Crónicas

"O sexo que acontece para evitar uma conversa", por psicóloga Vera de Melo

Há um tipo de sexo sobre o qual quase não falamos. Não porque seja particularmente raro, nem porque seja fácil identificá-lo, mas porque é difícil admitir que, por vezes, a intimidade acontece sem que exista uma verdadeira vontade de estar ali.

  • Às 14:38

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Não falamos necessariamente de violência, de ameaça ou de uma recusa ignorada. Falamos de situações mais subtis, quotidianas, difíceis de explicar a quem olha de fora. Da pessoa que aceita ter relações porque sabe que, se disser que não, o parceiro ficará magoado. De quem cede porque não tem energia para mais uma discussão. De quem prefere fazer um esforço para que a noite termine em paz. De quem pensa que, afinal, não custa assim tanto e que amanhã tudo estará mais tranquilo.

E, às vezes, está.

Não há discussão. Ninguém fica de costas voltadas. Não há perguntas incómodas, acusações ou silêncios prolongados. A relação continua a funcionar e o episódio nem sequer chega a ser mencionado.

Mas há uma pergunta que talvez merecesse ser feita: quando temos relações sexuais para evitar o desconforto de dizer que não queremos, o que estamos realmente a proteger: a intimidade ou a paz da relação?

A diferença pode parecer pequena. Não é.

Aprendemos a pensar no sexo como uma expressão do desejo, da atração, do amor e da proximidade. Imaginamos duas pessoas que se procuram, que sentem vontade de estar juntas e que encontram na intimidade uma forma de se ligarem. Mas a sexualidade humana é mais complexa do que esta imagem.

O comportamento sexual pode ter motivações diferentes. Podemos procurar prazer, proximidade, curiosidade, conforto ou validação. Podemos desejar uma pessoa e, ainda assim, não ter vontade de ter relações num determinado momento. Podemos começar sem um desejo intenso e descobrir interesse ao longo de uma experiência que nos é agradável e livremente escolhida.

Nem toda a intimidade precisa de começar com um desejo intenso. E nem toda a relação sexual que não começa com desejo é, por isso, problemática.

O que importa é perceber se existe liberdade para escolher.

Porque uma coisa é estarmos disponíveis para uma experiência que nos apetece explorar. Outra, muito diferente, é sentirmos que temos de estar disponíveis para evitar as consequências emocionais da nossa recusa.

O consentimento não se resume à ausência de um "não". Pressupõe que a pessoa possa escolher livremente, sem pressão, medo ou obrigação.

E é aqui que entram as conversas que tantos casais evitam.

Imaginemos uma situação banal. Duas pessoas chegam ao fim do dia exaustas. Uma procura proximidade sexual. A outra não tem vontade. Talvez esteja cansada, preocupada, sobrecarregada ou simplesmente não sinta desejo naquele momento.

A pessoa que não quer sabe que a recusa pode ser recebida com tristeza. Talvez o parceiro fique em silêncio. Talvez pergunte se já não é desejado. Talvez faça uma observação sobre a frequência das relações ou recorde há quanto tempo não estão juntos.

Pode não existir uma intenção consciente de pressionar. Pode haver insegurança, saudade, frustração ou dificuldade em lidar com a rejeição. As necessidades de ambos podem ser legítimas.

Mas a forma como cada um lida com essas necessidades faz toda a diferença.

Se uma pessoa começa a antecipar que dizer "não" vai desencadear uma discussão, provocar afastamento ou obrigá-la a tranquilizar o parceiro durante horas, a decisão deixa de acontecer num espaço inteiramente livre. O sexo pode tornar-se a maneira mais rápida de evitar um problema.

E, quando isto se repete, instala-se uma dinâmica difícil de reconhecer: um procura intimidade; o outro aprende a gerir as emoções do primeiro através da sua disponibilidade sexual.

O corpo passa a fazer um trabalho emocional que deveria pertencer à relação.

