Crónicas

"Likes e circos modernos: estamos a viver num holograma?", por Vera Xavier

Talvez nunca tenhamos realmente saído do Coliseu romano. Trocámos as lanças por likes, os rugidos pela linguagem dos emojis.

LifeCoach, Hackeadora de Destinos & Criadora de Novas Histórias de Vida
  • 30 abr 2025, 16:04
Vera Xavier
Vera Xavier

Outro dia, na fila do supermercado, vi uma mulher tirar cinco selfies ao lado dos iogurtes. Cinco tentativas de sorriso, de ângulo, de luz. Na última, pareceu satisfeita - como quem, depois de escalar uma montanha, finalmente avista o cume. À volta, ninguém parecia importar-se: nem a senhora da caixa, nem o rapaz equilibrando pizzas congeladas e uma cerveja. Mas no universo paralelo das redes sociais, aposto que ela brilhou.

Enquanto cientistas como Neil deGrasse Tyson se questionam sobre a possibilidade de estarmos a viver num holograma, nós, aqui em baixo, criámos o nosso próprio: uma realidade onde a aparência substitui a presença, onde a validação externa pesa mais do que o sentir interno. Vivemos cercados de imagens, mas carentes de significado.

Nunca foi tão fácil parecer, e ao mesmo tempo, tão difícil ser. Entre poses, guardanapos bonitos e purpurinas, perde-se o senso de realidade. Distraímo-nos... e o bem mais precioso que temos - o tempo - vai esvaindo-se, silenciosamente, enquanto acreditamos estar a viver.

Vejo mulheres - herdeiras de uma linhagem de força e sabedoria - a renderem-se, muitas vezes sem perceber, ao fascínio da visibilidade fácil. Seguimos, tantas vezes, referências que pouco nos devolvem - nem verdade, nem valor, nem alma. E nessa corrida por reconhecimento, a essência do ‘Quem sou eu?’ vai ficando esquecida.

E os homens? Discutem, por vezes agridem-se, por causa de onze milionários que falharam em colocar uma bola dentro de uma rede. É triste, mas quase poético, no seu absurdo: hipotecar a própria identidade por um jogo que muda tudo e nada ao mesmo tempo, enquanto batalhas reais, dentro e fora de si, ficam por resolver.

Como dizia Daniel Goleman, "o cérebro é moldado pelo que prestamos atenção". Pois bem: estamos a moldar mentes com base em distrações constantes - estímulos rápidos, conteúdos descartáveis, prazeres imediatos.

Preferimos a distração porque pensar pode ser desconfortável. Sentir pode ser exigente. E ser autêntico, hoje, exige um tipo raro de coragem: a de nadar contra a corrente.

Talvez nunca tenhamos realmente saído do Coliseu romano. Trocámos as lanças por likes, os rugidos pela linguagem dos emojis. Mas a fome de espectáculo e distração... essa continua intacta.

Se a vida for mesmo um holograma, então a consciência é a nossa única oportunidade de reprogramar o sistema. Num mundo que grita por alheamento, escolher a profundidade é um gesto silencioso de liberdade. Talvez não precisemos de mais brilhos. Talvez o que falte seja mesmo isso: enraizar.

E, quem sabe, o maior ato de amor-próprio hoje seja simplesmente reaprender a estar onde estamos inteiros.

Vera Xavier
LifeCoach, Hackeadora de Destinos & Criadora de Novas Histórias de Vida

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