Crónicas

"Socorro! O meu marido está a trair-me...", por Vera de Melo

Talvez o desafio dos casais de hoje já não seja apenas proteger a relação de uma terceira pessoa. Talvez seja proteger a relação de tudo aquilo que, todos os dias, lhes rouba tempo sem que deem por isso.

  • 8 ago, 08:52

Calma.

Provavelmente não é com outra mulher.

É com o telemóvel.

Parece uma afirmação exagerada, mas pensa um instante.

Quantas vezes já estiveste a falar com o teu companheiro e ele respondeu sem levantar os olhos do ecrã?

Quantas refeições foram interrompidas por notificações?

Quantas noites acabaram com duas pessoas deitadas na mesma cama, mas cada uma mergulhada no seu próprio telemóvel?

A psicologia ensina-nos que as relações não vivem apenas de amor. Vivem de atenção.

Sentimo-nos amados quando nos sentimos vistos. Quando alguém nos escuta. Quando sentimos que, durante alguns minutos, somos a prioridade daquela pessoa.

O problema é que, sem darmos por isso, o telemóvel começou a disputar esse lugar.

Hoje, muitos casais passam horas lado a lado... mas emocionalmente distantes.

O silêncio já não é preenchido por uma conversa.

É preenchido por um scroll.

As pausas deixaram de servir para trocar um olhar.

Servem para verificar uma notificação.

Os momentos de aborrecimento, que tantas vezes davam origem a conversas profundas, são imediatamente ocupados pelo ecrã.

Sem intenção, o telemóvel começou a ocupar o espaço que antes pertencia ao casal.

Não porque exista uma traição amorosa.

Mas porque existe uma traição à presença.

A ciência tem mostrado que a simples presença de um telemóvel durante uma conversa diminui a qualidade da comunicação, reduz a empatia e faz com que as pessoas sintam menos proximidade emocional. O problema não é apenas o tempo de utilização. É a mensagem silenciosa que o cérebro recebe: "há sempre alguma coisa mais importante do que este momento."

Pouco a pouco, deixamos de contar como correu o dia.

Deixamos de reparar na expressão do outro.

Deixamos de rir juntos.

E quando damos por isso, continuamos casados, mas já quase não nos encontramos.

É curioso... muitas pessoas preocupam-se tanto com a possibilidade de existir uma terceira pessoa que se esquecem de reparar que essa terceira presença já entrou em casa há muitos anos.

Cabe no bolso.

Dorme na mesa de cabeceira.

Acompanha-nos às refeições.

Vai connosco para a cama.

E reclama a nossa atenção dezenas, ou até centenas, de vezes por dia.

Não, o telemóvel não destrói um casamento por si só.

Mas pode ir roubando, lentamente, aquilo que mantém um casal vivo: a conversa, o toque, o olhar, o interesse, a disponibilidade e a sensação de que, mesmo no meio de um dia caótico, continuamos a escolher-nos um ao outro.

Talvez o desafio dos casais de hoje já não seja apenas proteger a relação de uma terceira pessoa.

Talvez seja proteger a relação de tudo aquilo que, todos os dias, lhes rouba tempo sem que deem por isso.

Porque o amor raramente acaba de um dia para o outro. Na maioria das vezes, vai-se perdendo em pequenos momentos de ausência. E, ironicamente, nunca estivemos tão ligados ao mundo... e tão desligados de quem está sentado ao nosso lado.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

Relacionados