Atão, mas vamos lá ver uma coisa aqui entre nós, mas está tudo maluco ou fomos todas atingidas por um surto coletivo de amnésia no momento em que as passas entram pela goela abaixo? Eis a razão porque deixei de as comer!
Faltam cinco minutos para a meia-noite e lá estamos nós, de caneta na mão - mental ou não - ou bloco de notas do telemóvel aberto, a redigir o testamento das nossas futuras torturas, digo, resoluções. É que repara bem na perversão da cena: nós estamos exaustas! Estamos a um passo de adormecer em cima do bacalhau, com olheiras que nem o melhor corretor de Paris consegue disfarçar, e o que é que decidimos fazer por livre e espontânea vontade? Acrescentar cenas… quase disse 'm*****', foi por pouco.
Mais cenas! Numa vida onde já não temos tempo para nos coçar nem agendar uma reunião prévia com o nosso próprio rabo, decidimos que o que nos falta mesmo é aprender mandarim, fazer ioga às seis da manhã e fazer o próprio pão artesanal por causa do gluten que nos incha…
Ó irmã, ouve-me bem: no minuto zero, quando o relógio bater as doze, a única coisa que tu tens de gritar - entre um gole de champanhe e um abraço - não é "este ano vou ser melhor". É "EU SOU LIVRE!".
Livre de quê? Das expectativas. Das tuas, das minhas, das da sociedade e daquelas vozinhas chatas que vivem na tua mente e que dizem que devias estar a fazer mais. NÃO DEVIAS, NÃO! Livra-te dessa necessidade patológica de seres "a tua melhor versão". Mas quem é que decidiu que a tua versão atual, aquela que mal consegue encontrar as chaves de casa, não é já um milagre da engenharia humana?
Vamos estabelecer aqui um acordo de cavalheiras:
Se insistires em fazer novos planos, se decidires mesmo acrescentar um "algo" à tua vidinha já de si cheiinha que nem um ovo, eu exijo (lol) que retires outro "algo". É a lei da física, caneco. O copo está cheio. Queres deitar mais vinho? Tens de beber o que lá está ou deitar fora - não faças isso! É pecado.
Compreendido? Parece-me justo.
Queres ir ao gym? Maravilhoso. Estás poderosa nesse conjunto de lycra. Mas o que é que vais prescindir? Vais deixar de cozinhar todos os dias? Vais deixar de responder a e-mails às dez da noite? Vais abdicar daquela hora sagrada em que ficas a olhar para o teto a questionar por que raio o jornal A Bola é a leitura favorita dos homens? Estou a brincar! Eles também lêem a Playboy!
Vá, escolhe. O que fica para trás? Não sei... escolhe agora! Já escolheste? Não? Então daqui eu não saio. Não podes querer o abdómen de aço e manter a agenda do Marcelo. Escolhe o sacrificado ou larga os ténis!
Temos de parar com esta tirania de Ano Novo. A ideia de que o dia 1 de janeiro é um botão de reset que nos transforma em super-mulheres é a maior "fake news" da história da humanidade… só comparável àquela aldrabice de que 'os 50 são os novos 30'. Atão, mas onde? Às nove da noite o meu corpo já está a pedir asilo ao sofá. E mais, as minhas hormonas estão a organizar um motim - sem qualquer razão válida porque eu até as trato bem -, e querem convencer-me que sou uma pós-adolescente? Tenham juízo!
No dia 1, tu continuas a ser tu, possivelmente com uma ligeira dor de cabeça e o frigorífico cheio de restos… do Natal.
Por isso, este ano, proponho uma revolução silenciosa. Em vez de uma lista de afazeres, pensa numa lista de "não fazer coisíssima nenhuma". Ia sair 'm****' novamente’. O que se passa comigo? Resolução de ano novo: consultar um terapeuta.
Em vez de metas, estabelece limites. Hã, isso é que era!
No minuto zero, sorri confiante e abre os teus braços e mente ao novo, ao inesperado, à surpresa e talvez possas dizer algo como:
Pedras no Caminho? Guardo-as todas para construir o meu Castelo!
