Crónicas

"Quando um filho mata a mãe: o que pode estar por trás de uma violência que parece impossível", por Vera de Melo

Uma mulher é encontrada morta dentro de casa. O principal suspeito tem 15 anos. É seu filho. Perante uma notícia assim, há uma pergunta que surge quase imediatamente: como é possível um filho matar a própria mãe?

  • 14 ago, 16:42

A psicologia obriga-nos a fazer uma pausa antes de procurar uma resposta simples. Porque um homicídio não nasce, regra geral, de uma única causa. E, sobretudo, porque não podemos transformar uma notícia num diagnóstico. Sem conhecer a história daquela família, o contexto, a relação entre mãe e filho, o que aconteceu antes do crime e os dados da investigação, qualquer tentativa de explicar aquele caso concreto seria apenas especulação.

Mas podemos falar sobre aquilo que a ciência psicológica sabe sobre violência e sobre o que pode acontecer quando determinados factores de risco se acumulam.

A violência extrema não aparece necessariamente de repente. Muitas vezes existe uma história anterior de conflito, agressividade, controlo, ameaças, dificuldades de regulação emocional, exposição à violência, consumo de substâncias ou outros factores de vulnerabilidade. A investigação mostra precisamente que a violência resulta da interacção de factores individuais, familiares, relacionais e sociais, e não de uma única característica da pessoa.

E há uma questão particularmente importante quando falamos de um adolescente: 15 anos não é 15 anos de um adulto em miniatura.

O cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento, sobretudo nas áreas envolvidas no controlo dos impulsos, na avaliação das consequências, na tomada de decisões e na regulação emocional. Isso não significa que um adolescente não saiba distinguir o certo do errado, nem diminui a gravidade de um homicídio. Significa que a compreensão psicológica de um comportamento extremo exige olhar também para o desenvolvimento, para a capacidade de autorregulação e para o contexto em que aquele jovem cresceu.

Uma explosão de violência pode envolver uma combinação particularmente perigosa de emoções intensas, impulsividade, dificuldade em resolver conflitos, pensamentos rígidos e incapacidade de encontrar alternativas não violentas. Alguns destes factores são reconhecidos na investigação sobre violência, embora nenhum deles, isoladamente, permita prever que alguém irá cometer um homicídio.

E há outra coisa que precisamos de aprender a reconhecer: a violência raramente começa com um homicídio.

Pode começar muito antes. Numa ameaça que é desvalorizada. Num comportamento de controlo que é confundido com preocupação. Numa agressão que é desculpabilizada. Numa perseguição que é chamada de amor. Num ambiente familiar onde a violência se torna tão habitual que deixa de provocar surpresa.

No contexto da violência entre parceiros, por exemplo, a investigação identifica como sinais de risco particularmente relevantes as ameaças de morte, ameaças com armas, estrangulamento, perseguição, comportamentos de controlo e violência física anterior.

Isto é fundamental porque, quando acontece uma tragédia, existe uma tendência para olhar para o último acontecimento e esquecer tudo aquilo que poderá ter acontecido antes.

Também é perigoso procurar uma explicação exclusivamente na saúde mental. Nem uma perturbação psicológica transforma alguém automaticamente num agressor, nem um homicídio pode ser explicado simplesmente dizendo que "tinha problemas psicológicos". A violência é muito mais complexa do que isso. A própria Organização Mundial da Saúde salienta que os factores associados à violência actuam em diferentes níveis, desde o indivíduo e a família até à comunidade e à sociedade.

Talvez a pergunta mais difícil não seja apenas "como é que um filho conseguiu matar a mãe?".

Talvez devêssemos perguntar: o que aconteceu antes para que chegássemos a este momento?

Que sinais existiam? Que comportamentos foram vistos? Que conflitos foram normalizados? Que sofrimento não foi identificado? Que pedido de ajuda não foi ouvido? Que agressividade foi considerada apenas uma fase? E que adultos à volta daquela criança perceberam, ou não perceberam, que alguma coisa estava a mudar?

Não sabemos se estas perguntas têm alguma relação com o caso noticiado. E é precisamente por isso que não devemos inventar respostas.

Mas sabemos uma coisa: prevenir violência não significa esperar pelo momento em que alguém se torna perigoso. Significa aprender a reconhecer sofrimento, agressividade persistente, ameaças, violência, controlo, exposição a violência familiar e alterações comportamentais importantes antes de a situação atingir uma dimensão irreversível.

Uma casa deveria ser o lugar onde uma criança aprende que pode sentir raiva sem magoar. Que pode estar frustrada sem destruir. Que pode discordar sem ameaçar. Que pode pedir ajuda sem vergonha.

E quando isso não acontece, o silêncio pode ser muito mais perigoso do que imaginamos.

Porque por detrás de uma notícia brutal pode existir uma história que começou muito antes da notícia.

E a psicologia não está aqui para justificar o crime.

Está aqui para tentar compreender como é que chegámos até ele e, sobretudo, como podemos evitar que outras famílias cheguem ao mesmo lugar.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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