Crónicas

"'Toda a gente tem PHDA?' O perigo dos autodiagnósticos na era das redes sociais", por Vera de Melo

Nos últimos anos, algo curioso aconteceu. De repente, parece que toda a gente tem PHDA.

Psicóloga Clínica
  • 30 mai, 13:51

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Basta passar alguns minutos nas redes sociais para encontrar vídeos que prometem ajudar-te a descobrir se tens Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). Esqueceste-te das chaves? Tens PHDA. Saltas de tarefa em tarefa? Tens PHDA. Ficas distraído numa reunião? Tens PHDA.

A mensagem é simples, rápida e apelativa. O problema é que a realidade é muito mais complexa.

O cérebro humano não cabe num vídeo de 30 segundos.

A psicologia e a psiquiatria trabalham há décadas para compreender a PHDA. Sabemos hoje que se trata de uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a atenção, a impulsividade e a capacidade de autorregulação.

Mas ter alguns comportamentos associados à PHDA não significa ter PHDA.

Todos nós, em determinados momentos da vida, sentimos dificuldade em concentrar-nos, esquecemo-nos de compromissos, procrastinamos ou sentimos a mente dispersa. Estes comportamentos fazem parte da experiência humana e podem surgir por inúmeras razões.

Stress.

Ansiedade.

Privação de sono.

Sobrecarga mental.

Burnout.

Problemas emocionais.

Uso excessivo de tecnologia.

A questão não é apenas "o que sentes", mas também a intensidade, a frequência, a duração e o impacto que esses sintomas têm na tua vida.

Porque é que os autodiagnósticos são tão apelativos?

Do ponto de vista psicológico, os seres humanos procuram explicações para aquilo que sentem.

Quando alguém encontra uma descrição que parece encaixar nas suas dificuldades, sente frequentemente alívio.

Finalmente, há uma resposta.

Finalmente, algo faz sentido.

Esse processo é compreensível e profundamente humano.

O problema surge quando a necessidade de encontrar uma explicação se transforma numa certeza absoluta sem uma avaliação adequada.

O cérebro tem tendência para procurar confirmações daquilo em que já acredita. Este fenómeno, conhecido como viés de confirmação, leva-nos a selecionar informações que validam a nossa hipótese e a ignorar tudo o que a contradiz.

Assim, depois de uma pessoa acreditar que tem PHDA, começa a interpretar muitos dos seus comportamentos através dessa lente.

A influência das redes sociais

As redes sociais trouxeram algo muito positivo: mais conversa sobre saúde mental.

Muitas pessoas reconheceram dificuldades que nunca tinham conseguido nomear e procuraram ajuda profissional graças à informação que encontraram online.

No entanto, existe também um lado menos positivo.

Os algoritmos privilegiam conteúdos rápidos, emocionais e simplificados.

Uma condição clínica complexa acaba frequentemente reduzida a listas de sinais universais com os quais praticamente qualquer pessoa se identifica.

Quando isso acontece, corre-se o risco de transformar características humanas normais em sintomas clínicos.

Nem toda a distração é PHDA.

Nem toda a procrastinação é PHDA.

Nem toda a dificuldade de concentração é PHDA.

O risco de ignorar aquilo que realmente está a acontecer

Um dos maiores perigos dos autodiagnósticos é que podem afastar as pessoas da verdadeira origem do seu sofrimento.

Alguém pode acreditar que tem PHDA quando, na realidade, está a viver um período de ansiedade intensa.

Outra pessoa pode atribuir todas as suas dificuldades à PHDA quando está emocionalmente exausta ou em burnout.

Sem uma avaliação cuidada, corre-se o risco de procurar respostas no lugar errado.

E quando procuramos respostas erradas, também tendemos a procurar soluções erradas.

Diagnosticar é muito mais do que reconhecer sintomas

Um diagnóstico psicológico não é feito através de um vídeo, de um questionário online ou de uma lista de características partilhada nas redes sociais.

Envolve uma avaliação clínica rigorosa, a análise da história de vida da pessoa, do seu funcionamento em diferentes contextos e do impacto real dos sintomas ao longo do tempo.

Os profissionais não procuram apenas sinais de uma perturbação.

Procuram compreender a pessoa como um todo.

Entre a curiosidade e a certeza

É importante distinguir duas coisas.

Suspeitar não é diagnosticar.

Identificar-se com alguns conteúdos sobre PHDA pode ser um ponto de partida para a reflexão. Pode até ser um motivo válido para procurar uma avaliação especializada.

Mas transformar uma suspeita numa certeza sem avaliação profissional pode gerar confusão, alimentar crenças erradas e dificultar o acesso ao apoio adequado.

A saúde mental merece mais do que respostas rápidas.

Merece curiosidade, reflexão e, quando necessário, uma avaliação séria e cuidadosa. Porque nem tudo o que vemos nas redes sociais é um diagnóstico.

E nem tudo o que sentimos precisa de ter um rótulo para ser compreendido.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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