Crónicas

"Mónica Silva, a grávida da Murtosa: quando a verdade que procuramos não chega", por psicóloga Vera de Melo

Nesta crónica, a psicóloga Vera de Melo reflete sobre a absolvição de Fernando Valente no caso do desaparecimento de Mónica Silva, a grávida da Murtosa.

  • 12 jun, 21:27

Rodeada de amigos e família, Vera de Melo lança mais um livro

Vera de Melo apresenta novo livro na Feira do Livro de Lisboa

Vera de Melo lança novo livro: "Acredito que o nosso coração é uma bússola invisível"

Psicóloga Vera de Melo fala sobre novos projetos: "Vou sair da minha zona de conforto"

Psicóloga Vera de Melo cria estratégias para ajudar os pais a afastarem os filhos dos ecrãs

Não vai acreditar no que Vera de Melo fez em criança: "Fugi e disse que não tinha sido eu"

Em preto e dourado, Vera de Melo roubou as atenções na gala de aniversário da TVI!

A absolvição de Fernando Valente no caso do desaparecimento de Mónica Silva, a grávida da Murtosa, voltou a colocar milhares de pessoas perante uma sensação difícil de explicar. Não é apenas surpresa. Não é apenas revolta. Não é apenas alívio. É algo mais profundo. É o desconforto que sentimos quando uma história termina sem nos dar a sensação de que terminou.

Porque há acontecimentos que parecem pedir um fim. Um fim claro. Um fim compreensível. Um fim que permita fechar a porta, respirar fundo e seguir em frente. Mas nem sempre a vida nos oferece esse privilégio. Há histórias que ficam suspensas. Há perguntas que continuam a ecoar muito depois de os tribunais falarem. Há ausências que permanecem presentes. E talvez seja precisamente isso que torna este caso tão difícil de largar.

No fundo, vivemos de histórias. Contamos histórias sobre quem somos, sobre as nossas relações e sobre o mundo que nos rodeia. Fazemo-lo porque precisamos de encontrar sentido nas experiências que vivemos. Precisamos de ligar pontos. Precisamos de encontrar explicações. Precisamos de acreditar que os acontecimentos seguem uma lógica que conseguimos compreender. Quando isso acontece, sentimo-nos mais seguros. Quando não acontece, instala-se um desconforto silencioso que nem sempre sabemos explicar.

É por isso que a incerteza pesa tanto. Porque a incerteza não ocupa apenas espaço nos pensamentos. Ocupa espaço nas emoções. Acompanha-nos nos momentos mais inesperados. Surge quando recordamos uma notícia, quando ouvimos uma conversa sobre o assunto ou quando nos confrontamos novamente com perguntas que permanecem sem resposta. A mente regressa repetidamente ao mesmo lugar, como se estivesse à procura de uma peça perdida de um puzzle que insiste em permanecer incompleto.

E quanto mais incompleto parece esse puzzle, mais difícil se torna afastarmo-nos dele. Talvez por isso existam casos que permanecem vivos na memória coletiva durante anos. Não porque sejam necessariamente os mais mediáticos, mas porque deixam um vazio que ninguém consegue preencher totalmente. Porque nos colocam perante uma realidade que raramente aceitamos de forma tranquila: há situações em que simplesmente não sabemos tudo.

O ser humano tolera melhor uma verdade dolorosa do que uma dúvida interminável. Uma verdade pode magoar. Pode revoltar. Pode partir o coração. Mas uma dúvida prolongada tem a capacidade de nos prender num lugar estranho entre aquilo que sabemos e aquilo que gostaríamos de saber. É um lugar onde a imaginação tenta ocupar o espaço deixado pela falta de respostas e onde a esperança e a inquietação coexistem de forma desconfortável.

Por isso, quando acompanhamos uma história durante muito tempo, deixamos de ser apenas observadores. Sem nos apercebermos, investimos emoções. Criamos expectativas. Imaginamos desfechos. Desejamos respostas. E começamos a sentir que também precisamos delas. Não porque façamos parte da história, mas porque a nossa necessidade de compreender foi ativada por ela.

Quando a realidade não corresponde àquilo que esperávamos, surge uma sensação difícil de descrever. Não porque saibamos mais do que os outros. Não porque tenhamos acesso a informações privilegiadas. Mas porque, algures pelo caminho, o nosso coração já tinha escrito uma versão da história. E despedir-nos dessa versão nem sempre é fácil.

Talvez seja por isso que tantas pessoas continuam a falar deste caso. Porque ele nos confronta com algo que todos tentamos evitar. A possibilidade de não saber. A possibilidade de existirem perguntas sem resposta. A possibilidade de algumas histórias nunca oferecerem o encerramento que desejávamos encontrar.

Vivemos numa época que nos habituou à rapidez. Queremos respostas imediatas. Queremos explicações instantâneas. Queremos certezas. Mas a vida continua a lembrar-nos, vezes sem conta, que nem tudo pode ser esclarecido. Nem tudo pode ser organizado. Nem tudo pode ser compreendido. Existem acontecimentos que permanecem envoltos em silêncio. Existem capítulos que terminam sem conclusão. Existem dores que continuam a existir mesmo quando os processos chegam ao fim.

E talvez uma das tarefas mais difíceis da vida seja precisamente esta: aprender a conviver com aquilo que não conseguimos explicar. Aceitar que algumas perguntas podem permanecer abertas. Reconhecer que nem sempre teremos acesso a todas as respostas que procuramos.

Porque há momentos em que a justiça termina o seu caminho. Mas a necessidade humana de compreender continua a caminhar.

E talvez seja por isso que certas histórias nunca nos abandonam verdadeiramente. Não porque continuem a acontecer, mas porque continuam a viver dentro das perguntas que deixaram para trás.

Vera de Melo
Psicóloga Clínica

Relacionados