"Sabias que talvez não vás aos festivais pela música?", por Vera de Melo
Há qualquer coisa de curioso nos festivais. Passamos meses a esperar por eles para depois passarmos três ou quatro dias a dormir pouco, andar quilómetros, estar rodeados de milhares de pessoas, gastar mais dinheiro do que tínhamos planeado e chegar a casa completamente exaustos. E, mesmo assim, no dia seguinte já estamos a dizer: "Para o ano quero voltar."
- 14 ago, 09:35
Se pensarmos bem, é estranho.
Porque não compramos apenas um bilhete para ouvir música. Compramos a expectativa de uma experiência. Compramos a possibilidade de sair, durante uns dias, da vida que conhecemos.
E talvez seja precisamente isso que nos prende tanto.
A vida adulta é feita de papéis. Somos profissionais, pais, companheiros, filhos, amigos. Temos horários, responsabilidades, preocupações, listas de coisas para fazer e uma cabeça que raramente se cala completamente.
Num festival, durante algumas horas, tudo isso fica suspenso.
Podemos dançar sem saber dançar. Cantar sem saber cantar. Vestir aquilo que nos apetece. Ficar até de madrugada. Rir com pessoas que nunca vimos. Abraçar alguém porque acabámos de cantar a mesma música. Saltar com milhares de desconhecidos como se, naquele momento, fizéssemos todos parte da mesma história.
E há uma explicação psicológica para isto.
O ser humano precisa de pertença. Precisa de sentir que faz parte de alguma coisa. E poucas experiências produzem uma sensação tão forte de ligação como estar no meio de milhares de pessoas a sentir exactamente a mesma emoção.
Quando começa aquela música que todos conhecem e o recinto inteiro canta ao mesmo tempo, não estamos apenas a ouvir uma canção.
Estamos a sincronizar-nos.
E essa experiência colectiva pode produzir uma sensação muito poderosa de proximidade, ligação e bem-estar.
Mas há outra coisa que me parece ainda mais interessante.
Nos festivais, permitimo-nos ser menos controlados.
E talvez isso seja uma das razões pelas quais nos sentimos tão felizes.
Passamos grande parte da vida a controlar o que dizemos, como aparecemos, aquilo que os outros pensam de nós. Num festival, existe uma espécie de autorização social para baixar a guarda.
Ninguém está preocupado com a qualidade da tua dança. Ninguém quer saber se cantas desafinado. Ninguém te pergunta porque estás a saltar daquela maneira.
Durante umas horas, não precisamos de ser perfeitos.
E talvez exista aqui uma pergunta que vale a pena fazer: quantas vezes, na nossa vida, nos permitimos simplesmente estar sem pensar tanto em como estamos a ser vistos?
É também por isso que os festivais podem ser emocionalmente tão intensos. A música ativa emoções, recupera memórias e associa-se a momentos específicos. Uma canção ouvida num festival pode ficar ligada ao cheiro daquele dia, às pessoas que estavam connosco, ao calor, à noite, à roupa que vestíamos, àquilo que aconteceu antes e depois.
É por isso que, anos mais tarde, basta ouvirmos aquela música para sermos transportados para lá.
Não sentimos apenas nostalgia da música.
Sentimos nostalgia de quem éramos naquele momento.
Mas existe um lado dos festivais de que também precisamos de falar.
A pressão para aproveitar.
Vivemos numa época em que até a felicidade parece ter de ser fotografada. Queremos o concerto certo, a fotografia certa, os amigos certos, o look certo e a sensação de que estamos a viver "o melhor verão de sempre".
E, às vezes, esquecemo-nos de uma coisa muito simples: não é obrigatório estar feliz o tempo todo só porque estamos num lugar divertido.
Podemos estar cansados. Podemos querer ir embora mais cedo. Podemos não gostar daquele concerto. Podemos ficar cinco minutos sentados sem fazer absolutamente nada.
Isso também é viver.
Talvez o problema não seja querermos divertir-nos demasiado. Talvez seja sentirmos que temos de provar que nos estamos a divertir.
E depois há o regresso.
Aquele momento em que o festival termina, guardamos a pulseira, voltamos para casa e, de repente, a vida parece demasiado silenciosa.
O despertador toca. O trabalho espera. As rotinas regressam. E podemos sentir uma espécie de vazio.
Não é necessariamente porque a nossa vida seja má.
É porque acabámos de viver alguns dias de enorme intensidade emocional.
E talvez seja precisamente aí que os festivais nos deixam uma das maiores aprendizagens.
Aquela versão de nós que dança, canta, ri, se liga aos outros e vive mais no presente não desaparece quando saímos do recinto.
Ela continua cá.
Talvez não precisemos de viver permanentemente num festival.
Mas talvez precisemos de levar alguma coisa dele para a nossa vida.
Mais música. Mais amigos. Mais espontaneidade. Mais momentos sem telemóvel. Mais abraços. Mais capacidade de estar no presente. Mais coragem para fazer coisas sem pensar constantemente no olhar dos outros.
Porque talvez não vás aos festivais apenas pela música.
Vais porque, durante algumas horas, consegues encontrar uma versão de ti que a rotina, às vezes, te faz esquecer.
E talvez seja essa a verdadeira razão pela qual, quando o último concerto acaba, já estejas a pensar no próximo.
