"Quem ama não adivinha: o perigo de esperarmos que o outro leia a nossa mente", por Vera de Melo
"Se ele me amasse, sabia." É uma das frases que mais destroem relações.
- 26 jul, 13:58
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É dita em silêncio, muitas vezes sem que o outro a ouça. Mas basta esta crença instalar-se para começarmos a acumular desilusões. Esperamos que a outra pessoa perceba que estamos magoados sem dizermos uma palavra. Que repare que tivemos um dia difícil apenas pelo tom da nossa voz. Que saiba exatamente do que precisamos, quando precisamos e da forma como precisamos.
Quando isso não acontece, concluímos que não nos conhece. Ou pior: que não nos ama.
Mas será mesmo assim?
A psicologia mostra-nos que uma das maiores armadilhas das relações é aquilo a que chamamos ilusão de transparência. Tendemos a acreditar que aquilo que sentimos é muito mais evidente para os outros do que realmente é. Como nós sabemos que estamos tristes, zangados ou desiludidos, partimos do princípio de que quem nos ama também o deveria perceber.
Só que não percebe. Não porque não ame. Porque não consegue ler pensamentos.
Cada pessoa interpreta o mundo através da sua própria história, das suas experiências e da forma como aprendeu a comunicar. Aquilo que para ti é um sinal evidente de sofrimento, para o outro pode parecer apenas cansaço. Aquilo que para ti é uma necessidade de colo, para o outro pode parecer vontade de estar sozinho. E é aqui que começam muitos conflitos. Um fecha-se à espera que o outro pergunte o que se passa. O outro acredita que está a respeitar o silêncio. Os dois sentem-se incompreendidos. Os dois acreditam que o problema é falta de amor.
Na verdade, o problema é falta de comunicação.
Há casais que passam anos presos neste jogo. Um espera. O outro falha. O primeiro afasta-se. O segundo não percebe porquê. E, sem dar por isso, começam a discutir por causa da loiça, das mensagens ou da roupa espalhada pela casa, quando a verdadeira discussão nunca foi sobre isso.
Foi sobre a necessidade de se sentirem vistos. Existe uma ideia muito romantizada de que o amor verdadeiro dispensa palavras.
Não dispensa. O amor saudável comunica. Pergunta. Explica. Esclarece. Diz "preciso de ti". Diz "hoje não estou bem". Diz "quando fizeste isto, magoou-me". Porque falar daquilo que sentimos não torna o amor menos espontâneo. Torna-o mais verdadeiro. Esperar que alguém descubra sozinho as nossas necessidades é entregar-lhe um mapa sem legendas e ficar zangado porque não encontrou o caminho. Talvez a maturidade de uma relação não esteja na capacidade de adivinhar.
Esteja na coragem de dizer. Porque o silêncio pode proteger-nos da rejeição durante alguns minutos.
Mas a comunicação é aquilo que protege o amor durante muitos anos.
