Falei com ela. Pedi-lhe que resistisse. Que lutasse. Que me desse flores, como sempre deu ao longo dos anos.
E ela deu. Deu-me mais lírios do que nunca.
Mas eu tinha-me esquecido do mais básico.
Da base.
De olhar para onde não se vê.
De levantar o vaso.
De ver o invisível.
E ali estavam elas: lagartas gordas e felizes, a devorar-lhe as raízes.
A consumir-lhe a vida por dentro, enquanto por fora… ela me oferecia flores.
Fiquei a admirar ainda mais a minha planta.
Como pôde ela florescer assim, doente, invadida, silenciosa?
Como pôde ela dar tanto, enquanto era sugada por dentro?
E foi aí que percebi.
A minha Spathi estava a mostrar-me um espelho.
Quantas vezes eu também fiz isso?
Quantas vezes continuei a dar, a sustentar, a sorrir, mesmo quando algo em mim já estava a ceder?
Quantas vezes me alienei da minha dor, porque “era mais urgente dar aos outros”?
Quantas vezes transformei-me em flor… com raízes em sofrimento?
Quantas vezes ignoramos o sintoma, calamos o grito, banalizamos o cansaço, até algo ruir?
Quantas mulheres conheces que estão a florir para fora… enquanto apodrecem por dentro?
E sobretudo:
Que “lagartas” te habitam neste momento?
Que vozes, padrões ou memórias estão a drenar a tua energia vital?
De que terra vives? Ainda te nutre… ou está contaminada com histórias antigas?
Quando foi a última vez que levantaste o teu próprio vaso e olhaste com verdade para o estado das tuas raízes?
Este verão, a minha planta ensinou-me uma verdade crua e bela:
Nem tudo o que floresce está bem.
E às vezes, quem mais dá… é quem mais precisa de ajuda.
Agora sei: antes de pedir flores, é preciso cuidar da terra.
Antes de exigir força, é preciso olhar para as raízes.
Antes de continuar… é preciso parar e limpar.
Hoje começa o replantio.
Na minha planta.
E em mim.
Ela deu-me flores enquanto se desfazia por dentro.
Agora é minha vez de lhe devolver a vida, nutrindo as suas raízes com todo o amor que tenho no coração… e as minhas.
