Crónicas

"Apaixonadas pelo Amor (e outras ilusões caras)", por Vera Xavier

Uma crónica sobre afetos mal pagos, medos bem instalados e a doce liberdade de dormir em diagonal.

LifeCoach, Hackeadora de Destinos & Criadora de Novas Histórias de Vida
  • 8 mai 2025, 16:02
Vera Xavier
Vera Xavier

Há alminhas que não se apaixonam por pessoas concretas. Apaixonam-se por narrativas. Por personagens imaginários fabricadas num misto de carência emocional, comédia romântica e um catálogo mental de 'pessoas ideais' que nunca chegaram a existir fora das fantasias editadas do cérebro. Apaixonam-se pelo que poderia ser. Pelo "ele tem tanto potencial". - Ouço o bater das pestanas? - Por uma ideia lindamente ficcional de uma alminha que, com o incentivo certo (e um plano imbatível de resgate emocional), se tornará a criatura idealizada que a Disney prometeu com olhos de Labrador e alma de terapeuta tântrico.

Na realidade, encontram um ser minimamente funcional, com habilidades sociais medianas, um certo charme improvisado — quando têm — e uma resistência considerável ao diálogo. Mas há quem veja além. São seres visionários. Alucinam com potencial como quem vê um pedaço de mármore rachado e sussurra com devoção: "aqui há um David de Michelangelo à espera da minha paciência e martelo emocional."

E assim começa a jornada. A bela aventura de amar uma projeção com prazo de validade. Mas não faz mal. Porque o amor - esse conceito elástico - suporta tudo. Inclusive a ausência de reciprocidade, a distância emocional e as pequenas omissões de caráter, que gentilmente se rebatizam de "fases difíceis" e "tem cá um feitiozinho!"

E depois vem o outro lado do espelho.

As relações que perduram por uma razão simples: o medo de não haver nada melhor lá fora. Não é drama. É estatística emocional. Há vínculos que subsistem não porque há paixão, nem sequer afeto, mas porque existe uma aversão profunda à solidão. Porque o silêncio da casa, por mais pesado que seja, ainda parece menos ameaçador do que o vazio de não ter ninguém para validar a tua existência. Porque sair de casa para se reencontrar é uma missão mais assustadora do que continuar no conhecido (des)confortável — ainda que emocionalmente exíguo.

Assim se perpetuam os casamentos: essas belas instituições que, em tempos, eram cerimónias solenes de transferência de tutela — da casa do pai para a do marido — enfeitadas com véu, arroz e votos de obediência. Hoje, por vezes, funcionam como acordos de coexistência pacífica com partilha de Wi-Fi. O amor transforma-se em logística. O companheirismo torna-se uma checklist doméstica. E o "para sempre" é um gentilíssimo sinónimo de "até que a zona de conforto nos acomode mutuamente na apatia".

E claro, tudo isto se mantém por razões nobres: pelos filhos, pelos sogros, pela conta conjunta, pelo medo de estragar o álbum de casamento. - Tudo inverdades, mas contadas com tanto requinte que quase nos convencem! Tipo: 'pelo bem da família', 'pelas crianças', 'porque é assim que se faz'. - Custo?? Apenas a amputação progressiva da dignidade, um contrato vitalício de servidão emocional com cláusulas de silêncio e uma corrosão lenta mas eficaz da identidade — até te tornares uma versão pálida de ti mesma, mas sempre muito educada e funcional — essa, porém, é a máscara social, porque dentro do lar és apenas um espectro do que poderias ser, certo?

Mas calma. Nem tudo é tragédia com orquestra ao fundo. - Lembraste-te do Titanic, não foi?

Vamos terminar com dados — porque números não mentem, sugerem com elegância.

Sabes quais são os grupos mais satisfeitos com a vida, segundo pesquisas respeitáveis, daquelas com gráficos bem desenhados?

Homens casados... e mulheres solteiras.

Voilà.

Eles com a vida organizada, roupa passada e governantas emocionais que também atendem por 'amor da minha vida'. Elas com a alma intacta, porque não têm de ensinar ninguém a usar a máquina de lavar roupa — esse artefacto enigmático que, para alguns homens, ainda funciona por magia negra ou comando de voz da fada do lar - nem a diferença entre empatia e simpatia. Ou entre a liberdade e escolha individual e a diversidade - conceitos que ainda causam curto-circuito em muitos homens preconceituosos, machistas e homofóbicos, que acham que empatia é uma sobremesa francesa e respeito é coisa de fraco.

Resumindo, eles com a saúde porreira. Elas com paz de espírito, liberdade de agenda e travesseiros livres de altas ressonâncias sonoras masculinas.

Moral da história? Que talvez o final feliz não tenha cavalo branco, nem par romântico, nem playlist de Ed Sheeran de fundo. Talvez o final feliz seja chegar a casa, descalçar os sapatos, não ter de sorrir para ninguém, jantar pipocas no sofá, e dormir no meio da cama com todos os lençóis só para ti, sem crises existenciais que não sejam as tuas. E, acima de tudo, com a gloriosa paz de não ter de salvar ninguém além de ti mesma.

E se dúvidas houver, basta olhar para aquela mulher casada que, entre uma taça de vinho e um suspiro disfarçado, solta a célebre frase: "Ai, tenho inveja da boa daquela minha amiga solteira..." - a tal que viaja quando quer, dorme na diagonal como uma estrela-do-mar, não precisa de justificar silêncios, birras ou compras. Ela chama-lhe 'liberdade'. Nós chamamos: visionária com uma cama king size inteira. BOOM.

Vera Xavier
LifeCoach, Hackeadora de Destinos & Criadora de Novas Histórias de Vida

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