Faço-te uma pergunta que costumo atirar nas lives, em jeito de aquecimento: qual seria o país onde eu, em circunstância alguma, viveria? Dou-te três segundos. Um. Dois. Três. Arábia Saudita. Guarda a resposta, que já lá voltamos - porque tem tudo a ver com o senhor de quem vamos falar hoje. Sim, outra vez, o Cristiano. O Ronaldo.
E antes que alguém afie a língua: não, isto não é sobre a tão portuguesa dor de corno. Guarda também essa acusação para o fim.
Comecemos pelo que não se discute. Como atleta, o homem é uma anomalia da natureza porque se fez assim, não nasceu assim. Quarenta anos e continua a fazer o que faz. Disciplina de monge, tenacidade de quem nunca aceitou a palavra "não", uma capacidade de repetição e sacrifício que - e digo-o sem uma ponta de ironia - é das pessoas mais inspiradoras que o desporto moderno nos deu. Ponto final.
O busílis - há sempre um - é que nós, pobres humanos, temos uma dificuldade tremenda em segurar duas verdades ao mesmo tempo. Ou o homem é um deus, ou é um demónio. Ou é todo bom, ou é todo mau. O meio-termo dá-nos comichão.
A Programação Neurolinguística tem uma frase de que gosto muito: o mapa não é o território. Traduzindo: aquilo que tu achas do Cristiano não é o Cristiano. É o mapa que construíste dele - feito dos golos, das entrevistas, dos anúncios e, sobretudo, dos teus próprios sonhos por cumprir, pendurados nas costas dele. E depois defendes esse mapa como se fosse a tua própria casa a arder.
A mente prega-nos esta partida em três tempos, a que a PNL chama generalizar, distorcer e omitir. Generalizamos, "é craque, logo é boa pessoa" - ou exatamente o contrário. Distorcemos; lemos cada gesto conforme a novela que já decidimos ver. Lá diz o chavão: tu não vês o mundo como ele é, tu vês o mundo como tu és. E omitimos; esquecemos, muito convenientemente, tudo o que não encaixa no modelo que criámos. É assim que se fabricam ídolos. E é assim que se despedaçam, mal escorregam.
Junta-lhe uma coisinha chamada dissonância cognitiva: o incómodo de admirar o atleta e reprovar o homem ao mesmo tempo. Como custa segurar as duas, o cérebro faz batota - agarra uma e deita a outra fora. Fã incondicional ou hater de serviço. Poupa imenso trabalho à mona e a verdade… bem, a verdade logo se vê.
Agora a palavra que ninguém quer que lhe assente em cima: inveja. Ou, no português da feira, a bela da dor de corno.
Os meus filósofos rabugentos preferidos - e nenhum deles era propriamente uma flor que se cheire - escreveram páginas douradas sobre isto. Schopenhauer, esse docinho de coco, escreveu de forma clarinha que "a inveja que as qualidades pessoais provocam é a mais implacável de todas, e a mais cuidadosamente dissimulada". Ou seja: quanto mais o outro brilha por mérito próprio, mais fundo se esconde a inveja de quem observa. La Rochefoucauld, o duque de língua afiada, uma verdadeira cobrinha, acrescentava que “a inveja é uma paixão tímida e vergonhosa que nunca ousamos confessar”. A minha versão é um pouquinho diferente: na verdade, na verdade, a inveja é uma admiração bem dissimulada.
Ninguém a admite. Toda a gente a tem, num maior ou menor grau.
Nietzsche deu-lhe um nome de perfume caro, tipo Shumukh (já cheiraste? Damn, girl!): ressentimento. A raiva impotente de quem, não podendo agir, se vinga na imaginação. Quem não consegue subir ao pedestal entretém-se a serrar-lhe as pernas - nem que seja só nos comentários do Instagram. Já não consigo, irmã! O que é aquilo? Porque é que as pessoas mais néscias têm tanto para dizer e as sapientes se calam porque não se querem meter no lamaçal? Têm de se meter! Vera, volta!
Krishnamurti, o meu amado, que não era rabugento, era só incómodo - como eu -, apontava para a raiz de tudo: a comparação. Comparas-te e, nesse instante, ou te sentes superior (arrogância) ou inferior (inveja). Nos dois casos perdeste, porque paraste de olhar para a tua vida e foste medir a do vizinho. E o Cristiano é o vizinho mais medido do planeta.
Repara na mecânica da cena: a inveja precisa de rebaixar o outro para conseguir viver. Por isso o craque tem de ser, forçosamente, má pessoa. Convém que seja. Porque se ele for genial & decente, onde é que isso me deixa a mim, no meu sofá, com a minha vidinha medíocre? É bem mais barato decretar que é um convencido; que está velho, acabado, etc. Parece trazer um alívio efémero.
