Crónicas

A ressurreição que ninguém te ensinou, por Vera Xavier

Porque a Páscoa nunca foi só de Jesus. Foi sempre nossa.

Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino
  • 4 abr, 17:17
Vera Xavier

Ela foi ao túmulo quando todos fugiram. E foi a ela que a mensagem chegou primeiro. Coincidência? Não acredito em coincidências.

Há uma pergunta que ninguém faz à mesa da Páscoa, e eu percebo porquê, entre o folar e o coelho de chocolate, símbolo da Páscoa pagã: ressuscitou mesmo Jesus em corpo ou é uma metáfora extraordinária que atravessou dois mil anos de História e continua a transformar vidas?

A Bíblia, convém dizê-lo, não é tão clara quanto a Igreja gostaria. Os quatro Evangelhos contradizem-se nos detalhes da ressurreição com uma generosidade que qualquer advogado em estágio adoraria explorar.

O que todos confirmam, porém, com uma unanimidade que deveria ter mudado tudo, é isto: a primeira pessoa a ver Jesus após a morte foi uma mulher. Maria Madalena.

Não um apóstolo. Não Pedro, o rochedo da Igreja. Não João, o amado irmão. Uma mulher. E foi ela, essa mesma, quem foi anunciar a novidade aos discípulos, tornando-se, sem que ninguém lho pedisse, a primeira pregadora do Cristianismo.

A Igreja demorou dois mil anos, até 2016, para lhe dar oficialmente o título de "Apóstola dos Apóstolos". Dois mil anos para reconhecer o que os próprios textos sagrados já diziam. Chama-se a isto gestão de narrativa, certo, irmã?

Mas quem foi realmente Maria Madalena? Vamos mergulhar na História misteriosa desta mestre.

Não foi a pecadora arrependida que o Papa Gregório I decidiu, no século VI, colar à sua figura por razões que têm mais a ver com controlo do que com teologia. Essa fusão confusa com outras mulheres dos Evangelhos foi um erro que a própria Igreja reconheceu e corrigiu em 1969, discretamente, claro. Maria de Magdalo era, segundo o próprio Lucas, uma mulher que sustentava o ministério de Jesus com os seus bens. Numa Palestina do século I, uma mulher com recursos próprios e liberdade para os gerir era, por definição, uma anomalia perigosa. Não para Jesus, esse homem maravilhoso que nunca precisou de diminuir ninguém para se sentir grande. (Sentiram o comentário mordaz?)

Nos termos de hoje, ela seria uma mulher livre, espiritualmente desperta e com autoridade própria. Era exatamente o tipo de mulher que os sistemas de poder preferem transformar em símbolo de vergonha.

Os Evangelhos gnósticos, esses que não entraram no cânone oficial por decisão de homens tacanhos reunidos em concílios, foram encontrados bem escondidos numa caverna no Egipto em 1945. No Evangelho de Maria Madalena, ela recebe ensinamentos que os outros discípulos não recebem, e Pedro, incomodado, pergunta: "Ele teria falado com uma mulher sem que nós soubéssemos?" A resposta de Levi é devastadora na sua simplicidade: "Se o Salvador a tornou digna, quem és tu para a rejeitar?" BOOM! Dois mil anos de resposta e ainda estamos a fazer a pergunta errada.

Porque a pergunta certa não é se Jesus ressuscitou em corpo ou em espírito.

A pergunta certa é: porque é que a única testemunha ocular de um dos momentos mais significativos da história espiritual do Ocidente foi sistematicamente apagada, difamada e reduzida a um papel secundário? E a resposta é sempre a mesma, independentemente do século ou da latitude: porque uma mulher com autoridade espiritual própria é uma ameaça ao monopólio do sagrado.

E é aqui que a Páscoa se torna nossa.

Porque a verdadeira mensagem pascal não é a de uma ressurreição que aconteceu uma vez, num jardim, há dois mil anos. É a de um ciclo que se repete em cada mulher que atravessa a sua própria morte simbólica e decide, mesmo sem garantias, avançar para o outro lado. A Fénix não é uma criatura mitológica. É um arquétipo que vive em nós, na nossa capacidade de sobreviver ao que deveria ter-nos destruído e de emergir com mais clareza, mais força e menos tolerância para o que não nos serve.

Quantas mortes já vivemos? Quantas versões de nós ficaram para trás, em relações que terminaram, em empregos que sufocavam, em crenças que nos mantinham obscurecidas? Cada uma dessas mortes foi uma Sexta-Feira Santa. E cada vez que nos levantámos, mesmo sem saber bem como, foi o nosso terceiro dia.

Maria Madalena não precisou que ninguém lhe explicasse o ciclo. Ela foi ao túmulo quando todos tinham desistido. Ela ficou quando os outros fugiram. E foi a ela, à que ficou, à que não recuou perante a violência e o incompreensível, que a mensagem chegou primeiro.

O poder feminino não é novo. Não foi inventado por nenhum movimento recente, nenhum livro de autoajuda, nenhuma conferência de liderança. Está inscrito no próprio código fundador da espiritualidade ocidental, só que alguém teve o cuidado de o enterrar debaixo de um menir gigantesco. Pois bem, não resultou. Eis o poder feminino a despontar mais saudável e maduro do que nunca.

Bom trabalho, Mulher!

Levanta-te, ajeita o manto e avança. Como ela fez.

PS: Queres conhecer o Caminho de Maria Madalena?

Escreve nos comentários.

Vera Xavier
Mentora & Palestrante em Empoderamento Feminino

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