"Seguir pessoas atraentes no Instagram é uma ameaça à relação?", por psicóloga Vera de Melo
Se o teu namorado segue mulheres muito atraentes no Instagram, isso significa alguma coisa?
- 2 set, 13:02
É uma pergunta que hoje aparece em muitos casais. Porque antes era preciso encontrar alguém na rua, numa festa, num bar, no trabalho. Agora basta abrir o telemóvel.
Há sempre alguém mais bonito. Mais jovem. Mais musculado. Mais sensual. Mais disponível. E, pior ainda, alguém que pode aparecer todos os dias no ecrã da pessoa que amamos.
É por isso que, para algumas pessoas, aquele simples "seguir" deixou de ser uma coisa banal. Passou a ser uma ameaça.
"Porque é que ele precisa de seguir tantas mulheres?"; "Porque é que ela segue homens que publicam fotografias sem camisola?"; "Se não tem interesse, porque é que segue?" E estas perguntas não são necessariamente ciúmes irracionais. Mas também não significam automaticamente que exista uma ameaça à relação.
Porque o problema não está apenas em quem a pessoa segue. Está naquilo que esse comportamento significa dentro daquela relação.
Seguir uma pessoa atraente não significa necessariamente querer alguma coisa com ela. Podemos reconhecer que alguém é bonito sem querer ter uma relação com essa pessoa. A atração estética faz parte da experiência humana e não desaparece porque entrámos numa relação.
Estar comprometido não significa ficar cego. Mas existe uma diferença enorme entre reconhecer a beleza de alguém e procurar constantemente estímulos sexualizados fora da relação. E é nessa diferença que começam as zonas cinzentas.
Porque uma coisa é seguir algumas pessoas que considera atraentes. Outra é passar horas a consumir conteúdo sexualizado, procurar ativamente determinados perfis, interagir de forma insistente, enviar mensagens, responder a stories com determinadas intenções ou esconder esse comportamento do parceiro.
O contexto muda tudo. E a psicologia ajuda-nos a perceber porquê.
As redes sociais foram desenhadas para captar atenção. O conteúdo novo, visualmente apelativo e emocionalmente estimulante tem maior probabilidade de nos prender.
O sistema de recompensa responde à novidade e à antecipação, e o scroll infinito permite uma sucessão quase inesgotável de estímulos.
Ou seja, não é preciso existir uma intenção consciente de trair para que alguém passe cada vez mais tempo a consumir esse tipo de conteúdo.
Mas isso não significa que o comportamento seja irrelevante para a relação. Porque aquilo que fazemos repetidamente também comunica prioridades.
E aqui surge uma pergunta muito mais importante do que "ele segue mulheres bonitas?" ou "Como é que eu me sinto dentro desta relação por causa disso?"
Se não te incomoda, provavelmente não existe um problema. Se te incomoda e consegues falar sobre isso, existe uma oportunidade de criar um acordo.
Mas se te magoa, explicas porquê e a outra pessoa responde: "Estás louca"; "És insegura"; "É só Instagram"; "Não tens nada a ver com isso."
Então, talvez o problema já não seja o Instagram. Talvez seja a forma como o teu desconforto está a ser tratado.
Porque numa relação saudável podemos discordar sobre limites. O que não deveríamos precisar de fazer é humilhar o outro por ter sentimentos.
E aqui entramos numa questão muito importante: limites não são controlo. Dizer "não podes seguir ninguém atraente" é controlo. Dizer "quando passas horas a consumir este tipo de conteúdo e ainda interages com estas pessoas, eu sinto-me desrespeitada e preciso de perceber quais são os nossos limites" é comunicação.
A diferença está em tentar controlar o comportamento do outro ou explicar aquilo de que precisamos para nos sentirmos seguros na relação.
E, claro, também existe o outro lado. Há pessoas que transformam qualquer interação digital numa ameaça.
O parceiro segue uma mulher bonita e começa uma investigação. Quem é? Onde vive? Porque é que a segue? Quando começou? Deixou like? Comentou? Viu o story?
E, de repente, o Instagram transforma-se num tribunal permanente. Isto também pode destruir uma relação.
