"Pai, mãe… se não me derem um telemóvel, vou parecer o 'esquisito' da turma": Vera de Melo diz o que fazer!
"Pai, mãe… toda a gente tem." "Sou o único." "Vou ficar de fora." "Vão gozar comigo." Se tens um filho entre os 10 e os 14 anos, é muito provável que já tenhas ouvido uma destas frases.
- 28 jul, 19:06
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E a verdade é que, quando um filho diz isto, muitos pais ficam divididos.
Por um lado, sabem que um smartphone traz riscos. Por outro, não querem que o filho seja excluído.
A pergunta surge quase sempre da mesma forma:
"E se ele tiver razão?"
A resposta é mais complexa do que um simples "sim" ou "não".
Porque, para um adolescente, o medo de ficar de fora é real.
O cérebro adolescente está particularmente sensível à aceitação social. Nesta fase da vida, pertencer ao grupo não é um capricho. É uma necessidade de desenvolvimento. Ser aceite pelos pares ajuda a construir a identidade, a autoestima e o sentimento de pertença.
Por isso, quando um filho diz: "Vou parecer o esquisito", não está necessariamente a manipular.
Está a falar de um medo verdadeiro.
Mas uma emoção verdadeira não significa que a solução seja sempre a mais adequada.
Há uma enorme diferença entre ensinar um filho a lidar com a pressão do grupo e deixar que seja o grupo a decidir por nós.
Se todas as decisões forem tomadas com base naquilo que "os outros têm", estaremos a ensinar uma lição perigosa: para sermos aceites, temos de fazer exatamente o que os outros fazem.
E essa pressão não termina no telemóvel.
Mais tarde será a roupa.
Depois o álcool. Os cigarros eletrónicos. As relações. A velocidade ao volante. A necessidade de agradar.
Se um adolescente nunca aprender a suportar o desconforto de ser diferente, viverá a vida inteira à procura da aprovação dos outros.
Isto não significa que os pais devam ignorar aquilo que o filho sente.
Pelo contrário.
A pior resposta é dizer:
"Isso é uma parvoíce."
Porque, para ele, não é.
Vale muito mais dizer:
"Percebo que tenhas medo de ficar de fora. Imagino que isso seja difícil."
Validar a emoção não obriga a aceitar o pedido.
São coisas diferentes.
Os filhos precisam de sentir que são compreendidos. Mas também precisam de perceber que os pais tomam decisões a pensar no seu desenvolvimento e não na pressão do momento.
Há outra pergunta que costumo fazer aos pais:
O teu filho precisa mesmo de um smartphone… ou precisa de sentir que pertence?
Porque essas duas necessidades não são iguais. O sentimento de pertença constrói-se em relações reais, em amizades saudáveis, na confiança e na autoestima. Nenhum telemóvel consegue oferecer isso.
E há um paradoxo curioso. Muitos pais compram um smartphone para evitar que o filho fique sozinho.
Meses depois, descobrem que ele passa horas fechado no quarto, ligado ao mundo inteiro... e cada vez mais desligado da própria família.
Não existe uma idade mágica para dar um telemóvel.
Existe, sim, uma pergunta que importa fazer: o meu filho está preparado para ter um smartphone ou sou eu que estou com medo de que ele seja diferente?
Educar nunca foi seguir a maioria. Foi, muitas vezes, ter a coragem de dizer "ainda não", mesmo sabendo que o nosso filho pode ficar zangado.
Porque ser pai ou mãe não é garantir que o filho nunca se sente diferente.
É ajudá-lo a descobrir que o seu valor nunca dependerá de ter aquilo que todos os outros têm.
