Crónicas

O meu filho está a ser vítima de alienação parental? Psicóloga Vera de Melo alerta para os sinais que nenhum pai ou mãe deve ignorar

Há separações que terminam um casamento. Outras acabam por ferir uma infância.

  • 30 jul, 18:39

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Quando um casal se separa, é natural existirem mágoas, conflitos e diferenças na forma de educar os filhos. Mas há uma linha que nunca deveria ser ultrapassada: usar uma criança como instrumento de vingança contra o outro progenitor.

Na psicologia chamamos a este fenómeno alienação parental, uma dinâmica relacional em que um dos pais, de forma consciente ou inconsciente, influencia a criança para rejeitar, temer ou desvalorizar o outro progenitor, sem que exista uma razão objetiva que justifique essa rejeição.

 

E esta realidade é muito mais frequente do que imaginamos.

O problema é que a alienação parental raramente começa com grandes acontecimentos. Começa em pequenas frases, em pequenos gestos, em pequenos silêncios que, repetidos ao longo do tempo, acabam por moldar a forma como uma criança olha para um dos pais.

Como perceber se o teu filho pode estar a viver esta realidade?

É importante lembrar que nenhum sinal, isoladamente, confirma uma situação de alienação parental. Cada criança reage de forma diferente ao divórcio e à reorganização familiar.

No entanto, existem comportamentos que merecem atenção.

 

1. A rejeição é intensa e aparentemente sem explicação

A criança passa a recusar estar com um dos pais de forma muito marcada.

Quando lhe perguntam porquê, responde com justificações vagas, exageradas ou pouco consistentes.

"Não gosto dele."

"É má pessoa."

"Nunca quero voltar."

Mas quando tentamos perceber exemplos concretos, eles não aparecem ou são claramente desproporcionados.

Na prática clínica, esta ausência de motivos consistentes é um dos aspetos que merece maior reflexão.

 

2. Repete frases demasiado "adultas"

Há crianças que começam, de repente, a utilizar expressões que dificilmente fariam parte do seu vocabulário.

"Ele é um narcisista."

"Ela destruiu a nossa família."

"Ele nunca pagou nada."

"Ela só pensa nela."

São frases que refletem conflitos dos adultos e não experiências emocionais próprias da criança.

Quando uma criança começa a falar como um adulto em guerra judicial, devemos questionar quem está verdadeiramente a falar através dela.

 

3. Demonstra culpa por gostar do outro progenitor

Este é um dos sinais mais dolorosos.

A criança sente que, para agradar a um dos pais, precisa de esconder o carinho que sente pelo outro.

Evita falar dos momentos felizes que viveu.

Esconde fotografias.

Não conta o que fez no fim de semana.

Como se amar um pai significasse trair o outro.

Nenhuma criança deveria crescer a sentir que o amor tem de ser dividido em equipas.

 

4. O discurso torna-se totalmente negativo

Mesmo pais imperfeitos costumam proporcionar momentos positivos aos filhos.

Quando uma criança afirma que o outro progenitor "nunca fez nada de bom", "sempre foi horrível" ou "não presta para nada", estamos perante uma visão extremamente polarizada.

Na psicologia sabemos que o pensamento infantil tende a evoluir para uma maior complexidade ao longo do desenvolvimento.

Uma visão absolutamente preta ou branca merece sempre ser explorada.

 

5. Há uma quebra súbita na relação

Pais e filhos podem afastar-se.

Isso acontece.

Mas quando existia uma relação próxima e, de um momento para o outro, surge uma rejeição intensa sem um acontecimento significativo que a explique, é importante procurar compreender o que aconteceu.

As mudanças abruptas raramente surgem sem influência de fatores externos.

 

6. A criança parece viver um conflito de lealdades

Muitas crianças tornam-se excessivamente protetoras de um dos pais.

Sentem que precisam de cuidar dele.

De o defender.

De lhe fazer companhia.

De o "salvar".

Sem se aperceberem, deixam de ocupar o lugar de filhos para assumir responsabilidades emocionais que pertencem aos adultos.

E esse peso pode acompanhar a criança durante muitos anos.

 

O impacto psicológico pode durar uma vida

As crianças precisam de sentir que podem amar ambos os pais sem medo.

Quando isso lhes é retirado, vivem um conflito interno profundamente desgastante.

A investigação científica tem mostrado que crianças expostas a dinâmicas persistentes de alienação parental podem apresentar níveis mais elevados de ansiedade, sintomas depressivos, baixa autoestima, dificuldades na construção da identidade, problemas de confiança nas relações e maior vulnerabilidade emocional na idade adulta.

Não porque um dos pais tenha desaparecido.

Mas porque lhes foi transmitida a ideia de que amar uma pessoa significava perder outra.

 

O que fazer se suspeitas que isto está a acontecer?

O primeiro passo é resistir à tentação de responder da mesma forma.

Falar mal do outro progenitor à frente da criança apenas alimenta o ciclo.

O segundo passo é ouvir verdadeiramente o teu filho.

Sem interrogatórios.

Sem pressão.

Sem o obrigar a escolher lados.

Procura compreender o que sente, valida as suas emoções e mostra-lhe que pode amar ambos os pais sem culpa.

Sempre que existam sinais persistentes de rejeição inexplicável, conflitos de lealdade ou sofrimento emocional significativo, é fundamental procurar apoio psicológico especializado. Uma avaliação cuidadosa permite distinguir aquilo que resulta do impacto natural de uma separação daquilo que pode estar relacionado com uma dinâmica de alienação parental ou outras formas de conflito familiar.

Porque o objetivo nunca é descobrir quem tem razão.

É proteger quem menos capacidade tem para se proteger.

 

A verdadeira pergunta

Quando um casamento termina, a infância dos filhos não deveria terminar com ele.

As crianças não nasceram para carregar as guerras dos adultos.

Nasceram para continuar a sentir-se amadas, seguras e livres para amar o pai e a mãe.

Porque quando um filho perde um dos pais por influência do outro, ninguém ganha.

E quem mais perde é precisamente quem menos escolheu esta história.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

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