Crónicas

Tem medo de viajar de avião? Espreite as dicas da psicóloga Vera de Melo!

Há pessoas que começam as férias quando chegam ao destino. Outras começam a sofrer ainda antes de entrar no avião.

  • 19 ago, 14:16

O aeroporto aproxima-se e o coração acelera. Começam os pensamentos: “E se acontece alguma coisa?”, “E se há turbulência?”, “E se entro em pânico lá dentro?”, “E se não consigo sair?”

E há uma coisa curiosa na ansiedade: muitas vezes, aquilo que mais nos assusta não é o avião. É a nossa própria imaginação.

O medo de viajar de avião é muito mais do que “não gostar de voar”. Para algumas pessoas, é uma verdadeira batalha entre aquilo que sabem racionalmente e aquilo que o cérebro lhes diz emocionalmente.

A pessoa sabe que está segura. Mas sente que não está.

E é precisamente aqui que precisamos de compreender como funciona a ansiedade.

O nosso cérebro tem um sistema de alarme cuja função é proteger-nos. Quando identifica uma possível ameaça, prepara o corpo para reagir. O coração acelera, a respiração muda, os músculos ficam tensos, a atenção aumenta.

O problema é que este sistema não sabe distinguir perfeitamente entre uma ameaça real e uma ameaça imaginada.

Se eu pensar repetidamente que o avião pode ter um problema, o meu corpo pode começar a reagir como se esse problema estivesse a acontecer.

E depois acontece uma coisa muito típica da ansiedade: a pessoa assusta-se com os próprios sintomas.

“Estou a ficar tonta.”

“Estou a respirar mal.”

“O meu coração está a bater demasiado depressa.”

“Vou perder o controlo.”

E o cérebro interpreta estas sensações como mais uma prova de que existe perigo.

É assim que se constrói o ciclo da ansiedade.

Mas há outro ingrediente poderoso: a falta de controlo.

No avião, entregamos uma parte significativa do controlo a outras pessoas. Não conduzimos, não sabemos exatamente o que está a acontecer na cabine e não podemos simplesmente parar e sair.

Para um cérebro que precisa de controlar tudo para se sentir seguro, isto pode ser particularmente difícil.

E por isso, uma das primeiras coisas que digo a quem tem medo de voar é: não tente controlar aquilo que não pode controlar. Aprenda a controlar aquilo que está ao seu alcance.

A sua respiração.

A sua atenção.

Os seus pensamentos.

A forma como interpreta as sensações do seu corpo.

E a maneira como responde ao medo.

Então, o que pode fazer?

Primeiro: não tente convencer-se de que não está com medo.

Está.

E está tudo bem.

Dizer “não posso ter medo” cria uma segunda luta: além de estar ansioso, passa a sentir que não devia estar ansioso.

Experimente antes dizer: “Estou a sentir ansiedade. O meu corpo está em alerta. Isto é desconfortável, mas não significa que esteja em perigo.”

Parece uma pequena mudança. Psicologicamente, pode ser enorme.

Segundo: não transforme cada sensação num sinal de perigo.

Uma turbulência pode fazer o corpo reagir. Um barulho pode assustar. Uma sensação diferente durante a descolagem pode provocar ansiedade.

Mas sentir medo não é uma prova de que algo está errado.

Terceiro: tenha cuidado com o “e se?”.

E se houver turbulência?

E se acontecer alguma coisa?

E se eu entrar em pânico?

A ansiedade adora perguntas para as quais não existe uma garantia absoluta.

E é aí que precisamos de parar de procurar certezas impossíveis.

A vida não nos oferece garantias de 100%. O que podemos desenvolver é a capacidade de lidar com aquilo que sentimos quando não temos controlo absoluto.

Quarto: não alimente o medo antes da viagem.

Passar horas a pesquisar acidentes, ver vídeos assustadores ou ler relatos negativos pode parecer preparação.

Muitas vezes, é ansiedade disfarçada de preparação.

Informar-se pode ajudar. Procurar obsessivamente informação para conseguir uma garantia absoluta tende a fazer o contrário.

Quinto: não fuja sempre.

Evitar o avião pode trazer alívio imediato. E esse alívio ensina uma coisa ao cérebro: “Ainda bem que fugimos.”

Na psicologia sabemos que a exposição gradual pode ajudar a quebrar este ciclo. Não significa atirar uma pessoa para aquilo que mais teme. Significa criar experiências progressivas em que o cérebro aprende que consegue permanecer perante o medo sem precisar de fugir.

Porque é assim que a ansiedade começa a perder força.

Não quando conseguimos garantir que nunca mais vamos sentir medo.

Mas quando percebemos que conseguimos sentir medo sem obedecer-lhe.

E há uma frase que gostava que levasse consigo para o próximo voo:

“O meu medo está a tentar proteger-me. Eu agradeço-lhe a intenção, mas não preciso de lhe entregar o comando.”

Se o medo de voar é tão intenso que condiciona as suas viagens, provoca ataques de pânico ou faz com que evite completamente viajar de avião, não precisa de enfrentar isto sozinho. A ansiedade pode ser trabalhada em psicoterapia e existem estratégias específicas para as fobias e os medos relacionados com viagens aéreas.

Porque viajar devia ser sobre descobrir lugares, criar memórias e viver aquilo que ainda não conhecemos.

Não sobre passar três meses a sofrer por causa das quatro horas de voo.

E talvez a verdadeira liberdade não seja deixar de ter medo.

Se calhar, é perceber que o medo pode ir connosco. Mas não precisa de escolher o destino.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

Relacionados