Crónicas

"Por que é que algumas crianças desejam outra mãe?", por psicóloga Vera de Melo

"Eu queria que a avó fosse a minha mãe"; "Queria que a educadora fosse a minha mãe"; "Gosto mais da tia. Queria viver com ela." Há frases que conseguem atingir um lugar muito sensível nos pais. Porque, quando uma criança diz isto, é fácil ouvir outra coisa: "Não gosto de ti."

  • 27 ago, 12:21

Mas será mesmo isso que ela está a dizer? Na maioria das vezes, não. Uma criança pode desejar, imaginar ou dizer que gostaria de ter outra mãe sem estar a rejeitar a mãe que tem. E compreender isto é fundamental para não transformar uma frase infantil numa ferida familiar.

As crianças pensam de forma muito diferente dos adultos. O seu pensamento é mais concreto, mais emocional e, sobretudo, ainda está a desenvolver a capacidade de compreender relações complexas e ambivalentes.

Quando uma criança diz "queria que a avó fosse a minha mãe", pode estar a dizer, na verdade: "Gosto muito da avó"; "Com a avó sinto-me muito bem"; "A avó brinca comigo"; "A avó deixa-me fazer coisas que tu não deixas"; "Queria ter algumas coisas que tenho com a avó todos os dias." Ou até: "Estou zangada contigo e não sei explicar isso de outra maneira."

É uma diferença enorme. A criança pode estar a escolher uma característica, não uma pessoa. Imagine uma mãe que estabelece regras, diz "não", impõe horários, pede trabalhos de casa, limita os ecrãs e chama a atenção quando é necessário. E imagine uma avó que aparece para brincar, fazer bolachas, dar colo e passar uma tarde divertida. A criança pode olhar para aquela relação e pensar: "Queria que fosse sempre assim." Não está necessariamente a fazer uma avaliação global da maternidade. Está a comparar experiências. É como se dissesse: "Gosto muito de como me sinto quando estou com esta pessoa." E isso é muito diferente de "não gosto da minha mãe".

Às vezes, a criança procura outra figura quando está zangada. As crianças ainda estão a aprender a lidar com a frustração. Quando a mãe diz "não podes"; "agora é hora de dormir" ou "tens de desligar o tablet", pode surgir uma resposta emocional intensa: "Queria que a tia fosse a minha mãe!"

Nesse momento, discutir, responder "então vai viver com ela" ou dizer "depois de tudo o que faço por ti?" pode aumentar a carga emocional da situação.

A criança não precisa de uma competição entre adultos. Precisa de um adulto que consiga ouvir aquilo que está por baixo da frase. Podemos responder: "Percebo que gostes muito da tia. E percebo que agora estejas zangado comigo. Podes estar zangado comigo e continuar a gostar de mim." Esta frase ensina uma das aprendizagens emocionais mais importantes da infância: podemos amar alguém e estar zangados com essa pessoa ao mesmo tempo.

E quando a criança realmente parece preferir outra pessoa? Também pode acontecer. Uma criança pode desenvolver uma ligação particularmente forte com uma avó, tia, educadora ou outra pessoa significativa. E isso não é necessariamente uma ameaça à relação com a mãe.

As crianças beneficiam de ter várias relações afetivas seguras. Ter mais do que uma pessoa de referência pode aumentar o sentimento de segurança e pertença. Uma criança não tem um número limitado de lugares no coração.

O amor não funciona como uma cadeira onde, para alguém se sentar, outra pessoa tem obrigatoriamente de sair. Mas há situações em que devemos estar atentos.

Se a criança diz repetidamente que quer outra mãe, manifesta sofrimento intenso perante a mãe, evita sistematicamente o contacto, demonstra medo, ansiedade ou insegurança na relação, ou se estas afirmações aparecem acompanhadas por alterações significativas no comportamento, no sono, na alimentação ou na escola, vale a pena compreender melhor o que está a acontecer. Porque aí já não estamos apenas perante uma frase. Estamos perante um possível sinal de sofrimento que merece ser escutado.

E também devemos olhar para o contexto familiar. Há conflitos constantes? Existe uma separação? Mudanças na família? Uma nova relação? Alterações na rotina? Uma figura cuidadora que passou a estar muito mais presente? Ou simplesmente uma fase de desenvolvimento em que a criança está a experimentar diferentes papéis e relações? O comportamento infantil ganha significado quando olhamos para a história que está por trás dele.

O maior erro é levar a frase para o lado pessoal. Eu sei que pode doer. Sobretudo quando uma mãe dá o melhor de si e ouve da boca do próprio filho: "Queria que a avó fosse a minha mãe."

Mas uma criança não tem a maturidade emocional para perceber o impacto que determinadas frases podem ter num adulto. Por isso, não devemos colocá-la no papel de consolar a mãe.

"Depois de tudo o que faço por ti…"; "Não gostas de mim?"; "Então vai para a casa dela." São respostas que podem transformar uma emoção passageira numa culpa.

A criança precisa de poder expressar sentimentos sem sentir que é responsável pela autoestima do adulto. Talvez a resposta mais saudável seja muito mais simples: "Tu gostas muito da avó. Eu também gosto muito dela. E sabes que podes gostar muito dela e gostar muito de mim."

