A diferença entre ser silenciosa e ser silenciada muda, literalmente, toda a História.
Esqueçam as flores por um segundo e poupem-me aos gifs de parabéns no WhatsApp, porque a melhor maneira de celebrarmos o Dia da Mulher é deixarmos de tratar a História como um clube privado onde as mulheres só entravam para servir o chá. As rosas são giras, e tal, eu também gosto delas, mas convém não esquecer que elas não apagam dez mil anos de silêncio forçado; nenhum cartão com brilhantes resolve o facto de os livros da escola sofrerem de uma amnésia conveniente sobre quem realmente fez o quê.
Durante milénios, venderam-nos a ideia de que a mente feminina era um deserto de inação, incapaz de formular ciência ou filosofia, quando a verdade é bem mais rica: elas pensaram, escreveram, descobriram e ensinaram, mas o mundo, num súbito ataque de distração, decidiu não tomar nota. A narrativa do mundo foi redigida por homens extraordinariamente ocupados com a grandiosidade da sua própria… importância, divididos entre a fundação de impérios e a elaboração de tratados, enquanto ao lado deles existiam mulheres que cometiam o pecado imperdoável de pensar também.
Recuemos quatro mil anos para encontrar Enheduanna, na Mesopotâmia, a primeira pessoa na face da Terra a assinar um texto literário — o que torna a literatura uma invenção originalmente feminina, embora tenhamos passado décadas a decorar listas de reis barbudos sem que ninguém mencionasse este "pequeno" detalhe. Ou Diotima de Mantineia, a mentora intelectual de Sócrates; imaginem só, o homem que ensinou o Ocidente a pensar teve uma professora de carne e osso, mas ela foi discretamente empurrada para fora da fotografia oficial porque uma mulher mestre era areia a mais para a camioneta da época.
E o que dizer de Hypatia, em Alexandria, que ensinava matemática e astronomia a homens da elite até ser brutalmente assassinada — por fanáticos — por ser inteligente demais para o conforto da sociedade? Provou que pensar sempre foi uma atividade perigosa para as mulheres, tipo bungee jumping. Avançamos uns séculos e tropeçamos em Mileva Marić, a primeira mulher de Einstein, que estudava física com ele e aparecia nas cartas do génio como parceira de investigação. Sim, ele referia-se às "nossas investigações", à "nossa teoria". Até que a fama chegou e ela foi arrumada numa nota de rodapé como a "esposa dedicada", acabando a vida como explicadora de pirralhos.
E se descermos à nossa própria História, o esquecimento torna-se ainda mais escandaloso. Como esquecer a nossa única Primeira-Ministra, Maria de Lurdes Pintassilgo? Uma mulher de inteligência brilhante e visão social décadas à frente do seu tempo. Esteve no poder durante apenas cem dias, um nanossegundo na nossa democracia, mas foi o tempo suficiente para provocar um curto-circuito no sistema. A sua passagem não foi breve por acaso; foi breve porque a misoginia sistémica e o pânico de um panteão masculino não conseguiram aguentar o tranco de uma mulher assertiva no comando. Ela foi uma ameaça direta à ordem porque o poder insistia em vestir calças e gravata.
E não se enganem achando que isto é poeira do passado. Se olharmos para o panorama atual, a pergunta impõe-se: onde estão as mulheres no governo? Que cargos de poder real têm? O que vemos é um retrocesso gritante, com estruturas que diminuem a representação feminina como se a competência tivesse voltado a ter género. Fica o paralelismo no ar: será que quanto mais a ideologia vira à direita, mais o machismo se torna a regra da casa? É uma coincidência infeliz ou um plano de regresso à "cozinha da obscuridade"?
A pergunta que persiste, e que fere pela sua crueza, é: porquê? Vamos dissecar a cena. Porque durante milénios o mundo foi desenhado como um teatro onde os homens ocupavam o palco das decisões e as mulheres eram empurradas para as cozinhas. Uma mulher que pensava não era uma curiosidade simpática; era um perigo real, porque se ela subisse ao palco, provaria que o papel de "dono disto tudo" não era um destino natural, mas um privilégio roubado. Se uma narrativa começa a tremer, há duas opções: revê-la ou apagar as personagens que a contradizem e, durante demasiado tempo, escolheu-se a segunda.
O mais fascinante - e que demonstra a enorme força feminina - é que, apesar de tudo, elas continuam a emergir em todos os espectros da sociedade enquanto mantêm o equilíbrio doméstico. Porque a mulher moderna não é apenas a cientista ou a juíza; ela continua a ser a mãe, a amante, a filha e a nora que serve de bombeira a toda a família. São enfermeiras sem curso e psicólogas sem consultório, gerindo crises emocionais e logísticas de toda uma linhagem. Carregam o peso do mundo com um sorriso educado e a frase clássica "está tudo bem", enquanto o sistema tenta, subtilmente, voltar a apagar-lhes o brilho.
Não nos iludamos, os direitos conquistados não são heranças vitalícias, eles são conquistas sob cerco permanente. Julgar que o que temos hoje é garantido é o primeiro passo para o ver transformado em recordação. E a História adora retrocessos! O trabalho que falta fazer não se resolve com boas intenções, cabe-nos a nós, a todas nós, segurar o tranco e impedir o próximo recuo.
Por isso, no Dia da Mulher, deixemos lá os confetes e façam algo mais sumarento: aprendam o nome de uma destas mulheres que tentaram esconder, porque elas nunca foram silenciosas por natureza, foram silenciadas por conveniência. Podem oferecer flores, eu não mordo a quem me dá um ramo, mas garanto-vos que saber quem foi a Hypatia ou a Enheduanna é um presente muito mais subversivo e interessante.
