Outro dia, na fila do supermercado, vi uma mulher tirar cinco selfies ao lado dos iogurtes. Cinco tentativas de sorriso, de ângulo, de luz. Na última, pareceu satisfeita - como quem, depois de escalar uma montanha, finalmente avista o cume. À volta, ninguém parecia importar-se: nem a senhora da caixa, nem o rapaz equilibrando pizzas congeladas e uma cerveja. Mas no universo paralelo das redes sociais, aposto que ela brilhou.
Enquanto cientistas como Neil deGrasse Tyson se questionam sobre a possibilidade de estarmos a viver num holograma, nós, aqui em baixo, criámos o nosso próprio: uma realidade onde a aparência substitui a presença, onde a validação externa pesa mais do que o sentir interno. Vivemos cercados de imagens, mas carentes de significado.
Nunca foi tão fácil parecer, e ao mesmo tempo, tão difícil ser. Entre poses, guardanapos bonitos e purpurinas, perde-se o senso de realidade. Distraímo-nos... e o bem mais precioso que temos - o tempo - vai esvaindo-se, silenciosamente, enquanto acreditamos estar a viver.
Vejo mulheres - herdeiras de uma linhagem de força e sabedoria - a renderem-se, muitas vezes sem perceber, ao fascínio da visibilidade fácil. Seguimos, tantas vezes, referências que pouco nos devolvem - nem verdade, nem valor, nem alma. E nessa corrida por reconhecimento, a essência do ‘Quem sou eu?’ vai ficando esquecida.
E os homens? Discutem, por vezes agridem-se, por causa de onze milionários que falharam em colocar uma bola dentro de uma rede. É triste, mas quase poético, no seu absurdo: hipotecar a própria identidade por um jogo que muda tudo e nada ao mesmo tempo, enquanto batalhas reais, dentro e fora de si, ficam por resolver.
Como dizia Daniel Goleman, "o cérebro é moldado pelo que prestamos atenção". Pois bem: estamos a moldar mentes com base em distrações constantes - estímulos rápidos, conteúdos descartáveis, prazeres imediatos.
Preferimos a distração porque pensar pode ser desconfortável. Sentir pode ser exigente. E ser autêntico, hoje, exige um tipo raro de coragem: a de nadar contra a corrente.
Talvez nunca tenhamos realmente saído do Coliseu romano. Trocámos as lanças por likes, os rugidos pela linguagem dos emojis. Mas a fome de espectáculo e distração... essa continua intacta.
Se a vida for mesmo um holograma, então a consciência é a nossa única oportunidade de reprogramar o sistema. Num mundo que grita por alheamento, escolher a profundidade é um gesto silencioso de liberdade. Talvez não precisemos de mais brilhos. Talvez o que falte seja mesmo isso: enraizar.
E, quem sabe, o maior ato de amor-próprio hoje seja simplesmente reaprender a estar onde estamos inteiros.