Porque a verdadeira segurança emocional não está em fazer uma criança dizer que a mãe é a pessoa de quem mais gosta. Está em ela saber que pode explorar relações, criar vínculos, admirar outras pessoas, sentir raiva, fazer comparações e até dizer coisas difíceis sem perder o amor e a segurança de que precisa.

Uma criança que diz "queria que ela fosse a minha mãe" pode não estar a pedir uma nova mãe. Pode estar apenas a tentar explicar, com as poucas palavras que tem, aquilo que sente quando está com aquela pessoa. E cabe aos adultos fazer a tradução.

Como fazer a tradução? Quando uma criança diz "queria que a avó fosse a minha mãe", o primeiro impulso pode ser defender-nos. Mas antes de responder, experimente fazer uma pausa.

 

A primeira estratégia é trocar a resposta pela curiosidade
Em vez de: "Mas porquê? Eu não sou uma boa mãe?" Experimente: "Conta-me o que gostas tanto quando estás com a avó." Não estamos a perguntar para descobrir quem é "melhor". Estamos a tentar perceber o que aquela relação representa para a criança.

 

 

A segunda estratégia é procurar o comportamento por detrás da preferência
Não fique apenas pela pessoa. Pergunte: "O que é que ela faz contigo?"; "Quando estás com ela, como te sentes?"; "O que gostavas que fizéssemos mais vezes juntas?" Estas perguntas ajudam a transformar uma comparação entre adultos numa informação sobre necessidades.

 

 

A terceira estratégia é procurar o padrão
A criança diz que queria que a tia fosse a mãe. Quando? Depois de ouvir um "não"? Quando está cansada? Depois de uma discussão? Ao voltar da casa da tia? Sempre que está com ela? O momento em que a frase aparece pode ser tão importante como a própria frase. Se acontece sobretudo depois de conflitos, pode ser uma forma infantil de expressar zanga ou frustração. Se acontece depois de passar um fim de semana maravilhoso com a avó, pode simplesmente estar a dizer: "Gostei tanto disto que queria que fosse sempre assim."

 

 

A quarta estratégia é fazer perguntas de escolha concreta
As crianças nem sempre conseguem responder a perguntas abstratas como "O que sentes em relação à tua mãe?" Mas podem responder: "Gostavas que eu brincasse mais contigo ou que tivéssemos mais tempo só os dois?"; "Preferes mais colo ou mais tempo para conversarmos?"; "Gostavas que fizéssemos mais coisas juntos ao fim de semana?" Estamos a ajudar a criança a transformar uma emoção difusa numa necessidade concreta.

 

 

A quinta estratégia é experimentar antes de interpretar
Se a criança diz que gostaria que a tia fosse a mãe porque "ela brinca muito comigo", não precisamos de fazer uma grande análise. Podemos criar mais momentos de brincadeira. Se diz que é porque "a avó me dá atenção", podemos aumentar os momentos de atenção exclusiva. Se diz que é porque "ela não está sempre a mandar", podemos olhar para a quantidade de regras e ordens que existem naquela relação. Às vezes, a melhor tradução é feita através de uma pequena mudança na relação.

 

 

A sexta estratégia é não entrar em competição
Não tente provar que é melhor mãe. Não diga: "Eu faço muito mais por ti."; "Quem é que está contigo quando estás doente?"; "Eu é que sou a tua mãe." A criança não precisa de um ranking de afetos. Precisa de liberdade para gostar de outras pessoas sem sentir que está a trair a mãe.

 

 

A sétima estratégia é ensinar a criança a dizer aquilo que realmente quer
Podemos devolver-lhe palavras: "Talvez não queiras que a avó seja a tua mãe. Talvez queiras dizer que gostavas que eu brincasse mais contigo. É isso?" Este tipo de tradução é uma ferramenta emocional poderosíssima. Aos poucos, a criança aprende que pode dizer: "Quero mais tempo contigo"; "Fiquei triste quando disseste não"; "Gostava de ter mais colo"; "Queria que brincasses comigo." Em vez de precisar de dizer: "Queria outra mãe."

 

E há uma última estratégia que considero fundamental: observar a relação, não apenas a frase. Uma frase isolada raramente conta a história toda.

O que importa é perceber como a criança procura a mãe quando está assustada, cansada, magoada ou doente. Se procura colo, conforto, proteção e proximidade, existe ali uma informação emocional muito mais importante do que uma frase dita num momento de zanga.

Por isso, da próxima vez que ouvir: "Eu queria que a avó fosse a minha mãe!" Respire antes de responder. Talvez não esteja a ouvir uma rejeição. Talvez esteja a ouvir um pedido. E o trabalho do adulto é descobrir qual.

Porque as crianças nem sempre sabem dizer "preciso de mais amor, mais tempo, mais atenção ou mais liberdade". Às vezes dizem apenas: "Queria que ela fosse a minha mãe." E nós podemos ensinar-lhes, pouco a pouco, a traduzir o que sentem em palavras que aproximam, em vez de palavras que afastam.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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