É importante não transformar esta observação numa acusação generalizada. Sentir tristeza perante uma recusa não é, por si só, exercer pressão. Desejar mais sexo do que o parceiro também não é uma falha moral. Existem casais com diferenças significativas de desejo, e essa diferença pode ser uma fonte real de sofrimento para ambos.

Uma pessoa pode sentir-se rejeitada sem estar a rejeitar a autonomia do outro. Pode precisar de conversar sobre a sua vida sexual sem estar a exigir relações. Pode expressar frustração sem que isso constitua uma forma de manipulação.

A questão não é impedir que alguém tenha sentimentos. É perceber o que faz com eles.

Consegue reconhecer a sua tristeza sem transformar o outro em responsável por a resolver através do sexo? Consegue conversar sobre as suas necessidades sem fazer da recusa uma prova de desamor? Consegue aceitar que o parceiro não tem vontade naquele momento, mesmo que isso o deixe frustrado?

E, do outro lado, consegue a pessoa que não deseja dizer que não sem sentir que está a colocar a relação em risco?

Numa relação saudável, podemos ficar tristes com a resposta do outro sem lhe retirar a liberdade de a dar.

Esta distinção é fundamental porque, muitas vezes, a pressão sexual não se apresenta como uma exigência explícita. Pode surgir através de suspiros, afastamento, ironia, comparações com outros casais ou perguntas que parecem procurar uma resposta, mas que já transportam uma acusação.

"Já não gostas de mim?"

"Se me desejasses, não seria assim."

"No início não eras desta maneira."

Por detrás destas frases podem existir insegurança e uma necessidade genuína de proximidade. Mas, quando são utilizadas repetidamente para fazer alguém sentir culpa por não querer sexo, deixam de ser apenas uma expressão de vulnerabilidade. Passam a funcionar como pressão.

A pessoa que recusa pode começar a perceber que tem duas opções: dizer a verdade e enfrentar o desconforto ou ceder e evitar o conflito.

E há situações em que ceder parece mais simples.

Não porque exista desejo, mas porque existe cansaço. Porque a discussão seria demasiado longa. Porque a pessoa não quer magoar quem ama. Porque não quer ser responsável por mais uma noite difícil. Porque aprendeu que o preço emocional de dizer não é superior ao esforço de dizer sim.

É possível que, naquele momento, pense que não tem importância. Que é apenas sexo. Que não vale a pena transformar uma coisa pequena num problema.

Mas quando o nosso "sim" é dado sobretudo para evitar o custo de dizer "não", vale a pena olhar com atenção para a liberdade que existe naquela relação.

Não significa que todas as relações sexuais motivadas pelo cuidado, pela generosidade ou pela vontade de agradar sejam negativas. A sexualidade não acontece num vazio emocional, e nem todas as nossas motivações precisam de ser exclusivamente individuais. Há experiências que escolhemos partilhar porque sabemos que podem fazer bem à pessoa que amamos e porque também nos sentimos confortáveis com essa escolha.

A diferença está em podermos escolher sem recear consequências que nos obriguem a ceder.

Podemos querer agradar sem nos sentirmos obrigados. Podemos procurar a felicidade do outro sem assumir a responsabilidade de impedir todas as suas frustrações. Podemos ser generosos sem transformar a generosidade numa prestação recorrente.

A liberdade não exige que todas as nossas escolhas sejam feitas apenas para satisfazer os nossos desejos. Exige que possamos participar nelas sem deixarmos de ter voz.

E é precisamente por isso que esta conversa não pode ficar reduzida à frequência sexual de um casal.

Há relações em que duas pessoas têm desejos diferentes e conseguem falar sobre isso com honestidade. Há outras em que a diferença de desejo se transforma numa contabilidade: quem iniciou, quem recusou, há quantos dias não acontece, quantas vezes cada um cedeu, quem está a dar mais.

O sexo deixa de ser um espaço de encontro e passa a ser um indicador de desempenho conjugal.

