Alguma vez reparaste que ninguém chora o fim de um inverno?
Ninguém se senta à janela, a contemplar o último dia de fevereiro, com um lenço na mão a lamentar: "Ai, o inverno acabou, a minha vida está destruída." Não, abrimos a janela, sentimos o ar diferente e, lá no fundo, até respiramos com mais espaço. E depois, como por magia conveniente, esquecemos completamente esta capacidade quando se trata de relações.
Porque quando uma relação termina, o mundo não colapsa, irmã.
Mas a narrativa instala-se a uma velocidade estonteante: falhei, não sou suficiente, nunca mais vou amar, nunca mais vou ser amada. E o mais curioso? A maioria de nós não está sequer a chorar a pessoa. Está a chorar a história que tinha construído à volta dela. A versão de si própria que existia naquele enredo. O futuro imaginado que, de repente, ficou sem protagonista masculino… ou feminino. Lembras-te quando terminou o teu primeiro amor? Foi equivalente a 1755, certo?
Não estou a minimizar a dor. A dor do fim é real, é legítima e merece ser sentida até ao osso, e não anestesiada com saídas à força, novos interesses de emergência ou o clássico "estou ótima, já passou" dito três semanas depois com um sorriso de Valquiria que não convence ninguém. A dor é informação e ignorá-la é como desligar o alarme de incêndio sem verificar se há fogo.
Mas há uma mentira que nos ensinaram tão cedo que já nem damos por ela: a de que somos metades.
Metades que andam pelo mundo à procura da outra metade, incompletas, porosas, meio-pessoas à espera de serem completadas por alguém que, supostamente, tem exatamente o que nos falta. Isto é uma falácia tremenda! É uma ideia romanticamente apelativa e psicologicamente devastadora. Porque se és metade, então sem o outro és nada. E se és nada, qualquer fim é uma catástrofe existencial, quando na realidade o que é catastrófico é teres passado anos a acreditar nessa conversinha limitadora que só amamos uma vez na vida. É mentira.
A verdade, essa que não cabe num conto do Walt Disney, é esta: tu és inteira. Chegaste inteira e partes inteira. Qualquer pessoa que entre na tua vida não vem para te completar, vem para te acrescentar. Há uma diferença brutal entre as duas coisas. Completar pressupõe que estavas partida. Acrescentar reconhece que já eras suficiente.
As relações são importantes, claro que são. Somos seres de vínculo, de conchinha, de emoções e compatibilidade intelectual. Nenhuma espiritualidade séria nega isso. Porém, uma relação saudável não é aquela onde dois meios se encostam mutuamente para não cair; é aquela onde duas pessoas inteiras escolhem, todos os dias, estar juntas. Repara na palavra: escolhem. O amor real não é rendição, é uma decisão renovada.
As relações, como tudo o que existe neste plano, obedecem a uma lei que nenhum romantismo consegue suspender: tudo o que nasce, desenvolve-se e morre. As estações, as civilizações, as estrelas. Uma relação que não está a evoluir está a morrer, lentamente, discretamente. Lê novamente, irmã.
O corpo sabe sempre antes da cabeça.
E terminar não é fracasso. É viver com honestidade, com coragem.
O fracasso real não é o fim, é ficar. Ficar quando já não há crescimento, quando já não há escolha genuína, quando o que sobra é apenas hábito e medo do espaço em branco que ficaria. Será que sabemos viver a liberdade? De facto, liberdade é uma daquelas coisas que assustam mais do que qualquer relação difícil, porque exige que nos tornemos responsáveis pela nossa própria felicidade.
E é aqui que está o busílis do assunto.
O bem-estar - que eu prefiro assim chamar porque felicidade parece sempre um estado de excepção que há-de passar -, não pode morar num endereço que não é teu. Não pode estar nas mãos de alguém, na permanência de alguém, no amor de alguém. Pode ser enriquecido por tudo isso, com certeza, mas se a tua paz depende de um factor externo, não é paz: é um refém!
Por isso, quando um capítulo se fechar - e alguns capítulos fecham mesmo -, sem vilões declarados e sem culpados, não perguntes logo "o que foi que fiz de errado?". Essa é a pergunta da culpa, não da sabedoria. Pergunta antes o que aprendeste sobre ti neste capítulo. Pergunta que tipo de relação queres no futuro, agora que sabes melhor quem és. E depois, com ou sem resposta imediata, levanta-te, ajeita a coroa e avança.
O livro continua. Sempre continuou.
E a autora, essa, nunca mudou de nome.
Nota: Na terça vou fazer uma live no YouTube sobre a exaustão feminina. É gratuita. Estás convidada! Inscreve-te aqui.
