Crónicas

"Uma psicóloga também chora", por Vera de Melo

Há uma ideia estranha que muitas pessoas carregam. A de que os psicólogos vivem numa espécie de lugar emocional privilegiado, onde a tristeza não entra, as dúvidas não aparecem e a dor encontra sempre uma explicação. Mas não é assim.

Psicóloga Clínica
  • 3 jun, 12:13

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Uma psicóloga também chora. Também sente saudades. Também conhece a desilusão, a perda, o medo e a fragilidade.

Conhecer as emoções não impede que elas existam. Ter ferramentas não significa não sentir.

Aliás, a psicologia nunca teve como objetivo eliminar a dor humana. O objetivo é aprender a atravessá-la.

É por isso que uma psicóloga pode falar sobre ansiedade e, ainda assim, sentir ansiedade. Pode ajudar alguém a lidar com o luto e, noutra altura da sua vida, viver o seu próprio luto. Pode ensinar a importância da autocompaixão e, em alguns dias, precisar de se recordar dessa mesma mensagem.

Porque ser psicóloga não significa deixar de ser pessoa. Significa apenas que escolheu acompanhar pessoas nos seus caminhos emocionais, sabendo que também ela continua a percorrer o seu.

Talvez seja precisamente essa humanidade que torna possível o encontro terapêutico. Não a perfeição. Não a ausência de dor. Mas a capacidade de compreender que sofrer faz parte da experiência humana.

Durante anos, muitas pessoas procuraram profissionais que parecessem inabaláveis.

Hoje, felizmente, começa a existir espaço para uma visão mais realista. A de que a força não está em nunca cair. Está em reconhecer quando algo dói. Está em pedir ajuda quando necessário. Está em continuar a caminhar mesmo quando o coração pesa.

Uma psicóloga também chora. E não é apesar disso que consegue ajudar os outros.

Muitas vezes, é precisamente porque conhece a profundidade das emoções humanas que consegue estar presente quando alguém mais precisa.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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