Crónicas

"A falácia do casamento: a armadilha que nos vendem (e nós caímos que nem umas patinhas)", por Vera Xavier

Fomos moeda de troca desde sempre. Trocadas por gado, terras, alianças políticas ou dotes que compravam silêncio e obediência.

LifeCoach, Hackeadora de Destinos & Criadora de Novas Histórias de Vida
  • 21 jul 2025, 11:51
Vera Xavier
Vera Xavier

Chamavam-lhe "segurança".
Chamavam-lhe "amor".
Mas o nome certo era clausura.

"Fomos moeda de troca desde sempre."

Durante séculos, vendemos a liberdade em troca de um contrato com prazo vitalício e cláusulas pequeninas, muito pequeninas. Hoje, o acordo já nem sequer se sustenta, porque o homem, esse pilar de outrora, já não traz nem o sustento, nem a honra, nem a mística. E ainda assim, cá estamos nós… a correr de salto alto para o altar como se fosse o último lugar no voo da felicidade.

Cegas de esperança, queremos viver o conto de fadas que dura umas horas e pagamos a prestações. À espera do anel mágico que promete salvar-nos da grande maldição social: a solteirice.
Mesmo que, no caminho, tenhamos de amputar pedaços de nós e, às vezes, até o sentimos… mas lá vamos nós. O que diria a tia Lurdes? As primas já casaram todas! Temos de ir lá perguntar quantas estão felizes. 

"Queremos viver o conto de fadas que dura umas horas e pagamos a prestações."

Mas diz-me lá: quem é que sai a ganhar nesta negociata?
Spoiler: não és tu. Nem eu.

É ele.
O nosso oposto complementar.
Não no sentido romântico de almas gémeas perdidas numa dança cósmica sob o luar…
Mas no sentido clínico, brutal e honesto que Gabor Maté descreve com incrível precisão:
Nós encontramos alguém com feridas exatamente iguais às nossas.

Porque o trauma atrai-se.
Porque reconhecemos, naquele olhar meio perdido e na voz que nos acalma e irrita ao mesmo tempo, o sabor familiar da dor que nunca resolvemos.
Chamamos-lhe atração e é, mas não é puramente física. E o inconsciente a brincar às escondidas.

"Mas depois… um de nós quer crescer. E o outro não."

E assim começa o contrato silencioso: eu lambo as tuas feridas se tu lamberes as minhas. É ao contrário! 
Mas depois… um de nós quer crescer. E o outro não.
Um quer ir à terapia, o outro quer manter o caos aconchegante.
Um começa a ver a sombra e não quer mais, o outro apaga a luz.
E começa a verdadeira guerra: a guerra da consciência contra o conforto.

Ele torna-se o espelho que já não queres encarar.
Mas é ali, nesse confronto, que começas a ver-te com clareza.
A perceber que não estás a ser amada - estás a ser útil.
E isso não chega, nem pensar!

"Agora não é o pai que escolhe o marido, é o medo."

Hoje, teoricamente, estamos livres.
Mas o enredo continua.
Agora não é o pai que escolhe o marido, é o medo.
O medo de ficar para trás, de não ser amada, de não ser "a tal".
Corremos de salto alto para o altar como se fosse o último lugar no voo da felicidade.

De olhos fechados.
Coração cheio de esperança.
E um pânico bem escondido de acabarmos sozinhas.

Porque, sejamos honestas: ainda há uma parte de nós que acredita que o amor precisa de papel passado, aliança no dedo e selo social para ser legítimo.

E pronto. Lá vamos nós, a cair no mesmo truque, geração após geração.
Educadas para servir, para agradar, para sorrir mesmo quando estamos a engolir a alma aos bocadinhos.

"Chega de mascarar servidão de romantismo."

Mas olha, chega.
Chega de fingir que esse "sim" vem com garantia vitalícia de amor, partilha e cuidado mútuo.
Chega de mascarar servidão de romantismo.
Porque depois do casamento, muitas vezes, não ganhamos um parceiro - ganhamos uma lista de tarefas digna de um call center emocional com cozinha incluída.

É que o pacote completo do "matrimónio moderno" traz um upgrade não anunciado:
– governanta full-time;
– amante disponível (mesmo exausta);
– psicóloga improvisada para crises que ele nunca entende mas exige resolver;
– enfermeira nas constipações (porque uma gripe dele é um pré internamento);
– mãe dedicada (dos traumas dele, que tu herdas por associação);
– mãe dos filhos;
personal shopper para os seus gostos duvidosos;
stylist para disfarçar os looks de domingo-depressivo;
– chef de cozinha por necessidade, não paixão;
– secretária que gere consultas, contas, recados e afins;
– motorista de crianças e sogras;
– mediadora de conflitos domésticos;
– animadora sociocultural em jantares de família;
– terapeuta sexual com paciência divina para egos frágeis;
– e, claro… musa. Sempre bonita. Sempre leve. Sempre disponível.

Ah, e com um sorriso. Porque afinal, "ele ajuda, é tão querido, não é?".
Ajuda?! Como se fosse favor?
Ajuda - quando o verbo certo devia ser partilhar.

"É só o medo. O medo de ficarmos sozinhas."

A lista é tão longa que dava para fazer um spin-off na Netflix: "Manual de Sobrevivência Para Mulheres Casadas: temporada infinita".

E nós? Nós dizemos que estamos cansadas, mas sorrimos para não parecer ingratas.
Acreditamos que isto é o normal.
Que amar é isto. Que é "assim mesmo".
Mas não, irmã. Não é.

É só o medo.
O medo de ficarmos sozinhas.
De sermos julgadas.
De admitir que o sonho afinal era um pesadelo com música romântica de fundo.

Mas esse medo, se o escutares bem, também traz uma pista.
É a tua bússola de regresso… para onde?
Ela aponta para dentro.
Para ti.

"Não és troféu, nem 'a mulher ideal'. És gente."

Então, ouve:
Tu não nasceste para ser tudo para todos e esqueceres-te de ti no processo.
Tu não és uma lista de serviços 24/7.
Não és troféu, nem "a mulher ideal".
És gente.
Mesmo quando duvidas.
Mesmo quando tropeças.
Mesmo quando escolhes ficar. Ou sair.

Está na hora de tirares o avental emocional e pores a capa.
De assumires o comando. De te escolheres.

Porque essa revolução, não começa quando alguém te trata bem.
Começa quando tu decides que mereces ser tratada como és.

E não há contrato que te defina ou constranja. Nunca mais.

Vera Xavier
LifeCoach, Hackeadora de Destinos & Criadora de Novas Histórias de Vida

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