Crónicas

"Quem estragou os pais?", por psicóloga Vera de Melo

Uma investigação psicológica (com vários suspeitos e nenhuma sentença definitiva).

  • 23 jul, 15:34

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Há uns anos bastava vestir os filhos, dar-lhes pequeno-almoço e mandá-los brincar para a rua.

Hoje... É preciso estimular o cérebro. Desenvolver a inteligência emocional. Limitar os ecrãs. Garantir alimentação equilibrada. Promover autonomia. Validar emoções. Ensinar mindfulness. Fazer atividades sensoriais. Ler vinte minutos por dia. Evitar açúcar. Controlar o tempo de exposição solar. Marcar consultas. Levar à natação. Ao inglês. À música. Ao futebol.  À terapia da fala. Ao dentista. À festa de aniversário. E, no fim do dia, ainda há um especialista qualquer no Instagram a explicar que fizeste tudo mal.

Então decidi investigar. Quem estragou os pais?

Depois de mais de duas décadas a ouvir famílias em consulta, encontrei vários suspeitos. E as provas são... preocupantes.

 

Suspeito n.º 1: A culpa

Este nunca dorme. Quando trabalhas muito... Sentes culpa. Quando trabalhas pouco... Também. Se deixas o teu filho chorar... Culpa. Se lhe dás colo... Também. Se colocas desenhos animados para conseguires tomar banho...
Culpa. Se não colocas... Culpa porque não conseguiste fazer o jantar.

A culpa tornou-se uma companhia permanente. Mas há uma diferença importante. A culpa ajuda-nos quando nos faz reparar um erro. Quando aparece todos os dias, transforma-se apenas em sofrimento.

 

Suspeito n.º 2: As redes sociais

Abres o telemóvel. Uma mãe fez panquecas em forma de dinossauro. Outra organizou uma atividade Montessori com materiais reciclados. Outra fez uma festa de aniversário digna de Hollywood. Outra tem uma casa impecável. Outra corre cinco quilómetros às seis da manhã. Outra parece nunca perder a paciência. E tu... Ainda tens um cesto de roupa por dobrar.

Comparar a tua vida inteira com os melhores quinze segundos da vida dos outros nunca foi justo. Nem nunca será. Lembra-te disso!

 

Suspeito n.º 3: O pai e a mãe perfeitos

Eles existem. Pelo menos... na internet. Nunca gritam. Nunca se irritam. Nunca levantam a voz. Nunca oferecem um gelado antes do almoço. Nunca se esquecem da autorização da escola. Na vida real? Não conheço nenhum. A investigação é clara.

As crianças não precisam de pais perfeitos. Precisam de adultos emocionalmente disponíveis, suficientemente bons e capazes de reparar quando erram. Donald Winnicott chamou-lhes precisamente isso: Pais suficientemente bons. Não perfeitos. Suficientemente bons.

 

Suspeito n.º 4: O especialista de café

Este aparece sem ser convidado. "No meu tempo não havia isso." "Estás a dar-lhe demasiada atenção." "Isso resolve-se com uma palmada." "Esse menino manda em ti."

Curiosamente... Nunca está presente quando a birra acontece. Mas sabe sempre exatamente o que devias fazer.

 

Suspeito n.º 5: O cronómetro

Há uma corrida invisível. Já fala? Já anda? Já lê? Já dorme sozinho? Já largou a fralda? Já sabe inglês? Já toca piano? Vivemos obcecados com o "já".

Esquecemo-nos do mais importante. Cada criança tem o seu ritmo. E o desenvolvimento não é uma competição.

 

Suspeito n.º 6: O excesso de informação

Nunca soubemos tanto sobre parentalidade. E, paradoxalmente... nunca estivemos tão inseguros. Lemos livros. Ouvimos podcasts. Seguimos especialistas. Vemos vídeos. Guardamos publicações.

No fim... cada especialista diz uma coisa diferente. O cérebro humano não lida bem com excesso de informação. Quando existem demasiadas respostas possíveis, aumenta a ansiedade e diminui a confiança nas próprias decisões.

 

Suspeito n.º 7: A agenda

Há crianças que têm dias mais preenchidos do que muitos adultos. Escola. Atividades. Explicações. Treinos. Música. Inglês. E, pelo meio... Quase não sobra tempo para brincar. Brincar não é perder tempo.

É uma das formas mais importantes de aprender. A brincar, uma criança desenvolve criatividade, linguagem, autorregulação, competências sociais e capacidade para resolver problemas.

Brincar é trabalho. Só que as crianças ainda têm a sorte de lhe chamar diversão.

 

Suspeito n.º 8: O medo de falhar

Talvez este seja o mais silencioso de todos. Os pais de hoje não têm medo apenas de errar. Têm medo de estragar os filhos.

Como se uma discussão, um "não", um dia mau ou um momento de cansaço fosse suficiente para destruir uma infância. Não é.

As crianças não precisam de pais que nunca falhem. Precisam de pais que lhes mostrem como se repara um erro. É assim que aprendem empatia. Responsabilidade. Humildade.

E o principal suspeito... Depois de analisar todas as provas... Descobri que ninguém estragou os pais.

Estragámos a ideia de que era permitido ser humano. Convencemos mães e pais de que tinham de acertar sempre. De estar presentes sempre. De sorrir sempre. De ter paciência sempre. Mas ninguém vive assim.

A parentalidade nunca foi uma prova para tirar vinte valores. É uma relação. E as relações constroem-se com amor. Com presença. Com reparação. Com dias bons. E também com dias difíceis. Talvez os filhos nunca tenham precisado de pais extraordinários. Talvez só tenham precisado de alguém que estivesse lá. Mesmo cansado. Mesmo imperfeito. Mesmo sem saber sempre qual era a resposta certa.

A conclusão desta investigação? Os pais não estão estragados. Estão exaustos. Estão sobrecarregados. Estão a tentar educar filhos felizes numa época que lhes exige serem psicólogos, professores, nutricionistas, treinadores, motoristas, gestores de agenda, cozinheiros, animadores, especialistas em sono e, de preferência, tudo isto com um sorriso.

Talvez seja altura de lhes devolvermos uma coisa simples: permissão para falhar.

Porque uma infância feliz nunca precisou de pais perfeitos. Precisou apenas de pais que, mesmo nos dias em que achavam que estavam a falhar, nunca desistiram de amar. E, curiosamente, é isso que os filhos costumam recordar quando crescem.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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