Tudo começou com um simples like que quase passou despercebido. Quase. Porque, mesmo na rotina mais estável, há vibrações que entram como um dedo a passar pela pele… breves, mas certeiras. Não foi o like. Foi a intenção por detrás dele. Aquele micro toque digital que te acendeu um músculo que nem sabias que ainda tinha memória.
Depois veio outro like, numa fotografia antiga, perdida no fundo da tua rede social e da tua memória, como quem encontra uma imagem guardada há demasiado tempo e lhe passa os dedos apenas para confirmar que ainda existe. E tu sentiste o deslizar dessa atenção como se ele tivesse pousado a mão na tua nuca. Nada explícito, nada grave, nada que pudesse constar em ata. Só um toque implícito, mas com impacto suficiente para te aquecer por dentro. Foi, não foi?
O teu corpo respondeu imediatamente, antes de a cabeça sequer ter tempo de vir com moralismos judaico-cristãos. A respiração alterou-se subtilmente, o bastante para incendiar a pele. Esticaste as costas, ajeitaste-te na cadeira, um gesto tão típico de auto-controlo, mas tu sentiste tudo. É sempre assim: o corpo é a parte mais honesta que tens. E naquele momento, ele disse: “Ainda estou aqui. Estou vivo.”
Ele não escreveu nada. Mas há silêncios que são mais eróticos do que frases bem engalanadas. E tu leste esse silêncio como quem reconhece um dialeto antigo. Um silêncio com intenção. Um silêncio com temperatura. Um silêncio que dizia: “Eu lembro-me de ti.” E o teu corpo lembrou-se dele, não do homem real, mas da história. E isso bastou.
Tu, que tens a vida organizada, estável, alinhada, que sabes exatamente onde estão as chaves, as emoções e os limites, sentiste o chão mexer. Ai, desejo cru que nasce sem poesia: uma vibração baixa, funda, que se instala entre os ossos e a curiosidade. Uma fome que não tem explicação bonita, mas que existe. Ponto.
E foi aí que o teu cérebro — sempre pronto para criar confusão quando cheira adrenalina — começou a fabricar teorias: “E se isto for importante?” “E se ele for a pessoa certa perdida no passado?” “E se estiver demasiado acomodada?” “E se o destino estiver a mexer os cordelinhos?”
E é aqui que eu entro, irmã, com aquele abanão que tu dás às outras, mas às vezes esqueces de dar a ti mesma:
Vamos lá, acorda!
O que estás a sentir não é Amor. Não é paixão. Não é destino.
É auto-sabotagem.
Chamemos as coisas pelos nomes: o arrepio não veio dele, veio do teu corpo a reagir ao novo. A imaginação fez o resto. E a idealização do passado deu o golpe final.
Tu não estás “a reencontrar alguém especial”. Estás a fantasiar com uma versão dele que já não existe e com uma versão tua que mudou tanto…
A memória é perita em mentir quando estás estimulada: alisa as falhas, enverniza a tristeza, pinta o passado de rosinha cintilante. Mas não há verdade nisso. Pode haver química. E há, acima de tudo, fuga à realidade.
A pergunta não é “vou atrás disto ou fico?”. A pergunta é:
Porque estou a sabotar a minha atual relação? O que no meu corpo acordou e porque estava adormecido?
O que se passa na minha relação?
O que precisamos atualizar? Onde perdemos o romance?
Quero manter a minha relação porque o/a amo ou porque estou confortável?
O arrepio não é sobre ele. É sobre ti. . Sobre a tua parte que está entorpecida pela rotina. . Sobre a mulher que está feliz mas não sabe lidar com isso. . Sobre o teu corpo, que está a pedir presença. . Sobre a tua vida interna e externa, que está a pedir movimento.
Não estás apaixonada. Estás desregulada. E a desregulação, quando encontra oportunidade, transveste-se de romance.
O problema não é o outro nem os destino. O busílis é aquilo que este pequeno abalo revelou sobre ti: há desejo por explorar, há vida por reacender, há alegria para recuperar.
O like não apontou para ele. Apontou para ti. Para o teu corpo, para a tua pele, para o pedaço teu que não quer morrer dentro da rotina.
Tu precisas de ti.
By Vera (…)
