espera de uma decisão tua.
E no meu? No meu Desaniversário, estarei a caminho de algum lado nenhum. Ou de todo o lado. Depende do placard.
A vida é agora. O resto é paisagem.
