Crónicas

"Quando uma tragédia nos obriga a olhar para aquilo de que ninguém gosta de falar", por Vera de Melo

A notícia da alegada morte de uma criança às mãos da madrasta chocou o país.

  • 18 jun, 21:10

E é natural que choque. Quando uma criança morre, sobretudo de forma violenta, há algo dentro de nós que se revolta. Porque as crianças representam vulnerabilidade, dependência e confiança. E porque acreditamos que os adultos existem para proteger.

Mas quando a emoção inicial abranda, surgem perguntas difíceis. Perguntas para as quais não existem respostas simples.

Como explicar uma tragédia destas às crianças?
Como apoiar colegas que perderam uma amiga?
Como ficará uma mãe que já tinha enfrentado problemas psicológicos e agora perde uma filha?
Porque existem madrastas e padrastos que estabelecem relações extraordinárias com os enteados, enquanto outros parecem viver essa relação com ressentimento?
E será possível que algumas pessoas sintam ciúmes dos filhos do companheiro?
São perguntas desconfortáveis. Mas ignorá-las não as faz desaparecer.

Como explicar a morte às crianças?
Muitas vezes, os adultos acreditam que proteger uma criança significa esconder-lhe a realidade.
A psicologia mostra-nos o contrário.

As crianças percebem quando algo grave aconteceu. Percebem os silêncios, as lágrimas, as conversas interrompidas e a tensão emocional à sua volta. Quando não recebem explicações, tendem a preencher os espaços vazios com a imaginação. E a imaginação de uma criança pode ser muito mais assustadora do que a verdade.
A explicação deve ser simples, clara e adequada à idade.
Sem detalhes violentos.
Sem mentiras.
Sem frases como "foi dormir" ou "foi fazer uma viagem", que podem gerar medos adicionais.
O mais importante não é ter as palavras perfeitas. É estar disponível para ouvir as perguntas que surgirem hoje, amanhã e daqui a várias semanas.
Porque o luto infantil não acontece numa única conversa.
 
O luto dos colegas
Enquanto os adultos acompanham as notícias, muitas crianças estão a tentar compreender porque a colega já não regressará à escola.
Para elas, a morte costuma ser a primeira grande experiência de perda.
Algumas irão chorar.
Outras parecerão indiferentes.
Algumas vão querer falar constantemente sobre o assunto.
Outras evitarão o tema.
Tudo isto pode ser normal.
As crianças não vivem o luto como os adultos. Entram e saem da dor. Num momento brincam. No momento seguinte lembram-se e choram.
É por isso que o apoio psicológico nas escolas é tão importante. Não para transformar todas as crianças em pacientes, mas para lhes oferecer um espaço seguro onde possam fazer perguntas, expressar emoções e compreender aquilo que estão a sentir.
 
E a mãe?
Quando uma tragédia destas acontece, é frequente surgir um julgamento silencioso sobre os pais.
Mas a realidade psicológica é muito mais complexa.

Se uma mãe enfrentou uma depressão após um divórcio, se precisou de internamento ou de apoio especializado, isso não significa que amasse menos a filha.
A doença psicológica não mede a capacidade de amar.
Mede apenas o sofrimento que uma pessoa estava a viver naquele momento.

Perder um filho é considerado por muitos especialistas um dos acontecimentos emocionalmente mais devastadores que um ser humano pode enfrentar.
Quando essa perda acontece de forma inesperada e violenta, o risco de luto traumático aumenta significativamente.
Nenhuma análise feita à distância consegue medir aquilo que esta mãe estará a sentir.
 
As madrastas não são as vilãs dos contos de fadas
Uma das consequências mais injustas destes casos é o risco de transformar todas as madrastas numa caricatura.
A figura da madrasta malvada acompanha-nos desde os contos infantis.
A madrasta da Branca de Neve.
A madrasta da Cinderela.
A mulher que chega para ocupar um lugar que não é dela.
Mas a realidade é muito diferente.
Existem madrastas e padrastos que criam, protegem, educam e amam crianças que não geraram.
Existem relações de enorme proximidade, respeito e afeto.
Reduzir todas estas famílias a um estereótipo seria tão injusto quanto perigoso.
Uma tragédia fala sobre pessoas específicas.
Não sobre categorias inteiras de pessoas.
 
É possível sentir ciúmes dos filhos do companheiro?
A resposta honesta é: sim.
E reconhecer isso não significa normalizá-lo.
Significa compreender a realidade humana.
Em algumas famílias reconstruídas, podem surgir sentimentos de competição por atenção, tempo, recursos ou afeto.
Algumas pessoas sentem-se excluídas.
Outras sentem que nunca serão prioridade.
Outras vivem com inseguranças profundas que acabam por ser projetadas na criança.
O problema não está no aparecimento ocasional destes sentimentos.
O problema começa quando a pessoa não os reconhece, não os trabalha e permite que se transformem em hostilidade, rejeição ou agressividade.
As emoções não são escolhas.
Os comportamentos são.
 
É normal não gostar dos enteados como dos filhos biológicos?
Esta é talvez uma das perguntas mais tabu.
E precisamente por isso merece uma resposta honesta.
O amor não funciona por decreto.
Nem todos os pais gostam dos filhos da mesma forma.
Nem todos os avós gostam dos netos da mesma forma.
Nem todos os irmãos sentem exatamente a mesma ligação entre si.
Por isso, não é realista exigir que um padrasto ou madrasta sinta automaticamente pelos enteados o mesmo que sente por um filho biológico.
O que é essencial não é a intensidade do amor.
É a qualidade do comportamento.
Uma criança não precisa de ser adorada por todos os adultos da sua vida.
Precisa de ser respeitada, protegida, valorizada e tratada com dignidade.
A maturidade emocional mede-se precisamente aí.
Na capacidade de cuidar mesmo quando os sentimentos não são perfeitos.
 
O que esta tragédia nos pode ensinar?
Talvez a principal lição seja esta: os sentimentos humanos são mais complexos do que gostaríamos.
Existem famílias extraordinárias formadas por laços biológicos.
E existem famílias extraordinárias construídas sem qualquer ligação de sangue.
Existem pais que falham.
Existem padrastos que salvam.
Existem mães que lutam diariamente contra o sofrimento psicológico para continuarem presentes.
E existem crianças que dependem de adultos emocionalmente disponíveis para crescerem em segurança.
Quando uma tragédia acontece, a tentação é procurar monstros.
Mas a prevenção raramente começa aí.
Começa muito antes.
Na saúde mental.
Na capacidade de pedir ajuda.
Na forma como gerimos ciúmes, ressentimentos e frustrações.
E na coragem de falar sobre aquilo que preferíamos fingir que não existe.
Porque ignorar uma emoção nunca a faz desaparecer.
Apenas a torna mais perigosa.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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