Crónicas

"Quase ninguém fala disto: homens também têm depressão pós parto", por Vera de Melo

Durante muito tempo, a chegada de um bebé foi contada como uma história centrada na mãe. E com razão. O corpo transforma-se, as hormonas oscilam, a exigência emocional é imensa. Mas há uma parte desta narrativa que ficou demasiado tempo em silêncio. O que acontece dentro de um homem quando nasce um filho.

Psicóloga Clínica
  • 6 mai, 20:45
Pai bebé

A depressão pós parto não é exclusiva das mulheres. Também existe no masculino. E não é assim tão rara quanto se pensa. Estudos indicam que cerca de 1 em cada 10 pais desenvolve sintomas depressivos no primeiro ano de vida do bebé. E este número pode aumentar quando a parceira também está em sofrimento. Ou seja, não estamos a falar de exceções. Estamos a falar de algo que acontece, mas que quase não é nomeado.

A transição para a paternidade é uma das maiores reorganizações psicológicas da vida adulta. Não se trata apenas de aprender a cuidar de um bebé. Trata-se de reconstruir a própria identidade. De repente, há um novo papel, novas responsabilidades, novas expectativas internas e externas. E muitas vezes, nenhum espaço para processar tudo isto emocionalmente.

Do ponto de vista psicológico, muitos homens foram educados para conter, para aguentar, para não mostrar fragilidade. Este condicionamento tem um custo. Quando o sofrimento aparece, raramente surge como tristeza visível. Surge disfarçado. Irritabilidade constante. Distância emocional. Silêncio. Mais horas fora de casa. Consumos que aliviam momentaneamente, mas agravam a longo prazo. Uma sensação difícil de explicar de estar desligado de tudo, inclusive do próprio bebé.

E depois há o cansaço. As noites interrompidas. A pressão financeira. A ideia, muitas vezes internalizada, de que agora é preciso ser ainda mais forte, ainda mais disponível, ainda mais estável. Este conjunto cria um cenário emocionalmente exigente onde o homem sente que não pode falhar, mas também não sabe bem como lidar com o que está a sentir.

A nível biológico, há também mudanças. Estudos mostram alterações nos níveis de testosterona, prolactina e cortisol nos pais após o nascimento do bebé, o que sugere que o corpo masculino também entra num processo de adaptação à parentalidade. Mas o maior impacto continua a acontecer no plano emocional e relacional.

Há ainda um ponto que raramente é dito com clareza. A relação de casal muda. E muda muito. O foco passa para o bebé, o tempo a dois diminui, a intimidade transforma-se. Alguns homens vivem isto como afastamento, mesmo que compreendam racionalmente o que está a acontecer. Esta distância, quando não é falada, amplifica o sentimento de solidão.

E depois há o impacto invisível. A saúde mental do pai influencia diretamente o desenvolvimento emocional do bebé. A forma como um pai se envolve, responde e se liga tem efeitos na vinculação e no bem-estar da criança. Quando há sofrimento não reconhecido, há uma maior probabilidade de surgirem dificuldades comportamentais e emocionais nos filhos. Ou seja, isto não é apenas sobre o homem. É sobre todo o sistema familiar.

Então porque é que quase não se fala disto? Porque ainda existe uma ideia muito enraizada de que o homem deve dar conta de tudo sem se queixar. A chamada masculinidade normativa continua a empurrar muitos homens para o silêncio emocional. E o problema do silêncio é simples. Não resolve. Só aprofunda.

Falar sobre depressão pós parto no masculino não tira espaço às mulheres. Expande a conversa. Torna-a mais real. Mais completa. Mais humana.

E há algo importante a guardar. Muitos homens não dizem “não estou bem”. Dizem através do comportamento. Afastam-se. Irritam-se. Calam-se. E é precisamente aí que é preciso saber ler.

Reconhecer este sofrimento não é fragilizar a figura paterna. É humanizá-la. E isso muda tudo.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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