Crónicas

"Hoje é Wesak: O 'Halloween' dos budistas (e o ritual que podes fazer em casa)", por Vera Xavier

Já ouviste falar de Wesak? Não, não é uma marca de chá dos Himalaias. Não é. Passo a explicar.

Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino
  • 1 mai, 20:37
Vera Xavier

Wesak é, para os budistas, o dia mais sagrado do ano. É quando celebram o nascimento, a iluminação e a morte de Buda, três momentos decisivos que, pasma-te, aconteceram todos no mesmo dia, sob a mesma Lua. A Lua cheia de Touro. Coincidência? Humm.

Mas a minha parte preferida - e é aqui que a coisa fica interessante - é outra. Wesak é o "Halloween" dos budistas. Como assim, Vera? Eu explico.

No Halloween, os véus entre os vivos e os mortos afinam. Os espíritos aproximam-se. Em Wesak, os véus também se rasgam. Mas quem se aproxima não são fantasmas. São os Mestres. O próprio Buda. E, para quem sabe olhar, Cristo também. Encontram-se num vale sagrado no Tibete, na encosta do Monte Kailash, e derramam sobre a Terra uma bênção especial - energias de iluminação, compaixão e Amor que, dizem, não estão disponíveis em nenhuma outra altura do ano. Que alegria!

Epá, e como aproveito este momento tão especial? - perguntas tu.

Tu podes receber essa bênção. Não precisas de ir ao Tibete. Não precisas de ser budista. Nem de acreditar em nada disso, se não quiseres. Precisas é de 10 minutos, uma vela, uma flor amarela (ou uma planta qualquer com flor, não compliques. E senão tiveres flores está tudo porreiro de qualquer maneira), um copo de água, vontade de parar. E silenciar a mona.

Porque o verdadeiro problema não é a falta de sinais. É a falta de quem pára para os ver.

Vamos a isso?

O Ritual de Wesak (Passo a Passo)

Quando: esta noite, ao pôr-do-sol ou depois de escurecer ou amanhã. Idealmente com a Lua à vista ou junto a uma janela. Não tens janela? Faz na mesma. A Lua não é esquisita nem os mestres.

O que vestir: algo claro, se puderes. Branco, amarelo, bege. Não é obrigatório, mas ajuda a criar o mood.

Do que vais precisar:

- Uma vela (amarela ou branca)

- Uma flor amarela (se não arranjares amarela, qualquer flor serve. O que conta é a intenção, certo? , Não compliques)

- Um copo de água

- Uns dez minutos sossegados

- Música tranquila se te apetecer. Ajuda a sossegar a mente. Sugestão? Lisa Gerard

 

1. Preparar o terreno (três minutos)

Senta-te onde te sintas bem. Coluna direita, mas sem rigidez - ninguém precisa de parecer uma colher de pau. Põe a flor, a água e a vela à tua frente. Acende a vela.

Respira fundo sete vezes. Inspira devagar. Expira o dia e os stresses. Expira a pressa. Expira a lista de coisas por fazer.

Agora fecha os olhos. Imagina uma luz dourada a descer do topo da cabeça, devagarinho, percorrendo o rosto, o pescoço, os ombros, o peito, a barriga, as pernas, os pés. Esta luz não é complicada. É só a tua atenção a tomar conta do teu corpo. Estás protegid@. Estás presente. Senão conseguires ver a luz ou a cor, pensa nela.

2. A invocação (dois minutos)

Com os olhos fechados ou semi-abertos (como te sentires melhor), diz em voz baixa - não precisas de cantar, mas também não é um murmúrio tímido:

"Que a Luz, o Amor e o Poder Divino que hoje bendizem a Terra entrem no meu coração."

(Pausa. Sente. Nem que seja um segundo.)

"Que eu saiba receber."

(Outra pausa.)

"Que eu saiba servir a Luz."

(Mais uma.)

"Que o Plano do Amor e da Luz se cumpra em mim e na Terra."

Achas muito formal? Diz isto então, que é mais a tua cara:

"Ajuda-me a ver claro. Mostra-me a seguir em frente. Que eu não me perca outra vez no que não importa. Estou aqui. Estou a ouvir. Estou disponível."

Não há certo nem errado. Há verdade.

3. A oferenda da flor (dois minutos)

Pega na flor com as duas mãos, junto ao peito. Como quem oferece um abraço silencioso.

Diz: "Ofereço esta flor como símbolo da minha abertura. Eu também quero desabrochar. Eu também quero crescer onde estou plantada. Que a Luz que hoje toca a Terra toque o meu caminho - mesmo que eu ainda não saiba para onde ele vai."

Depois, pousa a flor num vaso ou numa jarra com água. Ela fica, a partir de agora, como um lembrete físico do que decretaste hoje. Nos dias seguintes, quando te distraíres - e vais distrair-te, como toda a gente — olhas para ela e lembras-te: "Ah, pois é. Eu pedi clareza."

4. A bênção da água (dois minutos)

Pega no copo de água. Segura-o com as duas mãos e eleva-as. Fecha os olhos outra vez.

Visualiza a Lua lá em cima a enviar um feixe de luz prateada para dentro do copo. Depois, junta-se uma luz dourada - vinda de cima, mais longe ainda, como se o sol e a lua se dessem as mãos dentro da tua cozinha.

Diz: "Que esta água guarde a memória desta noite. Que cada gole me lembre que eu não estou sozinh@. Que sou apoiad@. Que sou guiad@. Que sou amad@ — mesmo e sobretudo quando me esqueço disso."

Bebe um gole. Devagar. Com gratidão, sem forçar. Guarda o resto para beber amanhã de manhã, assim que acordares. Dizem que ajuda a começar o dia com o pé direito. Eu experimentei e, olha, só me fez bem.

5. Fechar com chave de ouro (um minuto)

Agradece.

Ao Buda, se te fizer sentido. A Cristo, se for a tua praia. À Terra, à Lua, ao teu próprio par de olhos que estão fechados há 10 minutos num mundo que nunca pára. À tua coragem para parares e fazeres isto - porque sim, parar também é um acto de coragem.

Diz: "Assim é. Assim está. Estou alinhad@. Estou em casa."

Apaga a vela (ou preferencialmente, deixa-a arder em segurança, se puderes). Abre os olhos. Volta devagar. Sente o teu corpo revigorado, cheio de luz e energia amorosa. O mundo continuou lá fora, mas tu voltaste diferente.

E depois, Vera?

Wesak não acaba quando o ritual termina. A energia desta noite acompanha-te nos dias seguintes — se lhe deres espaço, claro. Se não a abafares com o mesmo barulho de sempre. Com as distrações do costume.

O Buda não era de rodeios. Dizia assim: "Nenhum caminho está preparado para ninguém. Temos de andar por ele mesmo assim."

Ou seja: não vai cair nenhum mapa do céu amanhã de manhã. Não vais acordar com uma placa de néon a dizer "é por ali, alma linda". Mas vais acordar com uma coisa mais subtil e mais valiosa: uma pequena abertura. Uma nesga de claridade onde antes havia só névoa e confusão. É por aí que se começa.

Hoje é Wesak. Os véus estão finos. O ritual está à tua espera. Só precisas de aparecer. E não me venhas com o "faço depois", porque o depois é o jazigo das boas intenções. O agora é o único momento que temos.

Vais ficar à espera de um sinal? Ou vais ser o sinal que alguém espera?

Vera Xavier
Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino

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