Crónicas

"Quando um jovem diz 'eu sou um animal': o que está realmente a acontecer?", por Vera de Melo

Nos últimos anos, começaram a surgir relatos de jovens que se identificam como animais, adotando comportamentos, sons ou até acessórios associados a cães, gatos, lobos ou outros animais. Em alguns casos, aparecem também pedidos polémicos, como o desejo de serem "atendidos por veterinários" em vez de médicos.

Psicóloga Clínica
  • 23 mai, 14:34
therians

Este tema tem gerado choque, ironia e indignação social, mas, do ponto de vista psicológico, merece sobretudo compreensão, reflexão e capacidade de distinguir fenómenos muito diferentes entre si.

Antes de mais, é importante perceber que a adolescência é uma fase profundamente marcada pela procura de identidade. O cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento, especialmente nas áreas ligadas ao autoconceito, pertença, regulação emocional e construção da identidade social. É precisamente nesta etapa que muitos jovens experimentam formas diferentes de expressão para perceber quem são, onde pertencem e como querem ser vistos.

Alguns destes jovens integram comunidades conhecidas como "therians" ou "otherkin", grupos onde as pessoas sentem uma ligação simbólica, espiritual ou identitária a determinados animais. Na maioria das situações, não existe uma crença delirante de que possuem biologicamente um corpo animal. O que existe é uma experiência subjetiva de identificação, pertença ou representação emocional. Para muitos, isto funciona como uma forma de expressão pessoal, semelhante a outras subculturas juvenis.

Do ponto de vista psicológico, há várias dimensões importantes a considerar.

Em primeiro lugar, a necessidade de pertença. Muitos adolescentes sentem-se deslocados, incompreendidos ou emocionalmente isolados. Encontrar uma comunidade onde são aceites sem julgamento pode gerar um enorme alívio psicológico. Quando um jovem sente mais conexão emocional com uma identidade animal do que com o grupo humano à sua volta, isso pode revelar dificuldades relacionais, baixa autoestima, experiências de exclusão ou até sofrimento emocional prévio.

Em segundo lugar, existe a dimensão simbólica. Os animais representam características psicológicas muito fortes. Um lobo pode simbolizar liberdade ou proteção. Um gato pode representar independência. Um cão pode transmitir lealdade e afeto incondicional. Em muitos casos, a identificação com um animal funciona como uma metáfora emocional daquilo que o jovem sente ou gostaria de ser.

Também é importante perceber o papel das redes sociais. Plataformas digitais amplificam comportamentos identitários porque oferecem visibilidade, validação e comunidade. Quanto mais um conteúdo gera choque ou curiosidade, mais atenção recebe. Alguns jovens acabam por reforçar determinadas expressões identitárias porque finalmente sentem que são vistos, reconhecidos ou valorizados.

Mas há um ponto essencial: nem tudo deve ser automaticamente validado sem reflexão clínica. A psicologia não deve ridicularizar nem humilhar estes jovens, mas também não deve ignorar possíveis sinais de sofrimento psicológico. Em alguns casos, esta identificação pode coexistir com ansiedade, depressão, trauma, dificuldades sociais, perturbações do neurodesenvolvimento ou grande fragilidade emocional. O foco clínico não deve ser “corrigir” a identidade do jovem à força, mas compreender o significado psicológico daquela experiência.

Quando este fenómeno aparece em adultos, a leitura psicológica pode tornar-se mais complexa. Se, por um lado, pode continuar a representar uma forma simbólica de expressão identitária ou pertença comunitária, por outro, torna-se importante avaliar até que ponto existe rigidez da crença, afastamento da realidade, sofrimento emocional significativo ou impacto no funcionamento social e profissional. A maturidade psicológica esperada na vida adulta implica, normalmente, uma maior integração da identidade e uma diferenciação mais sólida entre fantasia, simbolismo e realidade concreta. Por isso, quando a identificação animal ocupa um espaço central e persistente na vida adulta, pode ser relevante explorar clinicamente o que está a ser procurado, evitado ou compensado através dessa identidade.

Quanto à ideia de querer ser atendido por veterinários, importa fazer uma distinção clara. Muitas vezes, estas afirmações surgem em contexto performativo, humorístico, provocatório ou de pertença grupal online. Noutras situações, podem representar uma dificuldade mais profunda na relação com o próprio corpo, identidade ou realidade social. É precisamente aqui que entra a importância da escuta clínica cuidadosa, sem ridicularização mas também sem romantização acrítica.

A grande questão psicológica talvez seja esta: o que leva um jovem a sentir-se mais confortável numa identidade animal do que na experiência de ser humano entre outros humanos?

Por trás do comportamento visível, existe quase sempre uma necessidade emocional invisível. E é aí que a psicologia deve olhar primeiro.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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