"O Dia da Criança não é sobre brinquedos. É sobre aquilo que uma criança nunca esquece", por Vera de Melo
O maior presente que uma criança pode receber não se compra. Constrói-se.
- 1 jun, 15:00
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Todos os anos, o Dia da Criança chega acompanhado de campanhas publicitárias, promoções e listas intermináveis de presentes. Parece existir uma mensagem implícita: para fazer uma criança feliz, é preciso oferecer alguma coisa. Mas a psicologia do desenvolvimento infantil conta-nos uma história diferente.
As crianças precisam de brinquedos, experiências e momentos de diversão. No entanto, aquilo que mais influencia o seu desenvolvimento emocional não é o que recebem. É a qualidade da relação que constroem com os adultos que cuidam delas.
Desde os primeiros anos de vida, o cérebro da criança desenvolve-se através das relações. Não é apenas uma questão emocional. É também uma questão neurológica.
Quando um bebé é consolado após chorar, quando uma criança é escutada com atenção ou quando um adulto responde de forma sensível às suas necessidades, estão a formar-se circuitos cerebrais ligados à segurança, à regulação emocional e à construção da autoestima.
É por isso que falamos tanto da importância do vínculo. O vínculo seguro funciona como uma espécie de base psicológica a partir da qual a criança explora o mundo. Quando sente que tem um porto seguro para regressar, ganha confiança para experimentar, aprender, errar e crescer.
Curiosamente, aquilo que mais fortalece este vínculo não são os grandes acontecimentos. São os pequenos momentos repetidos todos os dias.
A conversa durante o jantar. A brincadeira no chão da sala. A história antes de dormir. O abraço depois de um dia difícil. O olhar atento quando a criança quer mostrar algo que, para ela, é importante. São experiências aparentemente simples, mas profundamente estruturantes.
A investigação em psicologia mostra que as crianças não precisam de pais perfeitos. Precisam de pais suficientemente disponíveis emocionalmente. Precisam de sentir que as suas emoções encontram acolhimento e não indiferença.
Quando uma criança se sente vista, aprende que tem valor. Quando se sente ouvida, aprende que a sua voz importa. Quando se sente compreendida, aprende a compreender-se a si própria.
Estas experiências tornam-se os alicerces da forma como se relacionará consigo mesma e com os outros ao longo da vida.
Por isso, neste Dia da Criança, talvez valha a pena parar e refletir sobre uma pergunta diferente.
Em vez de perguntar: "O que posso oferecer ao meu filho?", talvez possamos perguntar: "Que memórias emocionais estou a ajudá-lo a construir?"
Porque os brinquedos podem partir-se, perder-se ou ser esquecidos. Mas a sensação de ter sido amado, valorizado e emocionalmente seguro acompanha uma criança muito para além da infância.
E esse continua a ser um dos presentes mais poderosos que um pai ou uma mãe podem dar.
