Era o campeão do charme, o mestre da boa disposição e tinha aquela aura de "bom rapaz" que até as nossas mães aprovam. A minha aprovou. Na minha casa, ele já sabia onde moravam os copos, qual era o vinho que valia a pena abrir e como animar um jantar que ameaçava ser do pior. Quando a vida lhe deu um daqueles abanões que deixam qualquer um num caco, nós estivemos lá. De pedra e cal. Ele era um de nós.
Até que o Guimas decidiu trazer a Lurdes para o grupo. Ela vinha do Norte, com aquele sotaque que soava a verdade e um jeito de quem não tem tempo para fitas. Gostámos dela no primeiro segundo. A Lurdes entrou de sorriso em riste e o coração nas mãos. E, com o tempo, a vida — que tem este hábito irritante de desmascarar as personagens — começou a mostrar que a verdadeira peça de coleção ali era ela, e não ele. Enquanto o Guimas se ia tornando num figurante que já não fazia sentido, a Lurdes tornou-se o centro. Era ela a amiga. Ponto.
O Silêncio que se Vende como Lealdade:
Mas havia um problema: o Guimas era um amigo porreiro para beber uns copos, mas era um namorado miserável. Eu vi, vi o que não queria, ouvi o que preferia ter ignorado. Assisti ao que os homens que não cresceram costumam fazer: asneiras da grossa. Pensei em falar? Sim. Mas a amizade com ela era recente, contava-se em semanas, meses, e a minha história com ele vinha de trás. Na minha cabeça, instalei a crença conveniente de que a lealdade era um contrato antigo que me obrigava ao silêncio.
Esta "nobre" decisão tinha raízes bem fundas. Eu já tinha tentado ser a paladina da verdade noutras ocasiões e o resultado foi sempre um desastre ferroviário. Quando contamos a uma amiga que o "príncipe" dela é, na verdade, um traste com tiques de vilão, o que acontece? A negação instala-se, a amizade implode e nós passamos de confidentes a “ressabiadas”, a “invejosas” ou "intrusivas". Aprendi a murro que muita gente prefere uma mentira confortável a uma verdade que as obrigue a arrumar a casa. Por isso, calei-me. Deixei que a vida, essa juíza implacável, fizesse o seu trabalho.
O Tiro pela Culatra e o Café Amargo:
Anos depois, o relacionamento deles morreu de morte natural (ou por exaustão dela). Numa tarde qualquer, entre cafés e desabafos, o nome do Guimas surgiu na mesa. E eu, num momento de honestidade desastrada, soltei a bomba sem qualquer aviso: "Amiga, perdeste pouco. Tu merecias muito mais."
O ar fugiu da sala. O gelo que se formou entre nós dava para arrefecer o Atlântico. Naquele momento, na verdade, nem percebi que tinha cometido o erro fatal. A Lurdes não viu ali um apoio; viu uma traição retroativa.
As mensagens dela deixaram de chegar, os silêncios tornaram-se definitivos. Antes de bater a porta da minha vida, ela ainda me perguntou o óbvio: "Se sabias, porque é que nunca disseste nada?" E a minha resposta, embora honesta, soube a pouco, pelos vistos: "Porque achei que devia lealdade ao meu amigo.”
Ainda me dói o corte da Lurdes. Dói porque percebi que a lealdade verdadeira não se ajusta para evitar o desconforto. Ao tentar não ser a "amiga chata", acabei por não ser amiga nenhuma. A lealdade não é um pacto de silêncio para proteger quem age mal; é a coragem de ser um espelho, mesmo quando a imagem refletida é feia para caramba.
A Anatomia do "E Se...?" e o Peso da Escolha:
A Lurdes afastou-se com a precisão de quem deita fora um saco de plástico do Pingo Doce. E eu fiquei ali, a olhar para os cacos, a tentar perceber se havia como concertar a cena. Não havia.
MAS, e se eu tivesse falado na altura, ela teria acreditado? Provavelmente não. Teria defendido o Guimas e eu teria sido expulsa do harém da amizade muito mais cedo. Mas talvez, só talvez, uma semente de dúvida tivesse ficado lá.
A verdade é que as pessoas só ouvem quando estão prontas para acordar.
O outro cenário era de filme, onde eu falava, ela via a luz e íamos as duas celebrar a liberdade com um gin tónico… Pois, seria apenas uma fantasia de argumento de Hollywood. Na vida real, a verdade tem dentes e morde. Dizer o que se pensa não garante paz de espírito nem finais felizes; garante apenas que não estamos a viver numa farsa.
E o pior dos cenários? Teria sido perder os dois… e viveríamos os três infelizes para sempre.
A Lealdade como Exercício de Dignidade:
Hoje, a pergunta continua a ecoar: a quem devemos lealdade? Ao passado ou ao presente? À "irmandade" dos velhos amigos ou à integridade das mulheres que entram na nossa vida para nos ensinar o que é a decência?
Se fosse hoje, eu teria tido o desplante de ser desagradável mais cedo? Sim, muito provavelmente. Agora com mais maturidade posso dizer que prefiro perder uma amizade por excesso de verdade do que mantê-la à custa de uma omissão cobarde. A lealdade aos outros começa na lealdade ao que os nossos olhos veem e o nosso coração sabe. O resto? O resto são sacos de plástico vazios levados pelo vento.
Lealdade? Sim, aos nossos valores.
