Crónicas

"Quando começámos a ter vergonha de ser humanos?", por Vera de Melo

Na gala da TVI usei óculos. E, de repente, isso tornou-se assunto.

Psicóloga Clínica
  • 24 fev, 16:41
Vera de Melo - Gala 33.º Aniversário da TVI
Vera de Melo - Gala 33.º Aniversário da TVI

Houve quem dissesse, com aquele tom meio inocente, meio crítico, que talvez devesse ter usado lentes de contacto. Que ficava "mais elegante". Que era "uma ocasião especial". Que, numa gala, certos detalhes "pedem" outro cuidado.

E eu fiquei a pensar.
Se eu vejo mal, porque é que tenho de fingir que vejo bem?

Repara no que está implícito aqui. Não estamos a falar de moda. Estamos a falar de visibilidade. De performance. De uma expectativa silenciosa de que, quando o palco acende, devemos apagar tudo o que denuncia vulnerabilidade.

Os óculos são só o símbolo. A questão é muito mais funda.
Vivemos numa cultura que idolatra a imagem sem falhas. Onde fragilidade é confundida com fraqueza. Onde se sugere, subtilmente, que devemos apresentar a nossa melhor versão… mas apenas se essa versão couber numa fotografia sem "imperfeições".

Psicologicamente, isto tem um custo. Quando aprendemos que certos traços nossos são "menos desejáveis", começamos a escondê-los. E cada vez que escondemos uma parte de nós, criamos uma pequena fissura na nossa identidade. Uma distância entre quem somos e quem mostramos ser.

É aqui que nasce a exaustão emocional.

Não é cansativo usar óculos. É cansativo sentir que temos de justificar o facto de os usar. 
Há uma diferença enorme entre cuidar da imagem e editar a identidade. Cuidar é escolher. Editar é apagar.
E eu não quero apagar partes de mim para caber numa expectativa estética.

Há uma narrativa muito subtil que nos ensina que fragilidade deve ser resolvida em privado e que, em público, devemos apresentar apenas competência, firmeza, beleza, segurança. Como se a humanidade fosse algo a esconder atrás de filtros invisíveis.

Mas deixa-me dizer-te uma coisa: assumir fragilidades é um ato de maturidade emocional.

Quando eu uso óculos, não estou a fazer uma declaração de estilo. Estou a dizer: "Eu vejo mal. E está tudo bem."
E talvez o que incomode não sejam os óculos. Talvez incomode o facto de alguém não sentir necessidade de esconder aquilo que poderia esconder.

A autenticidade é desconfortável para quem vive preso à performance.
E isto aplica-se a tudo.

A quem esconde a ansiedade para parecer forte. A quem disfarça o cansaço para parecer competente. A quem engole lágrimas para parecer resiliente. A quem usa lentes de contacto emocionais para que ninguém perceba que a visão falha.

A questão nunca foi sobre estética. É sobre permissão.

Quem é que decidiu que só podemos mostrar o que é "bonito"? Quem é que decidiu que fragilidade diminui valor?
Na psicologia, sabemos que a integração é um dos pilares da saúde emocional. Integrar é reconhecer todas as partes, as que brilham e as que tremem, sem expulsar nenhuma da narrativa.

Quando escondemos fragilidades, estamos a enviar uma mensagem interna perigosa: "Há algo em mim que não merece ser visto."
E essa mensagem, repetida vezes suficientes, transforma-se em vergonha.

A vergonha prospera no segredo. A autenticidade dissolve-a.

Usar óculos numa gala pode parecer irrelevante. Mas simbolicamente, não é.
É escolher não negociar a própria identidade para cumprir uma expectativa externa. É dizer: "Eu não preciso de ser editada para ser suficiente." É lembrar que elegância não é ausência de falhas; é coerência entre o que sou e o que mostro.

Há uma força muito particular em quem assume fragilidades sem dramatização. Não é exibicionismo. Não é rebeldia. É tranquilidade interna.
É saber que não precisamos de esconder que vemos mal, que sentimos demais, que às vezes vacilamos.
Porque maturidade não é não ter fragilidades. É não viver refém delas. E, sobretudo, não viver a escondê-las.

Se eu vejo mal, vejo mal.
E isso não diminui a minha competência. Não diminui a minha presença. Não diminui a minha beleza. Não diminui a minha voz.

Talvez o verdadeiro luxo seja este: aparecer como somos.
Sem lentes que disfarcem. Sem filtros que editem. Sem medo de que alguém confunda humanidade com fraqueza.
Os óculos ficaram. E eu também.
E talvez seja esse o ponto.
Não precisamos de esconder quem somos para merecer estar onde estamos.

A verdadeira elegância começa quando deixamos de pedir desculpa por existir exatamente como somos.
Pensa nisso!

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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