Quem deseja mais sente que não é amado. Quem deseja menos sente que está constantemente em dívida. Um procura garantias de que continua a ser desejado; o outro tenta provar que continua a amar. E ambos podem acabar presos a uma negociação em que ninguém se sente verdadeiramente compreendido.

A pessoa que deseja mais pode precisar de ouvir que continua a ser importante, atraente e amada. A pessoa que deseja menos pode precisar de sentir que o seu corpo não está permanentemente sujeito a uma expectativa.

Estas necessidades não são incompatíveis. Mas não podem ser resolvidas à custa da autonomia sexual de um dos elementos do casal.

O desejo de uma pessoa merece ser escutado. A ausência de desejo da outra merece ser respeitada. Nenhum dos dois transforma o corpo do parceiro numa obrigação.

Talvez seja por isso que precisamos de aprender a falar de sexo fora do momento em que esperamos que ele aconteça.

É difícil negociar expectativas quando uma das pessoas já está a sentir-se rejeitada e a outra já está a sentir-se pressionada. É difícil explorar o que está a acontecer quando a conversa começa com uma acusação ou termina numa tentativa de obter uma garantia de amor.

Precisamos de conseguir falar sobre o que sentimos, sobre o que nos apetece, sobre o que mudou e sobre aquilo de que precisamos sem transformar cada conversa numa avaliação da relação.

Por vezes, o desejo diminui porque existe exaustão, stress, dor, alterações hormonais, medicação, conflitos por resolver ou uma combinação de fatores. Outras vezes, não existe uma explicação única. O desejo varia ao longo da vida e entre pessoas, e nem todas as diferenças representam um problema clínico.

O que merece atenção é o sofrimento que existe, a liberdade de cada pessoa e a possibilidade de encontrar formas de intimidade que façam sentido para ambos.

E há outra coisa que precisamos de dizer: ninguém tem de apresentar uma justificação suficientemente convincente para não querer ter relações sexuais.

Não é preciso estar doente. Não é preciso estar zangado. Não é preciso ter uma razão extraordinária. Não é preciso demonstrar que se está cansado ao ponto de não conseguir levantar a cabeça.

Não querer é suficiente.

Esta frase parece simples, mas pode ser difícil de viver numa cultura em que o sexo é frequentemente apresentado como uma obrigação natural das relações, uma prova de atração ou um dever implícito do casamento.

O consentimento não fica garantido pelo facto de existir uma relação amorosa. Não se torna automático porque duas pessoas já tiveram relações muitas vezes. E não deixa de ser importante porque a recusa pode magoar alguém.

Podemos amar profundamente uma pessoa e não querer ter relações com ela numa determinada noite. Podemos sentir atração e não estar disponíveis. Podemos querer abraços, beijos ou proximidade sem querer avançar para outra forma de intimidade.

E podemos mudar de ideias.

A proximidade não tem de seguir um percurso obrigatório, nem cada gesto de carinho precisa de ser interpretado como uma promessa de sexo.

Quando o toque passa a ser entendido como uma negociação, algumas pessoas começam a evitá-lo por recearem que qualquer manifestação de afeto crie uma expectativa que não querem ou não conseguem satisfazer. Aquilo que poderia aproximar o casal transforma-se numa fonte de tensão.

Por vezes, recuperar a intimidade implica precisamente devolver ao toque a liberdade de existir sem uma finalidade previamente definida.

Um abraço pode ser apenas um abraço. Um beijo pode terminar num beijo. Uma noite juntos pode ser importante sem ter de cumprir um determinado resultado.

Não porque o sexo tenha deixado de importar, mas porque a intimidade precisa de espaço para ser escolhida.

E talvez seja aqui que chegamos à parte mais difícil desta conversa: perceber que amar alguém não significa conseguir evitar que essa pessoa se sinta rejeitada.

