Gosto de cuidar de mim, de me ver ao espelho e gostar do reflexo, não por obrigação, mas por expressão, por arte.
O problema não é a estética.
O problema é quando nos reduzimos à estética.
Quando o feminino é empurrado para a superfície da pele, para o molde do olhar alheio.
Quando ser mulher significa parecer sempre pronta, sempre deslumbrante, sempre sensual na medida certa.
Quando a mulher é transformada apenas numa boneca de Instagram, com aura de empoderamento feminino.
E pior: quando esse molde começa a ser ensinado às meninas de 10, 11, 12 anos.
Sim, crianças.
Meninas com rotinas de skincare mais exigentes do que uma dermatologista de 50.
Meninas que já falam de "self-care" com sotaque de influencer e olham para os próprios rostos como projectos de correção contínua.
Alto e pára a rave!
Estamos a caminhar para uma zona perigosa de superficialidade estrutural.
Uma cultura onde a profundidade é trocada por imagem.
Onde a personalidade é moldada por tutoriais.
E o feminino é empacotado para venda, com brilho, filtros e o tal suposto empoderamento.
E quem não chega lá?
Quem não encaixa nesse padrão higienizado e sexy com medida?
Transforma-se em quê?
Numa mulher profundamente insegura?
Invejosa? Fria? Crítica viperina?
Ou simplesmente numa mulher que vive em guerra com o próprio corpo, porque nunca vai estar "à altura"?
Quantas de nós se perdem na comparação constante?
Quantas se convencem de que falharam como mulheres por não terem aquele corpo, aquela aura, aquele lifestyle de Pinterest com chakras alinhados?
Este sistema não empodera.
Ele exclui.
Divide-nos entre as que conseguem manter o padrão e vivem em stress para não o perder
E as que se sentem fora do jogo e tentam sobreviver com a autoestima em cacos.
E sabes o que isto é, no fundo?
Mais uma armadilha.
A nova armadilha do patriarcado.
Agora não nos dizem o que vestir… (apesar de algumas tentativas de miúdos profundamente assustados com o poder feminino)
Mostram-nos.
Não nos mandam calar.
Distraem-nos com o fútil.
Não nos oprimem com força.
Fazem-nos competir entre nós.
Hoje, a repressão já não vem de fora.
Vem disfarçada de liberdade.
É uma coleira invisível que se chama "autocuidado" mas que nos exige perfeição 24/7.
E quanto mais nos esforçamos para parecer livres, mais presas estamos.
Presas ao espelho.
Presas à validação.
Presas à ansiedade de não sermos suficientes - por dentro e por fora.
A mulher real foi empurrada para o backstage.
Ficou a mulher-conceito.
A que "vende bem".
A que nunca transpira.
A que está sempre pronta para agradar e que sorri, mesmo quando está com TPM.
Mas deixa-me dizer-te uma coisa, irmã:
Tu não és isso.
Tu não és uma imagem.
Tu não és um filtro.
Tu és sangue, pulsação, corpo, sombra, riso, tesão, intuição, paixão e ternura. Ah, e propósito.
És contraditória, imperfeita, humana.
És maravilhosa tal como és.
E isso é sagrado.
Está na hora de desligar o molde.
De largar o guião.
De dizer não ao branding da mulher "ideal".
De dizer sim ao feminino real com corpo com celulite, estrias, cicatrizes que contam a nossa história.
Nós não viemos ao mundo para sermos iguais.
Nós não somos iguais.
Viemos para sermos cada vez mais nós - livres, naturais, autenticas.
E, olha, irmã, quem não aguenta a tua verdade… que vá ver outra influencer.
