Chamavam-lhe "segurança".
Chamavam-lhe "amor".
Mas o nome certo era clausura.
"Fomos moeda de troca desde sempre."
Durante séculos, vendemos a liberdade em troca de um contrato com prazo vitalício e cláusulas pequeninas, muito pequeninas. Hoje, o acordo já nem sequer se sustenta, porque o homem, esse pilar de outrora, já não traz nem o sustento, nem a honra, nem a mística. E ainda assim, cá estamos nós… a correr de salto alto para o altar como se fosse o último lugar no voo da felicidade.
Cegas de esperança, queremos viver o conto de fadas que dura umas horas e pagamos a prestações. À espera do anel mágico que promete salvar-nos da grande maldição social: a solteirice.
Mesmo que, no caminho, tenhamos de amputar pedaços de nós e, às vezes, até o sentimos… mas lá vamos nós. O que diria a tia Lurdes? As primas já casaram todas! Temos de ir lá perguntar quantas estão felizes.
"Queremos viver o conto de fadas que dura umas horas e pagamos a prestações."
Mas diz-me lá: quem é que sai a ganhar nesta negociata?
Spoiler: não és tu. Nem eu.
É ele.
O nosso oposto complementar.
Não no sentido romântico de almas gémeas perdidas numa dança cósmica sob o luar…
Mas no sentido clínico, brutal e honesto que Gabor Maté descreve com incrível precisão:
Nós encontramos alguém com feridas exatamente iguais às nossas.
Porque o trauma atrai-se.
Porque reconhecemos, naquele olhar meio perdido e na voz que nos acalma e irrita ao mesmo tempo, o sabor familiar da dor que nunca resolvemos.
Chamamos-lhe atração e é, mas não é puramente física. E o inconsciente a brincar às escondidas.
"Mas depois… um de nós quer crescer. E o outro não."
E assim começa o contrato silencioso: eu lambo as tuas feridas se tu lamberes as minhas. É ao contrário!
Mas depois… um de nós quer crescer. E o outro não.
Um quer ir à terapia, o outro quer manter o caos aconchegante.
Um começa a ver a sombra e não quer mais, o outro apaga a luz.
E começa a verdadeira guerra: a guerra da consciência contra o conforto.
Ele torna-se o espelho que já não queres encarar.
Mas é ali, nesse confronto, que começas a ver-te com clareza.
A perceber que não estás a ser amada - estás a ser útil.
E isso não chega, nem pensar!
"Agora não é o pai que escolhe o marido, é o medo."
Hoje, teoricamente, estamos livres.
Mas o enredo continua.
Agora não é o pai que escolhe o marido, é o medo.
O medo de ficar para trás, de não ser amada, de não ser "a tal".
Corremos de salto alto para o altar como se fosse o último lugar no voo da felicidade.
De olhos fechados.
Coração cheio de esperança.
E um pânico bem escondido de acabarmos sozinhas.
Porque, sejamos honestas: ainda há uma parte de nós que acredita que o amor precisa de papel passado, aliança no dedo e selo social para ser legítimo.
E pronto. Lá vamos nós, a cair no mesmo truque, geração após geração.
Educadas para servir, para agradar, para sorrir mesmo quando estamos a engolir a alma aos bocadinhos.
"Chega de mascarar servidão de romantismo."
Mas olha, chega.
Chega de fingir que esse "sim" vem com garantia vitalícia de amor, partilha e cuidado mútuo.
Chega de mascarar servidão de romantismo.
Porque depois do casamento, muitas vezes, não ganhamos um parceiro - ganhamos uma lista de tarefas digna de um call center emocional com cozinha incluída.
É que o pacote completo do "matrimónio moderno" traz um upgrade não anunciado:
– governanta full-time;
– amante disponível (mesmo exausta);
– psicóloga improvisada para crises que ele nunca entende mas exige resolver;
– enfermeira nas constipações (porque uma gripe dele é um pré internamento);
– mãe dedicada (dos traumas dele, que tu herdas por associação);
– mãe dos filhos;
– personal shopper para os seus gostos duvidosos;
– stylist para disfarçar os looks de domingo-depressivo;
– chef de cozinha por necessidade, não paixão;
– secretária que gere consultas, contas, recados e afins;
– motorista de crianças e sogras;
– mediadora de conflitos domésticos;
– animadora sociocultural em jantares de família;
– terapeuta sexual com paciência divina para egos frágeis;
– e, claro… musa. Sempre bonita. Sempre leve. Sempre disponível.
Ah, e com um sorriso. Porque afinal, "ele ajuda, é tão querido, não é?".
Ajuda?! Como se fosse favor?
Ajuda - quando o verbo certo devia ser partilhar.
"É só o medo. O medo de ficarmos sozinhas."
A lista é tão longa que dava para fazer um spin-off na Netflix: "Manual de Sobrevivência Para Mulheres Casadas: temporada infinita".
E nós? Nós dizemos que estamos cansadas, mas sorrimos para não parecer ingratas.
Acreditamos que isto é o normal.
Que amar é isto. Que é "assim mesmo".
Mas não, irmã. Não é.
É só o medo.
O medo de ficarmos sozinhas.
De sermos julgadas.
De admitir que o sonho afinal era um pesadelo com música romântica de fundo.
Mas esse medo, se o escutares bem, também traz uma pista.
É a tua bússola de regresso… para onde?
Ela aponta para dentro.
Para ti.
"Não és troféu, nem 'a mulher ideal'. És gente."
Então, ouve:
Tu não nasceste para ser tudo para todos e esqueceres-te de ti no processo.
Tu não és uma lista de serviços 24/7.
Não és troféu, nem "a mulher ideal".
És gente.
Mesmo quando duvidas.
Mesmo quando tropeças.
Mesmo quando escolhes ficar. Ou sair.
Está na hora de tirares o avental emocional e pores a capa.
De assumires o comando. De te escolheres.
Porque essa revolução, não começa quando alguém te trata bem.
Começa quando tu decides que mereces ser tratada como és.
E não há contrato que te defina ou constranja. Nunca mais.
