Crónicas

"O verão não resolve crises. Apenas lhes tira o casaco", por Vera de Melo

Todos os anos acreditamos na mesma promessa. "Quando chegarem as férias, isto passa." Passa o cansaço. Passa a ansiedade. Passam as discussões. Passa a tristeza. Passa a vontade de fugir. Como se bastasse mudar de praia, de hotel ou de país para deixarmos de ser quem somos.

  • 27 jul, 19:22

Vera de Melo já não está assim! Veja o novo look da psicóloga

Vera de Melo goza férias na Grécia

Vera de Melo apresenta novo livro na Feira do Livro de Lisboa

Rodeada de amigos e família, Vera de Melo lança mais um livro

Vera de Melo na Festa do Livro em Celorico de Basto

Vera de Melo faz confissão... que envolve o marido!

Festa de Verão TVI: Vera de Melo exibe novo visual

As imagens da transformação de Vera de Melo

Não vai acreditar no que Vera de Melo fez em criança: "Fugi e disse que não tinha sido eu"

Vera de Melo lança novo livro: "Acredito que o nosso coração é uma bússola invisível"

Mas a verdade é outra. O verão não resolve crises. Apenas lhes tira o casaco.
Durante meses vivemos ocupados. O trabalho, os horários, a escola dos filhos, o trânsito, as contas para pagar, a lista interminável de tarefas. A rotina ocupa tanto espaço que muitas emoções acabam por ficar escondidas debaixo dela.
Não desaparecem. Ficam apenas em pausa. E é precisamente por isso que tantas pessoas se sentem estranhas quando finalmente chegam as férias.

Era suposto estarem felizes. Mas sentem-se inquietas.
Era suposto descansarem. Mas a cabeça continua a correr.
Era suposto aproveitarem cada momento. Mas há uma tristeza que insiste em fazer-lhes companhia.

Na psicologia sabemos que a atividade constante pode funcionar como uma forma de evitamento emocional. Não significa que a pessoa esteja a fingir. Significa apenas que, enquanto está ocupada, existe menos espaço para sentir. Quando a rotina abranda, aquilo que foi sendo empurrado para segundo plano volta à superfície.

É por isso que tantas crises de ansiedade aparecem durante as férias.
É por isso que há casais que discutem mais precisamente quando têm mais tempo para estar juntos.
É por isso que há pessoas que regressam do destino de sonho com a sensação de que continuam exatamente no mesmo lugar.
Porque podemos mudar de paisagem. Mas continuamos a levar connosco a nossa história.

As férias também retiram as distrações. E, quando isso acontece, ficamos frente a frente com perguntas que conseguimos adiar durante meses.
Estou feliz na vida que construí? Ainda gosto do trabalho que faço? A minha relação faz-me sentir seguro ou apenas acompanhado? Quando foi a última vez que me senti verdadeiramente em paz?

São perguntas incómodas. Mas também são perguntas importantes.
Talvez seja por isso que algumas pessoas sentem necessidade de manter as férias sempre cheias. Mais passeios, mais restaurantes, mais fotografias, mais atividades, mais ruído.
Porque o silêncio tem uma estranha capacidade de nos apresentar a nós próprios. E nem sempre estamos preparados para esse encontro.
Isso não significa que as férias não façam bem.
Fazem.

O descanso melhora a memória, reduz os níveis de stress, favorece a criatividade e permite ao cérebro recuperar de meses de exigência. Mas descansar não é o mesmo que resolver.
Uma semana à beira-mar não cura uma relação onde deixou de existir respeito.
Um hotel de cinco estrelas não trata uma perturbação de ansiedade que já se arrasta há anos.
Um pôr do sol bonito não apaga um sofrimento que nunca encontrou espaço para ser ouvido.
O verão pode oferecer-nos uma pausa.
Mas a mudança começa quando deixamos de usar essa pausa para fugir de nós e passamos a utilizá-la para nos escutarmos.

Talvez o maior presente das férias não seja o bronzeado.
Nem as fotografias.
Nem os destinos.
Talvez seja o tempo.
Tempo para percebermos aquilo que a correria do resto do ano não nos deixa ver.
Porque o verão não resolve crises.
Mas pode mostrar-nos, com uma clareza quase desconfortável, exatamente aquilo que já não podemos continuar a ignorar.
E, às vezes, esse é o primeiro passo para mudar uma vida.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

Relacionados