"Será que tenho um defeito? Porque é que não encontro o amor?", por Vera de Melo
Quando acreditamos que ninguém nos vai amar, começamos a interpretar tudo através dessa crença.
- 7 ago, 10:49
Há uma pergunta que muitas pessoas fazem em silêncio, normalmente à noite, depois de mais uma relação falhada, de mais um encontro que não deu em nada ou de mais um casamento para o qual foram sozinhas.
"Será que tenho algum defeito?"
Não perguntam porque querem uma resposta. Perguntam porque já começaram a acreditar nela.
E é precisamente aqui que mora um dos maiores perigos psicológicos da solidão: quando deixamos de ver a ausência de uma relação como uma circunstância da vida e passamos a vê-la como uma prova do nosso valor.
A verdade é que o cérebro humano detesta a incerteza. Quando algo importante não acontece durante muito tempo, procura uma explicação. Se não encontro o amor, deve haver uma razão. E, quase sempre, a explicação mais rápida é também a mais cruel: "o problema sou eu."
Mas a psicologia diz-nos exatamente o contrário.
Encontrar o amor nunca depende apenas de quem somos. Depende do momento de vida, das oportunidades, das experiências anteriores, dos modelos de relação que aprendemos em casa, da forma como escolhemos os parceiros, da capacidade que temos para confiar e até do acaso. Sim, o acaso também faz parte da ciência das relações.
No entanto, quando acumulamos desilusões, instala-se aquilo a que chamamos de esquema de defeito ou vergonha, um conceito amplamente estudado na Psicologia. A pessoa passa a acreditar que existe algo de fundamentalmente errado consigo. Não é apenas uma insegurança. É uma convicção profunda de que, se os outros a conhecerem verdadeiramente, acabarão por se afastar.
E quando acreditamos nisto, começamos, sem nos apercebermos, a comportar-nos como se fosse verdade.
Há quem faça tudo para agradar, esquecendo-se de si próprio.
Há quem aceite migalhas de atenção porque acredita que não merece mais.
Há quem esconda partes da sua personalidade para parecer mais interessante.
E há quem nem sequer tente conhecer alguém, convencido de que será rejeitado mais cedo ou mais tarde.
É aqui que nasce um paradoxo fascinante da psicologia: muitas vezes não é a falta de amor que destrói a autoestima. É a baixa autoestima que começa a condicionar a forma como vivemos o amor.
Outro aspeto importante é a vinculação emocional. As primeiras relações da nossa vida ensinam ao cérebro se o amor é um lugar seguro ou um lugar de sofrimento.
Quem cresceu a sentir que precisava de conquistar constantemente a atenção dos outros pode tornar-se excessivamente dependente numa relação.
Quem aprendeu que mostrar emoções era perigoso pode desejar profundamente amar alguém, mas afastar-se sempre que a intimidade aumenta.
Nenhum destes padrões significa que exista um defeito. Significa apenas que existem histórias emocionais por compreender.
Vivemos ainda numa época particularmente difícil para quem procura uma relação. Nunca foi tão fácil conhecer pessoas e, paradoxalmente, nunca tantas pessoas se sentiram sozinhas.
As aplicações de encontros deram-nos milhares de opções, mas também criaram a ilusão de que existe sempre alguém melhor à distância de um dedo.
As redes sociais mostram pedidos de casamento, viagens românticas e fotografias perfeitas, mas escondem discussões, silêncios, incompatibilidades e sofrimento. O cérebro compara constantemente a nossa realidade com uma versão editada da vida dos outros e conclui, erradamente, que somos os únicos que ainda não encontraram o amor.
Existe ainda outro fenómeno psicológico muito estudado: o viés de confirmação.
Quando acreditamos que ninguém nos vai amar, começamos a interpretar tudo através dessa crença.
Uma mensagem sem resposta transforma-se numa rejeição.
Um encontro que não resulta passa a ser a prova definitiva de que nunca seremos escolhidos.
Cada experiência deixa de ser apenas uma experiência e transforma-se numa sentença.
Mas há uma pergunta que gosto de fazer em consulta.
Se uma pessoa extraordinária ainda não encontrou o amor, isso significa que tem um defeito?
Quase todos respondem que não.
Então porque aplicam essa regra apenas a si próprios?
O amor nunca foi um prémio para pessoas perfeitas.
As relações mais felizes não são construídas por quem nunca teve medos, inseguranças ou cicatrizes. São construídas por pessoas que aprenderam a olhar para si com compaixão, que conseguem comunicar de forma autêntica e que percebem que amar não é encontrar alguém que preencha todos os vazios, mas alguém com quem seja possível crescer.
Se sentes que esta dúvida faz parte da tua vida, experimenta fazer diferente.
Em vez de perguntares "o que tenho de errado?", pergunta "que história estou a contar sobre mim?".
Observa se estás a repetir sempre o mesmo padrão de escolha.
Aprende a distinguir solidão de falta de valor.
Investe na tua vida, nas tuas amizades, nos teus interesses e no teu bem-estar, não para atraíres alguém, mas porque mereces uma vida plena, independentemente do teu estado civil.
E, se perceberes que carregas feridas antigas de rejeição, abandono ou desvalorização, procura ajuda psicológica. Não porque tenhas um defeito, mas porque ninguém devia carregar sozinho o peso de acreditar que não é suficiente.
Talvez o amor ainda não tenha chegado. Mas isso não significa que haja alguma coisa errada contigo. Significa apenas que a tua história ainda está a ser escrita.
Não deixes que a ausência de alguém te convença da ausência de valor. Porque o maior erro não é demorar a encontrar o amor. É passares anos à procura de uma explicação para algo que nunca foi um defeito.
Há pessoas que encontram o amor aos 20, outras aos 40, outras aos 60. Mas todas mereciam ter aprendido muito antes uma verdade simples: o teu valor nunca esteve nas mãos de quem ficou, de quem partiu ou de quem nunca chegou. O teu valor sempre esteve em ti. E esse nunca precisou de ser escolhido para existir.
Porque, no dia em que deixares de perguntar "Será que tenho um defeito?", vais finalmente abrir espaço para fazer a única pergunta que realmente importa: "Será que já aprendi a reconhecer o meu próprio valor?". E é curioso... muitas vezes é exatamente nesse momento que o amor deixa de ser uma necessidade desesperada e passa a ser um encontro entre duas pessoas que já aprenderam a escolher-se a si próprias
