"Não quero uma relação, mas também não quero perder-te", por psicóloga Vera de Melo
Há frases que parecem sinceras, mas que podem esconder uma enorme falta de coragem.
- 30 ago, 15:03
"Não quero uma relação contigo, mas também não quero perder-te." Traduzindo: "Não quero assumir-te, mas também não quero que estejas disponível para outra pessoa."
E é aqui que começa o problema. Porque há uma diferença enorme entre não querer estar numa relação e não querer perder alguém.
A primeira coisa pode ser honestidade. A segunda pode ser egoísmo. Podemos gostar muito de alguém e não estar preparados para uma relação. Podemos estar emocionalmente indisponíveis, confusos, com medo, a sair de uma relação anterior ou simplesmente não sentir que queremos construir um compromisso. Tudo isso pode ser legítimo.
O que deixa de ser justo é querer manter a pessoa emocionalmente ligada enquanto recusamos dar-lhe aquilo de que ela precisa.
É querer a proximidade sem o compromisso. O carinho sem a responsabilidade. A intimidade sem a definição. A presença sem a escolha. E esta é uma das situações que mais pode prender alguém.
Porque a pessoa não ouve um "não". Ouve: "Agora não." E esse "agora não" deixa uma porta aberta. Então espera. Talvez daqui a um mês. Talvez quando ele resolver os problemas. Talvez quando ela perceber o que quer. Talvez quando tiver menos medo. Talvez quando estiver preparado. E enquanto espera, vai adiando a própria vida. É aqui que uma frase aparentemente romântica pode tornar-se emocionalmente cruel.
Porque dizer "não quero uma relação, mas não quero perder-te" pode significar: "Quero que continues disponível enquanto eu decido se algum dia te quero." E ninguém deveria ter de viver numa sala de espera emocional.
Claro que isto nem sempre é manipulação consciente. Há pessoas que realmente não sabem o que querem. Sentem carinho. Desejo. Ligação. Medo de perder. Mas não conseguem ou não querem assumir uma relação.
O problema é que a confusão de uma pessoa não pode transformar-se na prisão emocional de outra. Porque, enquanto alguém está a tentar perceber o que sente, a outra pessoa pode estar a apaixonar-se cada vez mais.
E é aí que a diferença entre não querer uma relação e não querer perder alguém se torna tão importante.
Se não queres uma relação, tens direito a dizê-lo. Mas a outra pessoa também tem direito a decidir se consegue ficar nesse lugar.
Não podes pedir-lhe exclusividade emocional sem oferecer compromisso. Não podes esperar que esteja disponível para ti enquanto tu decides se queres estar disponível para ela. Não podes dizer "não quero estar contigo" e, ao mesmo tempo, agir como se tivesses direitos sobre a vida sentimental dela.
Porque quando alguém diz: "Não quero uma relação." A resposta mais saudável pode ser: "Está bem. Mas então também não vou viver como se estivéssemos numa." E isso não é vingança. É limite.
Porque às vezes precisamos de perceber que aceitar aquilo que alguém nos oferece não significa aceitar qualquer condição.
Se uma pessoa só consegue oferecer encontros quando lhe apetece, mensagens quando sente saudades, sexo quando está sozinha e carinho quando tem medo de nos perder, podemos até aceitar.
Mas precisamos de perguntar: "Isto chega-me?" E esta pergunta é muito mais importante do que: "Como faço para que ele mude?"
Porque o amor não deve transformar-nos em negociadores permanentes. Não devemos passar meses a tentar convencer alguém de que somos suficientemente bons para ser escolhidos. Não devemos ter de provar que somos diferentes. Não devemos ficar à espera que alguém perceba o nosso valor. E, sobretudo, não devemos confundir migalhas de proximidade com uma relação.
Há pessoas que dizem: "Eu não quero estar contigo, mas fico com ciúmes quando sais com outras pessoas"; "Não quero compromisso, mas não gosto que te envolvas com mais ninguém"; "Não quero uma relação, mas quero que estejas aqui quando eu precisar."
Isto não é liberdade. É querer liberdade para si e segurança garantida pelo outro. E é precisamente aí que precisamos de colocar um limite.
Não podes pedir exclusividade a alguém a quem recusas compromisso. Não podes querer os benefícios emocionais de uma relação sem aceitar a responsabilidade que vem com ela.
Porque uma relação não é apenas estar presente quando dá jeito. É escolher. É assumir. É cuidar. É estar disponível também quando é difícil. É perceber que aquilo que fazemos tem impacto no outro.
E talvez exista uma pergunta que possa esclarecer tudo: "Se eu disser que não quero uma relação, estou preparado para aceitar que esta pessoa pode apaixonar-se por outra?" Se a resposta for não, talvez exista mais qualquer coisa para compreender.
Porque não querer uma relação é legítimo. Mas querer impedir que o outro siga em frente já é outra coisa.
E isto também vale para quem está do outro lado.
Se alguém te diz que não quer uma relação contigo, acredita. Não transformes a esperança numa estratégia. Não penses: "Ele diz que não quer, mas trata-me como se quisesse."
Pode gostar de ti. Pode desejar-te. Pode ter saudades. Pode ter medo de te perder. Pode até amar-te. E ainda assim não querer uma relação contigo. E esta talvez seja uma das verdades mais difíceis de aceitar.
Porque queremos acreditar que, se existe amor, a relação acaba por acontecer. Nem sempre. Às vezes existe sentimento, mas não existe disponibilidade. Existe desejo, mas não existe compromisso. Existe ligação, mas não existe vontade de construir.
E tu não podes amar alguém até ele ficar preparado. Não podes esperar até ele decidir. Não podes construir uma relação sozinho.
Por isso, quando alguém diz: "Não quero uma relação, mas também não quero perder-te." Talvez seja importante responder menos com: "Como faço para não o perder?" E mais com: "O que é que eu estou disposto a perder de mim próprio para continuar aqui?"
Porque ficar pode custar-te muito mais do que partir. Pode custar-te tempo, autoestima, oportunidades e a possibilidade de conhecer alguém que queira exatamente aquilo que tu queres.
E talvez seja aqui que o amor-próprio precise de aparecer. Não para deixares de gostar. Não para fingires que não dói. Não para transformares a pessoa num vilão. Mas para dizeres: "Eu acredito no que me estás a dizer. Tu não queres uma relação. Eu quero. E por isso não posso continuar a viver numa quase-relação à espera que mudes de ideias."
Isso não é desistir do amor. É deixar de desistir de ti.
Porque há pessoas que não querem perder-te. Mas também não querem escolher-te. E precisas de aprender a reconhecer a diferença.
Ser importante para alguém não é o mesmo que ser escolhido por alguém. E tu não precisas de ser a pessoa que alguém tem medo de perder. Precisas de ser a pessoa que alguém tem vontade de escolher.
