Sabes aquele momento em que partilhas com uma amiga um episódio íntimo e doloroso, a ferida ainda a sangrar, e recebes como resposta um solene "tens de perdoar para teu próprio bem"? Aquela frase vazia, tirada da cartola de quem não sabe o que dizer perante a tua dor e resolve parecer sábia à pressa. Zero empatia. Zero presença. Ela quer ajudar, mas se não sabe como, fecha a matraca e abraça.
"Tenho?", penso eu. "Tenho porquê, se ainda me dói? E dói-me porque ainda não percebi o que raio me aconteceu. Tenho de perdoar para ser considerada uma pessoa decente e espiritualmente aceitável? Tenho de perdoar senão fico 'cristalizada', amarga, pequena, mal resolvida - talvez até condenada a um qualquer inferno simbólico inventado para mulheres que sentem demais e calam de menos? Ainda estamos nisto, caneco?"
E eu pergunto: desde quando é que sentir dor passou a ser falta de evolução? Desde quando é que expressar revolta se tornou um defeito de caráter? Não tenho direito a estar frágil, zangada, confusa? A dizer "isto foi injusto" sem que alguém me venha logo tentar corrigir a alminha? Voltámos exatamente a onde? Ao tempo em que a mulher se queria composta, grata, arranjadinha e de sorriso permanente pronto a servir? Pois é, tenho boas notícias: caminhamos no sentido inverso.
"Tens de te despachar com isso, senão és má pessoa e não evoluíste."
E se eu perdoar à pressa, sou boa pessoa? Ou estou só em negação? Em alheamento total? Em dissociação completa? Porque nesse estado vive meio mundo, minha amiga. Aliás, 99% do mundo. E não me parece que as almas dissociadas sejam as mais livres à face da Terra. Nã...
Achas mesmo que os evoluídos são os que varrem tudo para debaixo do tapete? Ou serão os que param e enfrentam as memórias, os traumas, a revolta, a sensação de injustiça? Os que gritam, insultam e sentem tudo o que as rasga com o único intuito honesto de se libertarem?
E não, o tempo não cura coisa nenhuma. Isso é outra falácia simpática da New Age. O tempo arquiva. E o que é arquivado sem consciência não desaparece; fica ali, à espreita.
Quando me dizem que tenho de perdoar para ser melhor pessoa, o que me estão a pedir, no fundo, é que eu me cale depressa porque não têm ferramentas para lidar com a minha intensidade. E está tudo certo. Têm o direito de sentir esse desconforto; não têm é o direito de despejar estas "verdades instagramáveis". Não podem exigir que eu salte etapas. Que eu finja que não doeu assim tanto para não incomodar. Isso não seria nobreza, seria censura interna. E disso já a gente fez demais.
Depois deste episódio, fui pedir ajuda aos meus amigos filósofos. Precisava de quem me aquecesse as costas - e aqueceram. Procurava respostas inteligentes.
O meu preferido, Nietzsche - meio louco, meio génio, ou talvez muito de ambos, porque raramente a lucidez extrema e o bom comportamento andam de mãos dadas. Ouviu-me com atenção, sem me interromper. A certa altura, olhou para mim com um certo orgulho pela minha irreverência, aquele olhar cúmplice de quem reconhece uma alma que ainda não foi domesticada, e disse-me, sem qualquer ternura na voz:
"Tudo o que se faz por dever mata a nobreza do ato."
Boom! Disse-o. Assim, sem vaselina.
E eu agradeci. Porque não estava à procura de colo nem de frases bonitas para pendurar na parede. Precisava de alguém que não me tratasse como uma novata espiritual — que não sou. Para Nietzsche, perdoar por dever não é virtude nenhuma; é obediência social. É ressentimento legitimado pela moral. É dor reprimida. É pura negação. E isso não fortalece ninguém; só cria almas pequenas com um ar de superioridade moral (atitude que Nietzsche, com a sua ironia, adorava dissecar).
Depois fui falar com Derrida. Francês, irreverente, desconstrutor… Um dos dois únicos franceses de que gosto (brincadeira, gosto de mais um - Saint Germain. o alquimista). Ouviu-me com atenção, mas com aquele ar ligeiramente petulante de quem tem a certeza de estar um passo à frente de toda a gente. E estava. Disse-me que o perdão só existe, de facto, quando se perdoa o imperdoável.
Disse-o com aquela elegância meio irritante, como se fosse óbvio.
E eu pensei: "Hã?! Pronto, lá 'tá ele."
Derrida não entra numa conversa sem baralhar a mona. Ele não resolve, ele agrava — o que pode ser divertido. Ele não fecha discussões, deixa-as suspensas. E eu ali, a desejar estar só um bocadinho mais sossegadita...
Ele continuou, impassível: porque quando o perdão é fácil, rápido e exigido, não é perdão nenhum. É apenas um acordo tácito para não se voltar a falar do assunto. Uma forma educada de dizer: "Pronto, já chega, isto está a ser incómodo." Ele não o disse nestas palavras, claro. Disse-o de forma muito mais hermética, mas foi isto que eu retirei.
Por fim, como quem se senta à mesa sem fazer barulho, apareceu Schopenhauer. O meu velho companheiro de muitos anos de escrita. Sempre fiel, sempre lúcido. O quanto eu gosto dele! O que não significa que concorde com tudo o que escreveu. Continuo a achar profundamente injusto chamarem-lhe pessimista, quando, na verdade, ele apenas não gostava da Maya (a ilusão).
Schopenhauer não faz floreados. Não infantiliza - graças aos deuses! - nem ilude. Olha para a vida como ela é, e não como a queremos ver. Ouviu tudo e disse-me, com aquele tom sereno de quem não precisa de convencer ninguém: "Enquanto não compreenderes, não há perdão nenhum. O resto é treta." (Ele não disse "treta", para que fique claro).
Continuou em schopenhauerdês e eu traduzi: Fingir que já passou, que já estás bem, ou que és maior do que a ferida, é uma exaustão silenciosa. É viver com o corpo em tensão e a mente em vigília constante, a tentar sustentar uma fachada civilizada enquanto o verdadeiro conflito ferve cá dentro. E como essa vigília cansa, a mente acaba por desistir e "arquivar" o que não quisemos ver. Só que o tempo não cura o que foi arquivado à força; ele apenas adia o inevitável, guardando o trauma com promessas vagas de "um dia destes".
E eu sei que, quando ele diz isto, não é para nos desanimar. É para nos despertar com responsabilidade. Porque a clareza custa, mas a confusão custa muito mais. E, como diz Tony Robbins (sim, grande salto temporal): "Clareza é Poder!"
Por isso, não, minha amiga. Não tenho de perdoar enquanto ainda me dói. Não tenho de me despachar com a dor para aliviar o teu desconforto. Não tenho de ser serena à força para ser considerada evoluída.
Se ainda dói, é porque ainda há ali matéria. Se ainda incomoda, é porque ainda não foi vista nem compreendida. Há trabalho a fazer antes.
Claro que sei que terei de perdoar - por mim, não pelos outros. Sei-o e fá-lo-ei ao meu ritmo, de forma consciente e estruturada.
O perdão é a nossa pedra filosofal: todos a procuramos, e é precisamente por isso que não se encontra escondida debaixo da primeira pedra que aparece.
Está lá mais à frente, ou quiçá, aqui, agora, onde a dor e a compreensão finalmente se encontram. Será que o momento é agora? Sentes que é? Só tu sabes. Só eu sei.
Pergunta a Parsifal. Ele soube.
A tirania do perdão é, de facto, uma das formas mais sofisticadas de violência espiritual do nosso tempo.
