"Sleepmaxing: quando até o descanso se transforma numa meta. Há uma nova tendência silenciosa a crescer nas redes sociais", por Vera de Melo
Não é sobre trabalhar mais. Não é sobre treinar mais. É sobre… dormir melhor.
- 1 mai, 10:26
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Chamam-lhe sleepmaxing.
À primeira vista, parece inofensivo. Até desejável.
Quem não quer acordar com mais energia, mais foco, mais clareza mental?
Mas quando olhamos com mais atenção, percebemos que não é apenas sobre sono.
É sobre controlo.
O sleepmaxing nasce de uma ideia muito alinhada com o tempo em que vivemos: a de que tudo pode, e deve, ser otimizado.
Durante anos, a produtividade ocupou o centro desta lógica.
Depois veio a alimentação, o exercício físico, a gestão emocional. Agora, até o sono passou a ser visto como algo que pode ser melhorado, afinado e medido ao detalhe.
Do ponto de vista da psicologia e da neurociência, a preocupação com o sono faz sentido. Dormir bem está profundamente ligado à regulação emocional, à capacidade de concentração e à forma como lidamos com o stress. A privação de sono aumenta a reactividade emocional, reduz a tolerância à frustração e fragiliza os nossos recursos internos. Cuidar do sono é, sem dúvida, cuidar da saúde mental.
O problema começa quando o cuidado se transforma em controlo excessivo.
O sleepmaxing inclui práticas como rotinas rígidas antes de deitar, monitorização constante através de aplicações ou dispositivos, uso frequente de suplementos e uma atenção quase permanente à “qualidade” do sono. Embora muitas destas estratégias tenham base científica quando usadas com equilíbrio, a forma como são integradas pode gerar um efeito paradoxal. Em vez de promover descanso, podem aumentar a vigilância e a pressão interna.
É neste ponto que surge um conceito importante na psicologia do sono: a ortossónia. Trata-se de uma preocupação excessiva em atingir um sono perfeito, muitas vezes alimentada por dados e métricas. A pessoa passa a avaliar cada noite como um sucesso ou um fracasso, criando uma relação de desempenho com algo que deveria ser espontâneo.
Este tipo de relação activa mecanismos de hiperalerta. A mente começa a antecipar, a analisar, a tentar garantir um resultado. E o corpo responde como faria perante qualquer outra forma de pressão: mantém-se em estado de vigilância. Ora, o sono exige exactamente o oposto. Para adormecer, o sistema nervoso precisa de segurança, previsibilidade e redução de estímulos.
Este paradoxo é bem conhecido na psicologia. Tal como acontece na ansiedade de desempenho, o foco excessivo no resultado interfere com os processos naturais necessários para o alcançar. Dormir não é uma tarefa que responda bem à exigência directa. Quanto mais tentamos forçar, mais nos afastamos daquilo que procuramos.
O sleepmaxing reflete também uma tendência cultural mais ampla: a internalização de padrões de optimização constantes.
Aos poucos, começamos a olhar para nós próprios como projectos em permanente melhoria. O problema é que, quando esta lógica invade o sono, perdemos um dos poucos espaços da vida que ainda funcionava fora da lógica de avaliação.
Do ponto de vista clínico, as abordagens mais eficazes para melhorar o sono não passam por acrescentar controlo, mas por o reduzir. Intervenções como a terapia cognitivo-comportamental para a insónia trabalham no sentido de flexibilizar expectativas, diminuir a preocupação com o sono e reconstruir a associação entre a cama e um estado de tranquilidade. O objectivo não é “garantir” o sono, mas permitir que ele aconteça.
Isto não significa ignorar hábitos importantes. A consistência de horários, a redução de estímulos antes de deitar e um ambiente confortável continuam a ser fundamentais. No entanto, a diferença está na forma como estes hábitos são vividos. Quando surgem como suporte, promovem regulação. Quando surgem como exigência, aumentam a tensão.
No fundo, o sono lembra-nos de algo essencial sobre o funcionamento humano. Nem tudo melhora com mais esforço. Há processos que dependem precisamente da capacidade de abrandar, de confiar e de não intervir em excesso.
Talvez a pergunta mais importante não seja "como posso dormir melhor?", mas sim "o que é que, no meu dia, me impede de abrandar o suficiente para que o sono aconteça?".
Porque o descanso não é uma meta.
É uma consequência de um sistema que se sente seguro.
E, no fundo, talvez o que mais nos custa não seja não dormir bem. É não conseguir parar. Não conseguir desligar. Não conseguir sentir que, por um momento, não precisamos de estar atentos a tudo.
O sono começa muito antes de nos deitarmos. Começa na forma como vivemos o dia, na pressão que acumulamos, no pouco espaço que damos ao corpo para respirar sem exigências.
E talvez dormir melhor não passe por fazer mais uma coisa certa.
Mas por começar, aos poucos, a criar momentos em que já não precisamos de estar sempre prontos.
