"O eclipse vai durar minutos. Há pessoas que vivem anos às escuras", por Vera de Melo
Hoje, durante alguns minutos, o dia vai perder luz. As pessoas vão parar para olhar para o céu, vão procurar um lugar, levantar os olhos, tirar fotografias, esperar pelo momento em que a luz desaparece e depois regressa. Mas há uma coisa curiosa nisto tudo: o eclipse vai durar minutos. Há pessoas que vivem anos às escuras.
- 12 ago, 16:03
Não porque não exista luz à sua volta, mas porque, emocionalmente, deixaram de conseguir vê-la. Há quem esteja numa relação que já não lhe faz bem e continue a chamar-lhe amor. Há quem esteja exausto e continue a dizer “eu estou bem”. Há quem viva há anos a tentar corresponder às expectativas dos outros e já nem saiba o que realmente quer. Há quem tenha medo de mudar e, por isso, escolha permanecer exactamente no lugar que o faz sofrer. E há quem se tenha habituado tanto à própria infelicidade que já nem a reconhece como infelicidade.
A Psicologia mostra-nos que aquilo a que nos habituamos nem sempre é aquilo que nos faz bem. O cérebro tende a preferir o conhecido, mesmo quando o conhecido dói. É por isso que mudar pode ser tão difícil. Não precisamos apenas de coragem para sair de determinados lugares. Precisamos também de reconstruir a nossa percepção de segurança, identidade e futuro.
Às vezes, aquilo que nos prende não é a falta de alternativas. É o medo daquilo que acontece quando deixamos de viver como sempre vivemos. E talvez seja por isso que algumas pessoas passam tanto tempo a tentar adaptar-se à escuridão em vez de perguntarem: “Porque é que continuo aqui?”
Há pessoas que se tornam especialistas em aguentar. Aguentam o trabalho que já não suportam, a relação que já não reconhecem, a culpa que carregam há anos, a família que exige demasiado, a vida que construíram e que já não sabem se escolheriam hoje. Dizem a si próprias que é só uma fase, que depois melhora, que agora não é o momento, que há pessoas que estão pior.
E vão adiando.
O problema é que sobreviver durante muito tempo pode começar a parecer viver.
Não precisamos de estar felizes todos os dias. Não precisamos de ter respostas para tudo. Existem momentos de tristeza, dúvida, medo e confusão que fazem parte da experiência humana. O problema começa quando uma fase difícil deixa de ser uma fase e passa a ser a nossa forma de viver. Quando deixamos de imaginar outra vida. Quando deixamos de desejar. Quando deixamos de questionar. Quando já não esperamos que alguma coisa possa ser diferente.
Também podemos ficar às escuras quando passamos demasiado tempo a viver segundo aquilo que os outros esperam de nós. Quando somos excelentes profissionais, bons pais, bons companheiros, filhos disponíveis, amigos presentes, mas já não sabemos responder a uma pergunta aparentemente simples: “E tu, o que queres?”
Por vezes, não precisamos de mudar de vida. Precisamos primeiro de voltar a perceber se a vida que temos ainda é nossa.
E isso pode ser desconfortável.
Porque olhar para dentro também significa encontrar coisas que temos tentado não ver.
A conversa que estamos a adiar. A relação que já não nos faz bem. O cansaço que insistimos em chamar preguiça. A tristeza que escondemos atrás de produtividade. A necessidade de aprovação que confundimos com amor. O medo que disfarçamos de prudência. O sonho que fomos deixando para depois porque havia sempre uma razão mais urgente.
Hoje, olha para o eclipse. Mas aproveita também para olhar para dentro. Não para procurar aquilo que está errado contigo, mas para perceber onde tens andado a viver no automático.
Que conversa estás a adiar? Que relação estás a tentar salvar sozinha? Que sonho foste deixando para depois? Que versão de ti própria estás a manter apenas porque tens medo de descobrir quem serias se escolhesses diferente?
Talvez não precises de ter todas as respostas hoje.
Talvez precises apenas de reconhecer onde está a escuridão.
Porque reconhecer é diferente de desistir. É o primeiro passo para podermos escolher o que fazer a seguir.
O eclipse lembra-nos de uma coisa simples: a escuridão pode ser temporária. Mas, às vezes, precisamos de fazer alguma coisa para voltar a encontrar a luz.
E talvez a pergunta mais importante de hoje não seja "o que acontece quando o céu escurece?".
Talvez seja:
"Em que parte da minha vida deixei de procurar a luz?"
