Já usaste a palavra karma hoje? Aposto que sim. Talvez quando alguém te fechou a passagem no trânsito e murmuraste, com uma serenidade budista mal amanhada, "o karma vai tratar disto, meu camelo”. Ou quando uma ex-amiga teve um contratempo e alguém no grupo sussurrou, com uma satisfação muito mal disfarçada de espiritualidade, "é o karma a funcionar". Usamos a palavra com uma leveza desconcertante, como se fosse um sistema de justiça divina automático, uma espécie de tribunal cósmico que anda por aí a distribuir bónus e castigos conforme o comportamento de cada um. É assim tipo uma máquina de vending do universo: metes moedas boas, sai sorte; metes moedas más, sai problema. Simplório, não é?
Não é isso. Nunca foi assim.
Mas antes de chegar ao karma, precisamos de conhecer a Mulher que mais contribuiu para o trazer para o Ocidente. Helena Petrovna Blavatsky, a HPB para os íntimos - como eu, por exemplo (presunção e água benta) e para o meu mui querido prof José Manuel Anacleto que tanto me ensinou -, casou aos dezassete anos com Nikifor Blavatsky, um homem de quarenta e tal anos, Vice-Governador, escolhido pela família com a delicadeza com que se escolhe um parador. Na cerimónia, quando o padre pronunciou as palavras "honrarás e obedecerás ao teu marido", ela viu vermelho e depois ficou mortalmente pálida. Três semanas fugiu a uma velocidade estonteante pela porta para nunca mais ser vista. Não para casa da família. Para o mundo. Embarcou numa viagem de três décadas pela Ásia, Médio Oriente, Europa e Américas, foi recebida em mosteiros budistas no Tibete e em templos hindus na Índia, estudou com mestres que a maioria dos homens da época nem sabia que existiam, e regressou para fundar a Sociedade Teosófica e escrever obras que ainda hoje moldam o pensamento esotérico ocidental. Algumas obras foram traduzidas pelo nosso Fernando Pessoa e, pelo que se sabe, terão produzido uns curto-circuitos na sua mente brilhante. HPB usou o nome do marido a vida toda, porque era a única forma de uma mulher do século XIX viajar com alguma credibilidade e segurança. Foi o único préstimo que ele lhe deu, e ela aproveitou-o na totalidade. Valente!
Vamos ver o que diz a Tradição.
Ora bem, esta mulher extraordinária e inconveniente explicava o karma não como punição mas como equilíbrio. É a lei da causalidade aplicada à consciência: cada pensamento, cada intenção, cada ação cria uma onda que se propaga e regressa. Não como castigo divino, mas como consequência natural, com a mesma neutralidade com que uma pedra atirada à água cria ondas que voltam à margem. A pedra não é punida. A água não julga. É física. É Lei.
O karma é um dos sete princípios herméticos, esse conjunto de leis universais atribuído a Hermes Trismegisto e compilado no Kybalion, que descreve o funcionamento profundo da realidade.
Vamos a elas: As sete leis são o Mentalismo, a Correspondência, a Vibração, a Polaridade, o Ritmo, o Género e a Causalidade, que é o karma. Sete leis. Um sistema completo e interdependente. E nós pegámos numa, descontextualizámos, simplificámos até ao tutano e transformámos num instrumento de julgamento dos outros e de vitimização própria. É um talento notável, convenhamos.
O gnosticismo cristão vai ainda mais fundo. Para os gnósticos, o karma não é apenas uma lei exterior que nos acontece. É o espelho da nossa consciência. Cada ilusão que mantemos, cada sombra que recusamos ver em nós, cada vez que projetamos no outro o que não queremos reconhecer em nós próprios, cria um padrão que se repete até ser compreendido. Não para nos punir, para nos ensinar e podermos passar para outro nível de consciência. A distinção é abismal: num caso somos vítimas de um sistema, no outro somos co-criadores do nosso próprio percurso.
Aqui está a distorção que nos tem feito tanto mal. Quando reduzimos o karma a "mereces o que tens" ou "vais pagar pelo que fizeste", palavras ditas por um comum mortal, transformamos uma lei de crescimento numa lei de julgamento. E o julgamento tem um efeito muito conveniente: desresponsabiliza e mantém-te na frequência da culpa. Se o mal que me acontece é karma de uma vida anterior que não me lembro, não tenho nada a fazer além de sofrer com resignação espiritual, típica da Era de Peixes. Se o mal que acontece ao outro é karma dele, não tenho nada a fazer além de observar com uma distância muito confortável. É indiferença. É uma forma sofisticada de fatalismo travestido de elevação espiritual.
A lei da Correspondência, outra das sete leis herméticas, diz "como é em cima é em baixo, como é dentro é fora". O que manifesto na minha vida exterior corresponde ao que habita a minha vida interior. Não como punição, mas como mapa. O que vejo à minha volta que me perturba, que me irrita, que me faz sofrer repetidamente, é um convite a olhar para dentro e perguntar o que ali ressoa. É uma lei de responsabilidade radical e de poder pessoal. Porque se o de fora corresponde ao de dentro, então transformar o de dentro transforma o de fora. Não é magia. É mecânica da consciência e não interferência direta de um ser maior que nos olha de forma paternalista e acusatória… e atenção, para cada um de nós. Quão egocêntricos somos, terráqueos?! Adiante.
É precisamente aqui que a mudança de Era entra com toda a sua potência. A Era de Peixes, os dois mil anos que agora termina, foi a era das grandes religiões, dos salvadores, dos intermediários entre o humano e o divino. E do fanatismo, também. Foi uma Era necessária e extraordinária que nos deu Jesus, Maria Madalena, João Baptista, Maomé, o Buda histórico e milénios de exploração espiritual profunda. Porém, teve também a sua sombra longa: a tendência para delegar a responsabilidade. Para esperar o salvador externo. O céu. As virgens no paraíso. Para olhar para cima em vez de para dentro. Para aceitarmos discursos como “sacrifica-te agora para depois seres recompensada”. É por isto que a religião foi chamada por muitos como o ópio do povo. Sabes quem disse isto? Karl Marx.
A Era de Aquário pede o oposto. Pede que cada uma de nós assuma o papel de sacerdotisa da sua própria existência. Pede que paremos de usar o karma como desculpa para o que nos acontece e comecemos a usá-lo como bússola para o que criamos. A pergunta deixa de ser "porque é que isto me acontece?" e passa a ser "o que estou a criar? O que estou a aprender? Como posso deixar o mundo melhor do que quando cheguei?"
São perguntas muito mais exigentes. E muito mais libertadoras.
O karma não é o tribunal cósmico que anda a tomar nota das nossas falhas. É o professor amoroso e o mais honesto que alguma vez teremos, esse que não nos dirá o que queremos ouvir, mas o que precisamos aprender. E a melhor notícia, aquela que a HPB sabia quando saiu pela porta três semanas depois do casamento, é esta:
Não somos vítimas do Karma. Somos as inventoras da nossa Existência.
Constrói a tua, irmã! Avança porque o tempo está exigente e, como já sentiste, está a voar.
Ajeita o teu lindo manto e começa agora, melhor.
