Crónicas

"A armadilha da Igualdade - O novo feminino quer Equidade", por Vera Xavier

Eles continuam a jogar ao Risk e Monopólio. Nós limitamo-nos a segurar o mundo para que eles tenham onde brincar.

Hackeadora de Destinos & Mentoria de Empoderamento Feminino | Academia da Nova Mulher
  • 25 jan, 16:54
Vera Xavier
Vera Xavier

Reza a lenda urbana — aquela que sobrevive em jantares de família e mentes, vá, preguiçosas — que a 13 de janeiro de 1975, o Parque Eduardo VII foi iluminado por uma pira de sutiãs em chamas. É uma imagem forte, mas é um mito urbano. Um dos melhores, diga-se de passagem. O que aconteceu na realidade foi muito mais revelador: cerca de 50 mulheres - incluindo Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Maria Lamas e Célia Metrass - reuniram-se para protestar contra o machismo num "striptease contra a censura". O resultado? Foram cercadas por 3000 homens. Três mil.

Se alguma vez precisares de uma definição visual de "fragilidade masculina", imagina três mil marmanjos a correr para o parque para impedir meia dúzia de mulheres de queimar símbolos de opressão… ou será que queriam muito ver sutiãs? O ato foi travado, o sutiã não ardeu, mas o recado ficou dado: a liberdade feminina assusta tanto que foi preciso um exército de testosterona para contê-la.

Durante décadas, a nossa luta focou-se na ideia de igualdade absoluta. Era um feminismo que tentava medir a mulher pela régua do homem. Queríamos ser "iguais" a eles - na dureza, no tom de voz, na forma de exercer o poder. Vestimos o fato deles (com as tais ombreiras atrozes, que nos davam uma cintura de abelha, mas nos roubavam a identidade) e jogámos o jogo deles. Adotámos a sua frieza como se ser um "Homem 2.0" fosse o topo da evolução. Foi uma fase crucial para abrir portas, sim, mas trouxe uma armadilha: a nossa validade dependia da capacidade de mimetizar o masculino. Éramos uma versão "corrigida" daquilo que eles já eram.

A verdade é que hoje já não queremos essa igualdade. Não queremos ser iguais a um modelo que está claramente escangalhado. (A generalização serve apenas o propósito desta crónica; sabemos que há muitas e excelentes exceções).

Basta olhar para o estado do sítio. Enquanto o mundo é liderado maioritariamente por homens que continuam a brincar aos soldadinhos e às "conquistas" — sejam elas territoriais ou económicas, são sempre de puro ego — somos nós que seguramos as pontas para que o planeta não desmorone. Eles jogam ao Risk enquanto nós gerimos as crises, sustentamos as comunidades e garantimos que haja vida para além do rasto de destruição que os seus "jogos de poder" deixam para trás. Eles conquistam e destroem; nós mantemos o mundo habitável.

A grande viragem reside na transição da igualdade para a equidade. A igualdade tenta dar a todos as mesmas oportunidades, ignorando que partimos de lugares diferentes; a equidade percebe que somos biológica e emocionalmente distintos, e que é nessas diferenças que reside a nossa maior força. O novo poder feminino não rejeita a sensibilidade nem a intuição para parecer uma "profissional durona"; pelo contrário, usa-a como a única ferramenta capaz de travar este burnout global.

Esta não é uma guerra contra o masculino, é um alerta de sobrevivência de consciência para todos. O futuro não é feminino porque exclui alguém, mas porque traz finalmente para o palco a energia resiliente e sábia que, por natureza, é nossa. Podem arquivar a igualdade e as vossas réguas, esquadros e prumos descalibrados. Nós não queremos ser iguais a quem está a incendiar a casa; nós queremos ser quem finalmente sabe como usar bem o fogo.

Vera Xavier
Hackeadora de Destinos & Mentoria de Empoderamento Feminino | Academia da Nova Mulher

Relacionados