Crónicas

"TPC nas férias: sim ou não? O que diz a psicologia?", por Vera de Melo

As férias começaram. E, poucos dias depois, instala-se a mesma discussão em muitas casas. "Faz os trabalhos de casa." "Mas estou de férias!" Quem tem razão?

  • 29 jul, 18:24

Vera de Melo já não está assim! Veja o novo look da psicóloga

Vera de Melo goza férias na Grécia

Vera de Melo apresenta novo livro na Feira do Livro de Lisboa

Rodeada de amigos e família, Vera de Melo lança mais um livro

Vera de Melo na Festa do Livro em Celorico de Basto

Vera de Melo faz confissão... que envolve o marido!

Festa de Verão TVI: Vera de Melo exibe novo visual

As imagens da transformação de Vera de Melo

Não vai acreditar no que Vera de Melo fez em criança: "Fugi e disse que não tinha sido eu"

Vera de Melo lança novo livro: "Acredito que o nosso coração é uma bússola invisível"

Os pais que receiam que os filhos "desaprendam" tudo o que fizeram durante o ano? Ou as crianças que só querem brincar?
A resposta da psicologia talvez não agrade a quem procura um simples "sim" ou "não".
Porque depende daquilo a que chamamos TPC.
Se as férias forem apenas uma extensão da sala de aula, com fichas atrás de fichas, exercícios intermináveis e horários rígidos, então estamos a esquecer uma coisa fundamental: o cérebro também aprende quando descansa.
Hoje sabemos que o descanso não é tempo perdido. É durante os períodos de menor exigência que o cérebro consolida aprendizagens, organiza a informação e recupera recursos cognitivos essenciais, como a atenção, a memória e a criatividade.
Uma criança cansada não aprende melhor.
Aprende pior.
Mas isso também não significa que o verão deva ser uma pausa de dois meses em relação a tudo o que estimula o pensamento.
O cérebro funciona um pouco como um músculo.
Não precisa de treinar intensivamente todos os dias.
Mas beneficia quando continua ativo.
A questão é como.
Ler um livro escolhido pela própria criança. Escrever um postal aos avós. Fazer um bolo e calcular as quantidades dos ingredientes. Ir ao supermercado e comparar preços. Visitar um museu. Construir uma cabana. Inventar histórias. Jogar às cartas. Montar puzzles.
Tudo isto é aprendizagem.
Só que a criança não lhe chama escola.
Chama-lhe vida.
O problema é que, durante muitos anos, associámos aprender a estar sentado, calado e com um lápis na mão.
Mas uma infância saudável precisa de muito mais do que isso.
Precisa de correr. De brincar.
De se aborrecer.
Sim, de se aborrecer.
Porque é precisamente quando não têm tudo planeado que muitas crianças começam a criar, a imaginar, a resolver problemas e a descobrir interesses.
Hoje sabemos que o tédio não é um inimigo.
É um dos motores da criatividade.
Há ainda outro aspeto que raramente é discutido.
As férias também servem para recuperar emocionalmente.
Durante um ano inteiro, as crianças vivem com horários, avaliações, testes, regras e exigências constantes.
As férias representam uma oportunidade para respirar.
Para reencontrar a família. Para brincar sem objetivos. Para dormir mais. Para simplesmente serem crianças.
Transformar esse tempo numa continuação da escola pode retirar-lhes precisamente aquilo de que mais precisam.
Isso significa que nunca devem fazer TPC?
Não necessariamente.
Se a escola propôs algumas atividades curtas, equilibradas e adequadas à idade, podem ser uma boa forma de manter hábitos de estudo.
Mas há uma diferença enorme entre dedicar vinte minutos a uma tarefa e transformar as férias numa maratona de fichas.
Os pais perguntam-me muitas vezes:
"Tenho medo que ele se esqueça do que aprendeu."
A minha pergunta costuma ser outra.
"E tens medo que ele deixe de brincar?"
No futuro, os teus filhos provavelmente não se vão lembrar das fichas que fizeram em julho.
Mas vão lembrar-se das guerras de água, dos gelados depois da praia, das noites a ver estrelas, das histórias contadas pelos avós e das gargalhadas que deram sem olhar para o relógio.
A psicologia é clara: brincar não é uma pausa no desenvolvimento.
É uma das formas mais importantes de aprender.
Talvez, neste verão, a pergunta não seja quantos TPC o teu filho fez.
Talvez seja outra.
Quanto tempo teve, verdadeiramente, para ser criança?

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

Relacionados