Só que - e agora vamos complicar isto tudo de propósito - existe o extremo oposto: os que, de tanto o adorarem, decidem que ele é imaculado. Que não tem uma única falha. Que tudo o que faz está certo por decreto divino. E isto é tão cego como a inveja. É inveja ao contrário, com outro nome: idolatria.
Então, vamos ao homem. En passant, como convém a quem não é juíza de ninguém.
Há o caso de Las Vegas, em que foi acusado de violação por Kathryn Mayorga. Ele sempre negou. O processo-crime não avançou por falta de provas; o processo cível foi arquivado em 2022 - não pelo mérito, mas por má conduta da advogada dela. Tradução honesta e sem sensacionalismo? Uma acusação grave, que nunca foi provada em tribunal. Não sou juíza. Tu também não. Independente do desfecho judicial, há um elemento desta história que nunca deixou de me inquietar: a alegação de que um "não" não terá sido respeitado. Não sabemos o que aconteceu naquele quarto, e provavelmente nunca saberemos. Mas a própria existência dessa acusação obriga-nos, pelo menos, a voltar a falar de um tema tão antigo quanto atual: a dificuldade histórica que tantas mulheres tiveram - e continuam a ter - em ver um "não" aceite como resposta suficiente.
Depois há as escolhas, não só profissionais mas pessoais. CR7 escolheu viver e, mais do que viver, representar - ele é embaixador de um país que executa pessoas a um ritmo que gela ou deveria gelar o sangue nas veias. Em 2025, a Arábia Saudita bateu o próprio recorde: pelo menos 356 execuções, segundo a Amnistia Internacional, muitas por crimes de droga e a esmagadora maioria estrangeiros. Repito, estrangeiros e por tráfico de droga. Só por curiosidade, caso estivesses a questionar, os métodos são: decapitação por espada e pelotão de fuzilamento. E a "crucifixão" - a exibição do corpo após a decapitação - ainda acontece, reservada aos crimes mais graves. Uns fofos!
É o terceiro país que mais mata no mundo, atrás da China e do Irão. E o Cristiano é embaixador do Mundial de 2034 e a cara sorridente do turismo saudita: ~"Vim pelo futebol, fiquei pelo resto". Sou só eu que acha que há algo de errado aqui? Avança, Vera!
Há o jantar na Casa Branca, em novembro passado, lado a lado com Trump e com o príncipe herdeiro saudita, rematado com um "o Trump é um dos tipos que pode mudar o mundo". Admiração sincera? Cálculo? Ego trip? Vaidade de quem gosta de estar onde o poder janta? Talvez um bocadinho de cada. Porém, também isto, ao fim e ao cabo, é muito humano. E é aqui, precisamente aqui, que eu - que vinha com a pedra bem apertada na mão - a começo a pousar devagar. Vera, isso mesmo, respira em 4/4/8. Isso…
Porque estas dissonâncias - o génio e a falha, a disciplina exemplar e a incoerência, o exemplo dentro das quatro linhas e as escolhas fora delas - não são exclusivo do Cristiano. São a matéria de que somos todos feitos. Só que a dele passa em ecrã gigante e a nossa vai na calada da noite.
A PNL diria assim: separa o comportamento da identidade. Uma pessoa não é o seu pior gesto, nem sequer o seu melhor golo. É um mapa cheio de contradições - tal e qual o teu. Podes admirar a disciplina e reprovar as escolhas. Podes aplaudir o atleta e discordar do embaixador. Não és obrigada a escolher uma caixa só. Aliás, a maturidade é isso mesmo: conseguir ficar com as duas verdades na mão sem deixar cair nenhuma.
Por isso, não venho dizer-te o que pensar do Cristiano. Venho pedir-te algo bem mais difícil: que penses nele sem te comparares. Que o vejas como ser humano visto diariamente à lupa, o brilhante e o discutível, sem precisares de o adorar nem de o destruir. Porque quem consegue fazer isto com o Cristiano consegue fazê-lo com o vizinho, com a cunhada, com o ex. E aí, sim, ganhaste uma coisa que nenhum Mundial paga: a paz de espírito.
Fica a pergunta, e responde com a mão no peito, não na pedra: quando te incomoda alguém que brilha, é mesmo o carácter dessa pessoa que te magoa, ou é o espelho que ela, sem querer, te encosta à cara?
Quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Os restantes, pousem-na devagar. Pesa muito mais do que parece.