Podemos ser cuidadosos, comunicar com honestidade e demonstrar afeto. Podemos escutar as necessidades do parceiro e procurar soluções para as dificuldades que enfrentamos enquanto casal. Mas não podemos garantir que o outro nunca vai sentir tristeza, insegurança ou frustração.

Tentar eliminar todas essas emoções através da nossa disponibilidade sexual não é uma solução sustentável. É uma forma de assumir uma responsabilidade que não nos pertence inteiramente.

A nossa responsabilidade é comunicar com respeito. A do outro é aprender a lidar com os seus sentimentos sem transformar a nossa autonomia numa ameaça à relação.

Isto exige maturidade emocional dos dois lados. Exige reconhecer que a vulnerabilidade pode ser partilhada sem se transformar numa obrigação e que a intimidade não pode ser construída apenas sobre o medo de desiludir.

Uma relação não se torna mais segura quando aprendemos a evitar todas as recusas. Torna-se mais segura quando podemos recusarmo-nos sem deixar de nos sentir amados.

Talvez precisemos, por isso, de fazer uma pergunta diferente quando falamos sobre a vida sexual de um casal.

Em vez de perguntarmos apenas se têm relações suficientes, se ainda existe desejo ou quem procura mais vezes, talvez devêssemos perguntar se ambos se sentem livres para dizer o que querem. Se conseguem falar sobre o que não querem. Se existe espaço para a frustração sem castigo, para a vulnerabilidade sem chantagem e para a diferença sem que alguém tenha de abdicar de si para preservar a paz.

Porque o sexo pode ser uma forma extraordinária de proximidade. Pode criar prazer, cumplicidade, confiança e ligação. Pode ser uma maneira de nos encontrarmos quando as palavras não chegam.

Mas não deve ser o preço que pagamos para manter uma conversa por ter.

Nem a prova que apresentamos para demonstrar que ainda amamos. Nem a solução que oferecemos sempre que alguém tem medo de não ser desejado.

O sexo não deve ser a moeda com que compramos a tranquilidade de uma relação.

Há conversas que são desconfortáveis. Há diferenças que não desaparecem só porque gostamos muito de alguém. Há necessidades que exigem negociação, paciência e, por vezes, ajuda profissional. Nem todas as incompatibilidades têm uma solução simples, e reconhecer isso também faz parte da honestidade que uma relação merece.

Mas nenhuma dessas dificuldades se resolve verdadeiramente quando uma pessoa aprende a ignorar aquilo que sente para que a outra não tenha de enfrentar aquilo que sente.

Talvez a intimidade comece precisamente quando deixamos de precisar de provar o nosso amor através da disponibilidade permanente.

Quando podemos dizer "hoje não quero" sem medo de perder o outro. Quando conseguimos ouvir «hoje não quero» sem transformar essa resposta numa sentença sobre o nosso valor. Quando o sexo volta a ser uma possibilidade que duas pessoas escolhem, e não uma obrigação que uma delas cumpre para evitar as consequências da recusa.

Porque há uma diferença entre escolher estar com alguém e sentir que temos de estar disponíveis para essa pessoa.

E essa diferença pode não ser visível para quem olha de fora. Pode não aparecer nas fotografias do casal, nas conversas com os amigos ou na frequência com que partilham a cama.

Mas é profundamente importante para a forma como cada pessoa vive a própria intimidade.

O verdadeiro sinal de segurança sexual não é sabermos que o outro está sempre disponível para nós. É sabermos que, quando escolhe estar connosco, pode fazê-lo livremente.

Talvez seja essa uma das formas mais maduras de amar: criar uma relação em que o desejo pode ser expresso sem vergonha, a recusa pode ser comunicada sem medo e nenhum dos dois precisa de usar o próprio corpo para resolver aquilo que só uma conversa honesta pode começar a transformar.

Porque o amor não nos dá direito ao corpo de ninguém.

E o sexo, para continuar a ser um lugar de encontro, precisa de continuar a ser uma escolha.

Mesmo quando a resposta é não.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica e da Saúde

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