"Relações intermitentes: migalhas emocionais também viciam", por Vera de Melo
Há pessoas que não entram na nossa vida. Entram, saem, voltam a entrar, desaparecem outra vez… e deixam-nos sempre à espera da próxima vez.
- 25 jul, 12:32
Não é uma relação. É uma montanha-russa emocional. Hoje manda uma mensagem. Amanhã desaparece. Durante dias, silêncio. Depois regressa como se nada tivesse acontecido. E tu sentes o coração acelerar outra vez. Dizes a ti próprio que, desta vez, vai ser diferente.
Mas quase nunca é.
Na consulta, vejo muitas pessoas convencidas de que continuam presas porque amam demasiado.
Na maioria das vezes, não é só amor. É o cérebro. A psicologia explica este fenómeno através de um mecanismo chamado reforço intermitente. Quando uma recompensa aparece de forma imprevisível, tornamo-nos ainda mais persistentes. É exatamente o princípio que torna o jogo tão viciante. Nunca sabemos quando vamos ganhar e é precisamente essa incerteza que nos faz continuar.
Nas relações acontece o mesmo. Quando o carinho aparece apenas de vez em quando, o cérebro não desiste.
Espera. Acredita. Fantasia.
Porque basta uma mensagem depois de semanas de silêncio para fazer desaparecer, durante alguns minutos, toda a dor acumulada. O problema é que não nos apaixonamos apenas pela pessoa. Apaixonamo-nos pela esperança daquilo que ela poderá vir a ser. E há uma diferença enorme. Começamos a viver de pequenos gestos. Uma chamada já parece uma prova de amor. Um jantar transforma-se num sinal de compromisso. Uma semana tranquila faz-nos acreditar que "agora é que vai".
Entretanto, esquecemo-nos de olhar para a relação como um todo. Porque uma relação não se avalia pelos melhores dias. Avalia-se pela consistência. Pela forma como nos sentimos na maior parte do tempo. E a verdade é que muitas pessoas passam mais tempo ansiosas do que felizes. Mais tempo à espera do que acompanhadas. Mais tempo a tentar perceber o que fizeram de errado do que a sentirem-se amadas.
Mas há outra armadilha. Quando alguém nos dá muito pouco durante muito tempo, começamos a achar que esse pouco já é muito. É assim que as migalhas emocionais passam a parecer um banquete. Celebramos o mínimo. Desculpamos o injustificável. Aplaudimos comportamentos que deveriam ser o básico numa relação. E, sem dar por isso, baixamos a fasquia daquilo que acreditamos merecer.
Mas o amor não devia obrigar-te a adivinhar.
Não devia fazer-te olhar para o telemóvel vinte vezes por hora.
Não devia deixar-te eufórico numa segunda-feira e completamente destruído na quarta.
Isso não é segurança emocional. É sobrevivência emocional.
As relações saudáveis também têm conflitos. Também têm dias maus. Mas não vivem da dúvida permanente. Não te fazem sentir que tens de conquistar todos os dias um lugar na vida da outra pessoa. A pergunta que te desafio a responder não é: "Porque é que ele volta?" É outra. Porque é que tu continuas à espera?
A resposta raramente está relacionada com o outro. Está relacionada com as feridas que ainda não cicatrizaram, com o medo de ficar sozinho, com a necessidade de validação ou com a crença de que, se amares o suficiente, alguém acabará por mudar. Mas o amor não transforma a inconsistência em compromisso. Nem a esperança substitui a realidade. Porque quem gosta de ti pode falhar. Pode errar. Pode até precisar de espaço. Mas não te deixa permanentemente a viver entre a dúvida e a esperança.
Nunca confundas intensidade com amor. Há relações que parecem um fogo de artifício. Bonitas, intensas, cheias de luz. Mas duram segundos. O amor que vale a pena talvez se pareça mais com um farol. Não faz tanto barulho. Não deslumbra a cada minuto. Mas está lá. Mesmo quando a tempestade chega.