Porque quando a insegurança toma conta, nunca existe informação suficiente para acalmar. A pessoa deixa de procurar segurança na relação e começa a procurá-la no telemóvel do parceiro. E quanto mais verifica, mais coisas encontra. Não necessariamente porque exista alguma coisa errada. Mas porque está sempre à procura de alguma coisa errada. É o ciclo da vigilância. E quanto maior a vigilância, maior a ansiedade.
Por isso, também é importante perguntar: "O meu parceiro está realmente a ultrapassar um limite ou a minha insegurança está a transformar qualquer estímulo numa ameaça?" Não são a mesma coisa. E esta é talvez uma das partes mais difíceis.
Porque uma pessoa pode estar genuinamente insegura e, ao mesmo tempo, estar numa relação em que determinados comportamentos são realmente desrespeitosos. Uma coisa não invalida a outra.
Podemos ter feridas antigas e estar perante um comportamento actual que precisa de ser discutido.
É por isso que não gosto da ideia de simplesmente dizer: "Se tens ciúmes, trabalha a tua autoestima." Às vezes é preciso trabalhar a autoestima. Mas às vezes é preciso também olhar para o comportamento do parceiro.
Porque nem toda a insegurança é imaginária. E nem todo o desconforto é controlo. O verdadeiro problema começa quando o casal não consegue conversar sobre aquilo que considera aceitável.
Cada relação tem fronteiras diferentes. Para algumas pessoas, seguir modelos e influencers é completamente indiferente. Para outras, determinadas interações online são consideradas uma falta de respeito.
Nenhuma relação precisa de adoptar a mesma regra que outra. O importante é que as regras sejam conhecidas, discutidas e, sobretudo, recíprocas.
Porque há uma pergunta que costuma esclarecer muita coisa: "Se eu fizesse exactamente o mesmo, tu sentirias o mesmo?" Se a resposta for "não", talvez exista um problema de reciprocidade.
Se uma pessoa pode seguir, comentar e mandar mensagens, mas considera uma traição se o parceiro fizer o mesmo, existe uma questão para resolver.
E depois há uma fronteira ainda mais importante. A fronteira entre observar e procurar contacto. Seguir alguém é uma coisa. Procurar activamente atenção dessa pessoa é outra.
Um like ocasional não é necessariamente uma ameaça. Mas uma relação paralela construída através de mensagens privadas, flirt, elogios, segredos e interações constantes já pertence a outro território.
Porque a infidelidade não começa necessariamente quando existe sexo. Para alguns casais, começa muito antes. Começa quando existe uma intimidade que deveria estar protegida dentro da relação e passa a ser construída secretamente com outra pessoa.
Por isso, talvez o Instagram não seja o verdadeiro problema. O verdadeiro problema é a fronteira que cada casal estabelece entre liberdade e respeito. E essa fronteira precisa de ser conversada. Não fiscalizada. Não imposta. Não descoberta depois de uma discussão. Conversada.
Porque amar alguém não significa deixar de reparar noutras pessoas. Mas também não significa que tudo aquilo que sentimos vontade de fazer online tenha de ser feito. Ter liberdade numa relação não é fazer tudo o que nos apetece. É poder fazer escolhas sem precisar de esconder aquilo que fazemos.
E talvez seja esta a pergunta que vale mais do que todas as outras: "Se o meu parceiro visse exatamente como eu me comporto no Instagram, eu sentir-me-ia tranquilo?" Se a resposta for sim, provavelmente existe pouco a esconder. Se a resposta for não, talvez o problema não esteja apenas na pessoa que estamos a seguir. Talvez esteja naquilo que estamos a fazer depois de carregar em "seguir".
Porque uma relação não é ameaçada pela existência de pessoas atraentes no Instagram. É ameaçada quando desaparecem o respeito, a confiança, a transparência e a capacidade de conversar sobre aquilo que magoa.
No fundo, não precisamos de viver numa relação onde a pessoa que amamos nunca olha para mais ninguém. Precisamos de viver numa relação em que, mesmo podendo olhar para o mundo inteiro, sabemos onde escolhe ficar.
